quarta-feira, 29 de junho de 2022

No primeiro semestre de 2021, Brasil registra 759 acidentes elétricos

Fonte: Fábio Amaral/Engerey

No início de setembro, a Justiça do Trabalho de Mato Grosso condenou uma empresa de transportes e a tomadora dos serviços pela morte de um motorista, atingido por choque elétrico durante o descarregamento do caminhão basculante na indústria de calcário onde prestava serviço. Em agosto, os Tribunais Regionais Federais da 3ª e da 4ª Região (TRF-3 e TRF-4, respectivamente) determinaram o ressarcimento do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) por gastos com benefícios a vítimas de acidentes de trabalho. No caso do TRF-4, um funcionário de uma fabricante de artefatos de borracha sofreu um choque em uma máquina injetora e ficou permanentemente incapacitado. Já no episódio do TRF-3, um funcionário de uma empresa de engenharia fazia reparos nas instalações elétricas de uma loja da Riachuelo e entrou em contato com barramentos energizados, que causaram um choque elétrico e seu falecimento imediato.

Em todos os casos, tribunais concluíram que, como as empresas não forneceram Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) adequados, são assim consideradas culpadas pelos acidentes com seus trabalhadores. No Brasil, acidentes com eletricidade são mais comuns do que se imagina. Prova disso é o Anuário Estatístico da Associação Brasileira de Conscientização para os Perigos da Eletricidade (Abracopel), que apontou que, só no primeiro semestre de 2021, foram 759 ocorrências, abrangendo choques, incêndios por sobrecarga e descargas atmosféricas (raios) – e 402 mortes.

Somente os choques elétricos foram 441, resultando na perda de 355 vidas, número maior do que das mortes em incêndios por sobrecarga. A pesquisa revela uma tendência de aumento, se comparado com 2020, quando foram notificados 741 acidentes e 398 óbitos, mas ainda menor que o ano de 2019, por exemplo, com 826 ocorrências e 434 notas de falecimentos.

Uma vez que o primeiro semestre de 2021 trouxe a flexibilização do isolamento social e a vacinação esteja caminhando a passos largos, com as pessoas retornando ao seus locais de trabalho, o assunto demanda mais atenção, afinal, nas palavras de Fábio Amaral, engenheiro eletricista e diretor da Engerey – empresa curitibana especializada na montagem de painéis elétricos que atende todo o Brasil –, “choques elétricos são acidentes que podem ser evitados e que, muitas vezes, dependem de medidas simples de segurança, que contribuem para a redução de riscos desnecessários tanto nas casas, quanto nos locais de trabalho. A primeira delas é a conscientização em relação aos perigos da eletricidade, bem como os riscos que a falta de certificação pode trazer para uma instalação elétrica, como choques que podem levar à morte, e danos ao patrimônio”.

Sobrecarga das instalações, falta de manutenção e até a grande incidência de raios no Brasil, a verdade é que os problemas na rede elétrica, doméstica ou comercial, podem ser apontados como um dos principais causadores de incêndios em edificações. Para livrar-se deste tipo de problema, o uso de equipamentos como os Dispositivos de Proteção contra Surtos (DPS) torna-se medida mandatória na hora de montar a infraestrutura de um espaço. Só que, hoje, no Brasil, 70% dos painéis elétricos comercializados não atendem às normas que estão em vigor. Os dados, da Engerey, mostram que o principal motivo é a falta de conhecimento do usuário final, que procura, na maioria das vezes, o preço mais acessível.

Diante da estatística da Engerey e da Abracopel, Amaral sinaliza que todas as empresas devem se preocupar com o assunto, é claro; mas aquelas que trabalham em um ambiente com mais eletricidade, seja no próprio ramo de energia ou em setores que utilizam mais máquinas, por exemplo, precisam redobrar os cuidados. “É responsabilidade do empregador preocupar-se com o bem-estar dos seus colaboradores e viabilizar um espaço seguro para que isso aconteça. Elucidar os colaboradores sobre os riscos dos choques com eletricidade é uma medida que pode minimizar os acidentes no trabalho e salvar vidas”.

Interruptor Diferencial Residual (DR)

Para interromper o perigo de choques elétricos, existem equipamentos como o Interruptor Diferencial Residual, também conhecido como DR, capazes de evitar fugas de energia em um circuito elétrico, que podem acontecer em choques elétricos, fios desencapados, condutores mal isolados ou em contato com carcaças. Detectando anomalias na rede elétrica, o dispositivo desliga imediatamente o circuito, evitando agravamento do choque elétrico. Esse dispositivo de proteção obrigatório em todas as instalações elétricas, mas que nem todos usam, são instalados nos quadros elétricos, funcionando como um interruptor automático, desenergizando o circuito toda vez que houver uma fuga de corrente superior ao que o DR é capaz de detectar. Ou seja: ao passo que o disjuntor protege a instalação, o DR protege as pessoas, sendo extremamente necessário para garantir a segurança e bem-estar dos indivíduos.

Além disso, uma vez que os profissionais que atuam em contato direto com eletricidade estão expostos a inúmeros perigos ao longo de sua jornada laboral, isso exige prudências intrínsecas no que diz respeito à Segurança do Trabalho, conforme determinações da Norma Regulamentadora (NR) 10, do Ministério do Trabalho e Emprego, que cuida justamente da proteção dos trabalhadores que lidam com energia elétrica e diz que é dever da empresa prever ações de emergência envolvendo instalações e serviços elétricos, considerando todos os cenários possíveis e seus respectivos mecanismos de defesa para cada um dos riscos.

Segundo a NBR 5410, emitida e divulgada pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), é obrigatório o uso de DRs nos circuitos terminais que atendam cozinhas, lavanderias, banheiros, copas-cozinhas, áreas de serviço e áreas externas.

Por fim, o DR, juntamente com a manutenção periódica dos quadros elétricos, que sempre deve ser feita por profissionais capacitados e habilitados, é fundamental para residências, condomínios e empresas, garantindo, assim, o bom funcionamento de aparelhos eletrônicos instalados, além da segurança de todos que circulam pelo local.

Dicas

Fazendo um balanço da Norma no que tange aos dispositivos de segurança, que precisam estar adequados à atividade, e o uso de EPIs para ambientes elétricos, a Engerey destaca as principais medidas para evitar choques elétricos nas empresas que lidam diretamente com eletricidade:

– Capacete de segurança classe B;

– Botina de segurança sem nenhum material metálico, com funcionalidade dielétrica, ou seja, capaz de isolar a eletricidade;

– Luva de segurança, garantindo a segurança na manutenção de instalações e serviços com eletricidade em geral;

– Manga isolante de borracha, que protege os braços e proporciona mais segurança para exercer determinadas atividades em que o risco pode ser maior;

– Cinto de segurança, para quando o trabalho for realizado em altura;

– Protetor facial contra arco elétrico;

– Vestimentas especiais, com camisas e calças especiais contra agentes térmicos provenientes do arco elétrico.

Nas demais, são essenciais os seguintes procedimentos:

– Uso de DR, obrigatório desde 1997, de acordo com o item 5.1.3.2.2 da Norma Brasileira (NBR) 5410, nos seguintes circuitos: que servem a pontos de utilização situados em locais que contenham chuveiro ou banheira; que alimentam tomadas situadas em áreas externas à edificação e em ambientes internos, que possam vir a abastecer equipamento em área externa; e que servem a pontos de utilização localizados em cozinhas, copas, lavanderias, áreas de serviço, garagens e demais dependências internas, normalmente molhadas ou sujeitas a lavagens constantes;

– Utilização dos equipamentos certificados conforme as normas da ABNT, como a NBR 16384/2020;

– Em caso de manutenções, contratar o serviço de um profissional experiente e habilitado na área;

– Manter o quadro elétrico sempre em ordem;

– Nunca fazer “gambiarras”;

– Não deixar equipamentos elétricos perto da água;

– Evitar usar o celular enquanto ele está carregando.

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