quarta-feira, 25 de maio de 2022

Manual para seleção de EPI – Proteção Auditiva

Equipamentos de Proteção Individual precisam oferecer proteção e conforto aos trabalhadores expostos a níveis elevados de ruído

Um dos sentidos mais importantes do ser humano, a audição permite uma melhor comunicação e momentos de lazer, além de ser muito útil na maioria das atividades laborais. Por isso, merece uma atenção especial quando o assunto é Segurança e Saúde do Trabalho, principalmente em ambientes industriais, aeroportos, oficinas, canteiros de obras, entre outros. Ou seja, locais que expõem os trabalhadores a níveis elevados de ruído.

Para a Organização Mundial da Saúde, o limite de conforto auditivo do organismo é de 50 dB (decibéis) e, passando disso, o trabalhador já começa a sentir desconfortos. Trazendo os Limites de Tolerância para ruídos, a Norma Regulamentadora 15 – Atividades e Operações Insalubres, aponta que exposições acima de 85 dB por oito horas podem causar perda auditiva. Conhecida como PAIR (Perda Auditiva Induzida por Ruído), a doença de origem ocupacional ocorre porque a audição do funcionário é exposta a altos níveis de ruído por um tempo prolongado, prejudicando-a de forma permanente e irreversível.

Zumbidos, sensação de ouvidos ‘can­sados’, perdas temporárias de audição também podem aparecer com a exposição do trabalhador a ambientes ruidosos, seja de forma permanente ou intermitente. A perda auditiva e seus sintomas são progressivos, conforme a repetição de exposições a elevados níveis de ruído por tempo considerável.

Além de afetar a audição, ruídos altos acabam acarretando outras consequências à saúde dos colaboradores, criando estresse físico e psicológico, reduzindo produtividade, interferindo na comunicação e concentração, contribuindo ainda para acidentes e lesões no local de trabalho.

Para eliminar ou reduzir a exposição ao ruído, o empregador deve observar as hierarquias de medidas de controle, buscando primeiramente estratégias de engenharia e administrativas. Após, permanecendo a exposição acima dos limites de tolerância, é chegada a hora da seleção do protetor auditivo mais adequado, conforme prevê a NR 6, considerando os níveis de pressão sonora estabelecidos na NR 15. De modo geral, os EPIs disponíveis no mercado se dividem em dois grandes grupos: tipo inserção e tipo concha.

AVALIANDO O AMBIENTE

Antes de fazer a seleção do EPI que de fato oferecerá proteção auditiva ao trabalhador, deve ser realizada a avaliação da exposição dos trabalhadores a fontes de riscos que possam contribuir para a ocorrência de perdas auditivas. Além do ruído, substâncias ototóxicas (agentes químicos que podem causar perda auditiva) e vibração são elementos importantes. O reconhecimento dos ambientes e das condições de trabalho, as atividades realizadas, as situações de rotina e específicas e a identificação, quantificação e classificação das exposições com relação ao ruído integram essa análise.

Outras características do ambiente e atividades também precisam ser levadas em consideração, como a sujidade e a temperatura. A vedação é outro dos fatores primordiais: se não vedar, não protege. No caso do protetor de inserção, ele faz a vedação diretamente no canal auditivo, por isso, a anatomia do usuário e a colocação do EPI influenciam na vedação. Já o tipo concha é colocado na lateral da cabeça e ao redor das orelhas. A compatibilidade com outros equipamentos também é importante, principalmente para os protetores tipo concha, uma vez que sua atenuação pode sofrer interferência de bonés, toucas, óculos, etc.

Nas situações em que os colaboradores atuam com exposições acima de 85 dB por oito horas, o Equipamento de Proteção Individual deve ser utilizado durante toda a jornada laboral nos setores/áreas identificadas, ou sempre que houver exposição ao ruído a níveis elevados. Também é recomendado que ele seja adotado, de forma preventiva, em atividades que expõem os trabalhadores a níveis elevados de ruído, mesmo que por apenas alguns segundos ou minutos.

Muitos trabalhadores não gostam de utilizar protetores auditivos por eles causarem incômodo, o que acaba expondo sua saúde e segurança. Por isso, o conforto do usuário é outro quesito relevante. O ideal é que o trabalhador escolha, entre as opções tecnicamente adequadas, aquela em que ele se sente mais confortável e protegido.

Nas atividades em que o colaborador precisa manter comunicação com os colegas enquanto trabalha exposto ao ruído, deve-se pensar em alternativas para que não seja necessária a remoção do protetor auditivo ou mesmo sua colocação de modo irregular. Existem EPIs que, além de protegerem a audição, também se conectam a dispositivos e permitem que o trabalhador fique comunicável.

CERTIFICADO DE APROVAÇÃO

Todo protetor auditivo deve possuir o Certificado de Aprovação. Nele constarão as informações do equipamento, como as características e normas de ensaio. Outro elemento importante desses EPIs constante no CA é o NRRsf (Nível de Redução de Ruído), que expressa a atenuação do protetor auditivo. Isto significa que, teoricamente, o ruído que chega dentro da “orelha protegida” (que utiliza protetor auditivo) deve ser estabelecido por uma subtração direta entre o “Ruído Ambiente” (dose de exposição do usuário medida próxima da zona auditiva) e o “NRRsf” (atenuação  indicada através do CA) do protetor auditivo. Considerando a anatomia do canal auditivo do trabalhador, nível de treinamento, conscientização, etc., a atenuação dos protetores auditivos pode ser muito variável de pessoa para pessoa. Daí a importância do Ensaio de Atenuação Pessoal – entenda melhor o assunto a partir da página 48.

Ao observar o CA dos protetores auditivos para fazer esse cálculo, um dos objetivos é evitar a subproteção (atenuação insuficiente), mas a superproteção também pode ser perigosa ao trabalhador. Isso porque, mesmo que não ofereça diretamente risco de perda auditiva, limita muito a audição dos colaboradores impedindo, por exemplo, que escutem um sinal de alarme, uma peça de um equipamento pesado se movimentando, aumentando o risco de acidentes. (Vide quadro Nível Ideal).

Esses e outros fatores são apresentados no Guia de Diretrizes e Parâmetros Mínimos para a Elaboração e Gestão do Programa de Conservação Auditiva, da Fundacentro. É no PCA, a ser desenvolvido pela empresa, que serão apresentadas as atividades planejadas para prevenir ou estabilizar perdas auditivas ocupacionais por meio de um processo de melhoria contínua.

Momento crucial

Seleção do protetor auditivo mais adequado exige avaliação individual

Ambientes que expõem trabalhadores a altos níveis de ruído exigem o emprego de protetores auditivos para garantir a saúde e a segurança durante o exercício da sua atividade laboral. Para a seleção e compra do Equipamento de Proteção Individual mais adequado, deve-se conhecer os produtos disponíveis no mercado.

De modo geral, são comercializados hoje protetores do tipo inserção e protetores do tipo concha. Como o próprio nome já diz, os primeiros devem ser inseridos nos canais auditivos dos colaboradores e sua vedação ocorre ali mesmo, no canal auditivo.

Os protetores do tipo inserção se dividem em três subcategorias: pré-moldados, moldáveis e ‘empurre para ajustar’ (do inglês Push-To-Fit). No caso dos protetores auditivos pré-moldados, eles geralmente são compostos por uma haste e três flanges confeccionadas com copolímeros ou silicone, e quase sempre vêm acompanhados de cordão. Podem ser utilizados em todo o tipo de ambiente e não necessitam de roletamento. São reutilizáveis e, portanto, devem ser observadas as etapas de higienização adequadas. A limpeza deve ser realizada diariamente com água e sabão neutro para evitar acúmulo de sujeira e proliferação de fungos e bactérias.

Já os protetores moldáveis são feitos de espumas que se moldam ao canal auditivo do trabalhador, proporcionando grande conforto. São descartáveis e precisam ser roletados no momento da inserção, ideais para quem passa muitas horas em ambiente ruidoso. A terceira e mais nova categoria, recém-chegada no Brasil, possui características híbridas às duas anteriores, já que os protetores possuem ponteiras de espuma, que proporcionam a vedação e o conforto, além de uma haste mais firme, porém flexível, para que o usuário possa fazer a inserção sem necessitar roletar. Podem ser descartáveis ou reutilizáveis, de acordo com os modelos disponíveis.

Também em destaque entre os protetores auditivos disponíveis no mercado, os tipo concha possuem um par de conchas, em geral unidas por uma haste, ou acopladas ao capacete de segurança. Esses EPIs proporcionam a vedação por meio da maciez das almofadas laterais e da força exercida pela haste nas laterais da cabeça do usuário. São fáceis de serem colocados/retirados, proporcionam atenuação muito semelhante nas duas orelhas e ainda são de uso externo.

PARTICULARIDADES

Existem dois outros tipos de protetores auditivos, que são o ‘capa de canal’ e o ‘comunicadores’. Por não ser inserido no canal auditivo do trabalhador, o capa de canal é uma categoria à parte, ideal para atividades em que há a necessidade de se colocar ou retirar o protetor muitas vezes durante a jornada. No geral, é composto por uma haste flexível, que une um par de pequenas ponteiras de espuma. A vedação acontece na entrada do canal auditivo e a atenuação não é tão elevada. Já os comunicadores costumam ser no formato tipo concha, porém contam com a presença de partes eletrônicas que permitem a comunicação como microfones, alto-falantes e cabos. São ideais para situações laborais em que a proteção auditiva e a comunicação se fazem necessárias ao mesmo tempo.

A princípio, não há um tipo de protetor auditivo totalmente indicado para um setor, atividade ou tarefa. Assim como não há um que seja absolutamente contraindicado. Cada situação é única. Os setores de mineração, petroquímico e de óleo e gás, por exemplo, conciliam ambientes com necessidade de uso de capacete, entradas e saídas constantes de ambientes ruidosos e ainda a presença de poeiras/vapores. Nesses casos, há uma tendência de adoção do modelo tipo concha acoplado ao capacete, que além de proteger a audição do colaborador, facilita o transporte, a visualização do uso à distância, dificultando a perda do EPI.

O que não quer dizer que não existam empregados do setor que optem pelo protetor auditivo do tipo inserção, seja pela anatomia ou preferência pessoal do usuário. Quando isso acontece, é preciso reforçar junto ao trabalhador os cuidados diferenciados de uso, higienização, manutenção e troca.

Da mesma forma, colaboradores que não fazem uso do capacete na indústria podem optar pelo protetor auditivo tipo concha ao invés do tipo inserção, que é o mais usual. Algumas pessoas possuem canais auditivos menores e mais tortuosos, excesso de cera, entre outras especificidades que dificultam o uso do EPI inserido na orelha.

ENSAIO DE ATENUAÇÃO

Em uma rápida pesquisa entre u­suá­rios de protetores auditivos, facilmente se encontrará trabalhadores que preferem os protetores de inserção, por se incomodarem com a pressão nas laterais da cabeça. Do mesmo modo, outros darão preferência ao protetor tipo concha, que não exige que o EPI seja inserido no canal auditivo. Isso considerando apenas o quesito ‘conforto’. Por isso, a seleção dos protetores auditivos deve ser a mais individualizada possível, já que a anatomia das pessoas é única, além do que, a sensação de conforto é muito pessoal.

O Ensaio de Atenuação Pessoal faz esse papel ao determinar se o equipamento selecionado proporciona atenuação adequada para o indivíduo. Informando ao colaborador que a finalidade do ensaio é a escolha do protetor auditivo mais adequado para sua proteção, deve-se primeiramente mostrar a ele a maneira correta de colocação do EPI, se possível disponibilizando um espelho para melhor visualização. Nesse momento, serão eliminados os protetores que não oferecem ajuste adequado ao trabalhador.

Os protetores auditivos selecionados devem ser separados e aquele que, a princípio, se mostrar mais apropriado, deve ser colocado pelo trabalhador e utilizado por no mínimo cinco minutos. Se durante esse período for observado desconforto ou dificuldade de ajuste, outros modelos ou tamanhos devem ser experimentados. Todos os ajustes precisam ser realizados pelo próprio trabalhador.

Crédito: Shutterstock

Somente devem ser considerados aprovados os protetores auditivos que proporcionarem ao usuário o NAP (Nível de Atenuação Pessoal) de no mínimo o valor do NRRsf (Nível de Redução de Ruído) do protetor auditivo.

O ensaio de atenuação pessoal precisa ser realizado enquanto o usuário utiliza todos os EPIs ou outros equipamentos que fazem parte de sua rotina laboral e possam interferir na proteção oferecida, como óculos, respiradores, capacetes, bonés, etc. Deve ser repetido no mínimo uma vez por ano, ou sempre que houver troca de modelo ou tamanho. Em alguns casos, uma pequena diferença no material de fabricação faz total diferença nos níveis de proteção individual, conforto e aceitação. O ensaio também precisa ser refeito quando o colaborador apresentar alguma alteração que possa interferir na colocação e/ou vedação do EPI, como cicatriz na área da vedação, alteração na arcada dentária, alterações significativas no volume de cabelos ou pelos faciais, entre outras.

TESTE DE VEDAÇÃO

Já com o EPI devidamente avaliado e entregue, existem maneiras do trabalhador verificar a vedação do protetor auditivo de forma qualitativa e diária sem precisar de equipamentos. Ao colocar o protetor auditivo, o usuário precisa verificar o vazamento sonoro, observando que os sons da sua própria voz ou ao seu redor não devem ser percebidos tão altos quanto anteriormente. No caso de protetores auditivos do tipo inserção, o colaborador deve puxar levemente o EPI e ele não pode se mover facilmente.

Também é importante que o usuário seja submetido à reprodução de sinais sonoros em ambiente silencioso por meio de alto-falante ou fone de ouvido externo tipo concha (headphone) para atestar que o nível mínimo de atenuação foi obtido.

Caso seja constatada falha no ajuste do protetor auditivo, o trabalhador deve recolocar o protetor auditivo e repetir o teste. Se ainda assim persistir falha no ajuste, é necessário buscar imediatamente orientação na área de Saúde e Segurança do Trabalho, que irá avaliar o estado de conservação do protetor ou buscar outras possíveis causas.

Deverão constar no Programa de Conservação Auditiva questões relacionadas à inspeção, manutenção, higienização e guarda dos protetores auditivos. Também é preciso indicar a periodicidade para a substituição do EPI usado por um novo, considerando-se os critérios legais estabelecidos e a sua degradação, que pode variar de acordo com a atividade, a frequência de higienização, a sujidade e a exposição a agentes físicos, químicos e biológicos presentes no ambiente de trabalho, como, por exemplo, a temperatura.

A elaboração de um protocolo de monitoramento de utilização de protetores auditivos é outra boa prática recomendada, assim como auditorias internas sem aviso prévio, que devem ser conduzidas pelos responsáveis pelo PCA.


Baixe em PDF o Manual para seleção de EPIs – Proteção Auditiva

Conteúdo e colaboração técnica de Rafael P. Fernandes, engenheiro Químico e de Segurança do Trabalho, Higienista Ocupacional, Engenheiro de Aplicação de Equipamentos de Proteção Individual da 3M para a América Latina, especialista em implantação de Programas de Conservação Auditiva ([email protected]).

Esta é a sétima de uma série de reportagens sobre a forma de selecionar os EPIs adequados.

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