quarta-feira, 29 de junho de 2022

Filme “Pureza” conta a heroica história da maranhense que lutou para livrar o filho do trabalho escravo contemporâneo

Fonte: G1

Estreou no dia 19 de maio, em todo o Brasil, o filme ‘Pureza’, que conta a história da mãe maranhense Pureza Lopes Loyola, que durante três anos enfrentou diversos perigos e obstáculos para encontrar seu filho caçula, Antônio Abel, que tinha ido ao Pará em busca da sorte no garimpo.

A luta de Dona Pureza a tornou um símbolo do combate ao trabalho escravo contemporâneo e agora a história dela chega aos cinemas, sendo interpretada pela atriz Dira Paes.

A luta dela, iniciada em 1993, levou à criação de grupo que já resgatou 57 mil trabalhadores em condições análogas à escravidão. Considerada uma heroína abolicionista contemporânea, a luta de dona Pureza foi reconhecida internacionalmente e, assim, em 1997, recebeu em Londres o Prêmio Antiescravidão oferecido pela organização não governamental britânica Anti-Slavery International, a mais antiga organização abolicionista em atividade.

E para comemorar o lançamento do longa no Maranhão, protagonizado pela atriz Dira Paes, foi realizada uma coletiva de imprensa do filme na Procuradoria Regional do Trabalho – PRT 16ª Região, em São Luís, com participação da dona Pureza, da direção, elenco e convidados.

O longa, dirigido por Renato Barbieri e produzido por Marcus Ligocki Jr., já foi vencedor de 28 prêmios nacionais e internacionais.

Durante o evento, Pureza Lopes contou que enfrentou grandes dificuldades na saga em busca de seu filho e que viu de perto o desespero de trabalhadores submetidos à escravidão contemporânea. “Eu vi muito choro, homem chorando como criança. Eu nada poderia fazer e apelava para Jesus de Nazaré. Eu perguntei porque ele (o trabalhador) tanto chorava, ele disse que era porque estava devendo e não podia sair. Tinha mais de 60 homens e eles começaram a conversar e dizer que não podiam sair sem pagar a conta, só que essa conta só aumentava. Além de trabalharem de graça, ainda compravam a comida mais caro. É dureza, eu vi com meus olhos”, relatou a maranhense.

Dona Pureza também contou sobre as condições nas quais encontrou o filho Abel, após três anos de busca incessante. “Meu filho estava com malária, doente, já estava no Mato Grosso, inchado até a cintura. As pernas feridas de mosquito beliscar. Eu sofri mais do que cavalo no sertão com carga d´água. Foi a última coisa que eu fiz, foi pedir pra Jesus que queria meu filho vivo, custasse o quanto custasse. Custasse até a minha vida, mas queria meu filho vivo. E eu fazia esse clamor a Deus, colocava meu rosto no chão e clamava a Jesus de Nazaré e ele providenciou. Hoje eu sou a pessoa mais rica que tem. Sou vencedora de uma briga perante um país tão grande que nem o nosso e tão rico. É o mais rico que tem no mundo, então pra que escravidão? Porque não leva o povo e paga? Trabalhou pagou”, defende dona Pureza.

O diretor do filme Renato Barbieri trabalhou por cerca de 17 anos até o lançamento do longa. O cineasta destaca que o filme retrata apenas acontecimentos reais e falas de fato ditas por dona Pureza, porque sua história é tão rica que não precisou inserir histórias para encher espaço. O diretor destacou que para a produção do filme houve um intenso trabalho de pesquisa, para tentar transpor para a tela do cinema a profundidade, o impacto e importância da história de Pureza.

“Foi uma pesquisa muito intensa, eu fui entrevistando trabalhadores que foram escravizados, falei muito com dona Pureza, fui conhecendo os abolicionistas, pessoas que foram me dando muito subsídio. No fim, essa pesquisa ficou tão grande, e o filme se passa de 1993 a 1995, que é o período da jornada heroica de dona Pureza. O cinema é arte e é ciência, e a gente foi fazendo esse filme dentro de uma tecitura dramatúrgica, artística e cinematográfica”, destacou Barbieri.

O diretor também abordou o fato de o trabalho escravo contemporâneo ainda ser uma realidade no Brasil, por isso o filme Pureza é tão importante, pois traz à tona a servidão a qual milhares de trabalhadores brasileiros são submetidos.

“Infelizmente é uma história atualíssima, ela poderia ter acontecido hoje, em 2022. Infelizmente isso acontece. Tem muitas Purezas, mães absolutamente angustiadas pelo sumiço de seus filhos ou então essas mães recebem os restos dos seus filhos, como se fossem veteranos de guerra. O nosso país é rico, mas vivemos em um estado que eu diria que é colonial, porque ao mesmo tempo que a gente se separou de Portugal, nós nos tornamos colônia de nós mesmos, da nossa própria elite oligárquica escravagista. Então eu acho que está na hora da gente escrever um novo livro, um livro de uma nação livre”, defende Barbieri.

Um dos atores do filme é Marinaldo Soares Santos, um trabalhador que foi resgatado por três vezes de situação análoga à escravidão e atualmente faz parte da militância contra a exploração da mão de obra. Para ele, participar do filme foi uma oportunidade de mostrar a história que ele viveu.

“Eu fui escravizado desde os meus 18 anos e fui resgatado três vezes. E acontecia de eu estar sendo escravizado e eu achava normal, achava que era porque eu era pobre e precisava daquilo ali. Na verdade eu nem reconhecia o meu direito. Só depois que eu fui resgatado pela Centro de Defesa e me deram muitas explicações, foi que eu caí na real. E mostrar nossa história é um jeito de mostrar para as pessoas que ainda existe trabalho escravo e foi um gesto de pedir socorro, pra ver se damos um jeito de acabar com o trabalho escravo. Porque se ficarmos de braços cruzados continuaria sempre do mesmo jeito ou até pior”, destacou Marinaldo.

Para a procuradora do Trabalho no Maranhão Virgínia de Azevedo Neves, a história de Marinaldo e dona Pureza retratam uma realidade ainda persistente no Brasil, principalmente no Maranhão, que ainda é o Estado do Brasil que mais alicia e fornece mão de obra escrava. A procuradora destaca que esse crime ainda acontece de forma intensa pela falta de políticas públicas que sejam capazes de modificar toda uma estrutura escravagista na qual o Brasil está inserido.

“O trabalho escravo é muito rentável, gera lucro para o empregador, porque ele escraviza e ganha muito dinheiro não cumprindo as obrigações trabalhistas. Então, gera muito lucro no Brasil e no mundo e ele existe, primeiro, por causa do contexto histórico do nosso país. A história do Brasil de escravidão é de pessoas que foram, teoricamente, libertadas, mas que não teve nenhuma política pública de inserção dessas pessoas. Então, elas foram abandonadas e não tiveram uma profissionalização adequada. E os descendentes dessas pessoas vivem uma situação de pobreza absoluta, de desigualdade absoluta e pra sobreviver, elas têm que se submeter a esse tipo de trabalho”, explica Virgínia de Azevedo.

A procuradora do Trabalho também destaca que, ainda hoje, o Brasil não possui políticas públicas para a população mais pobre e há, também, uma negação por parte de muitas autoridades políticas de que haja trabalho escravo.

“No momento em que as autoridades negam o trabalho escravo, já destrói toda aquela política que vinha avançando. Fora isso, é a questão do investimento. Como é que eu posso combater o trabalho escravo? É com prevenção, repressão, mobilização social, que é a função do filme Pureza, e conscientização. Se eu não tiver recurso público direcionado para isso, eu não vou conseguir avançar”, enfatiza a procuradora Virgínia de Azevedo.

A saga de uma mãe

Pureza Lopes Loyola, que foi a inspiração do filme ‘Pureza’, é uma maranhense, nascida na cidade de Presidente Juscelino, município a 85 km de São Luís. Depois ela se mudou para Bacabal, a 240 km da capital, por causa do marido. Mas o casamento chegou ao fim, e dona Pureza ficou com cinco filhos para criar.

Para sobreviver, ela e os filhos trabalhavam em uma olaria e com a venda de tijolos. Evangélica, ela alfabetizou-se aos 40 anos com o objetivo de ler a Bíblia.

Em 1993, a vida de Pureza tomou um rumo inimaginável. Depois de meses sem receber notícias do filho caçula, Antônio Abel, que tinha ido para o Estado do Pará em busca da sorte em um garimpo, Pureza decidiu seguir seu rastro. Ela saiu de casa apenas com a roupa do corpo, uma bolsa, sua Bíblia e uma foto do filho Abel.

Em busca de Abel, Pureza desafiou fazendeiros e jagunços para resgatar o filho da escravidão contemporânea na Amazônia brasileira. Ela se infiltrou em fazendas como cozinheira e descobriu um perverso sistema de aliciamento e escravidão de trabalhadores, que eram ‘contratados’ com falsas promessas, para derrubar grandes extensões de mata nativa a fim de converter a área em pastagem para o gado.

De fazenda em fazenda, Pureza conheceu de perto o drama dos peões e se tornando amiga e confidente de muitos trabalhadores. Ela conheceu o esquema dos empregadores, que confiscavam os documentos de identidade dos empregados e os tornavam totalmente dependentes dos encarregados para obter roupa, comida e produtos básicos. Pureza também ouviu relatos de trabalhadores que poderiam ser mortos se tentassem se rebelar ou fugir.

Após conseguir fugir do cárcere privado, dona Pureza decidiu agir e denunciou a situação dos trabalhadores. Com a ajuda da Comissão Pastoral da Terra (CPT), Pureza entrou em contato com o Ministério do Trabalho e o Ministério Público do Trabalho no Maranhão, no Pará e em Brasília. A mãe chegou a escrever cartas para três presidentes da República: Fernando Collor, Itamar Franco (o único que lhe respondeu) e Fernando Henrique Cardoso. Até hoje, ela guarda uma cópia de cada uma dessas cartas.

O reconhecimento da história heroica da luta de Pureza para encontrar Abel fez com que, em 1995, fosse criado o primeiro grupo especial móvel de fiscalização para fazer cumprir a lei e garantir os direitos trabalhistas em todo o território nacional. Do ano de criação até 2021, esse grupo conseguiu libertar mais de 57 mil trabalhadores em condições análogas à escravidão.

Além do grupo, a luta de Pureza também fez com que ela recebesse, em 1997, em Londres, o Prêmio AntiEscravidão da Anti-Slavery International, a mais antiga organização de combate ao trabalho escravo em atividade no mundo.

Atualmente, Abel vive na cidade de Bacabal com dona Pureza e a família.

O filme que relata essa história heroica pode ser visto a partir desta quinta-feira (19), nos principais cinemas do Brasil.

Trabalho escravo no Maranhão

Segundo o Ministério Público do Trabalho (MPT), o Maranhão continua sendo o maior fornecedor de mão de obra escrava do Brasil. O trabalho escravo contemporâneo é uma das tipificações do crime de tráfico de pessoas.

Segundo dados do Observatório Digital do Trabalho Escravo (MPT / OIT), 22% dos trabalhadores encontrados em situação análoga à escravidão no Brasil são maranhenses.

De 2003 a 2018, em todo território nacional, foram resgatados 8.119 trabalhadores nascidos no Maranhão, sendo que, 49% dessas vítimas se declararam pretas ou pardas. Em todo o território nacional, foram resgatados 45.028 trabalhadores de situações análogas à escravidão, com 54% das vítimas se declarando pretas ou pardas.

Entre os maranhenses resgatados, 39% eram analfabetos, 36% possuíam ensino fundamental incompleto e 82% das vítimas trabalhavam no setor agropecuário.

Setores Econômicos em que há mais casos de resgatados maranhenses:

  • 39% – criação de bovinos para corte
  • 22% fabricação de álcool
  • 16% – cultivo de arroz

Fluxos migratórios dos resgatados maranhenses

Entre os municípios maranhenses com maior número de trabalhadores egressos estão:

  • Codó (357 pessoas)
  • Açailândia (326)
  • Pastos Bons (267)
  • Imperatriz (230)
  • Santa Luzia (191)

Ainda segundo o MPT/OIT, os estados de destino dos trabalhadores resgatados nascidos no Maranhão são: Pará, São Paulo, Amapá, Tocantins, Ceará e Minas Gerais.

Legislação

O Brasil sancionou a Lei 13.344/2016, cujo texto inclui no Código Penal o crime de tráfico de pessoas, tipificado pelas ações de agenciar, recrutar, transportar, comprar ou alojar pessoa mediante ameaça, violência, fraude ou abuso, com a finalidade de remover órgãos, tecidos ou parte do corpo, submetê-la a condições análogas à escravidão, adoção ilegal e/ou exploração sexual.

Tráfico de pessoas no Brasil

O Ministério Público do Trabalho (MPT) registrou no país 1.496 denúncias de aliciamento e tráfico de trabalhadores, no período de 2014 ao início de julho deste ano.

Dados do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) revelam que o tráfico de pessoas movimenta mais de 30 bilhões de dólares e explora cerca de 2,5 milhões de pessoas no mundo.

Segundo o Ministério da Justiça, em 2018 e 2019, 184 brasileiros foram arrancados do país devido ao tráfico de pessoas – 30 deles (16%) eram crianças e adolescentes. Os casos são subnotificados.

Como denunciar

As denúncias contra o tráfico de pessoas e o trabalho escravo devem ser feitas por meio do Disque 100 e do Ligue 180. Casos também podem ser denunciados ao MPT, pelos sites

www.mpt.mp.br ou www.prt16.mpt.mp.br (MPT-MA) e, ainda, pelo aplicativo MPT Pardal (disponível gratuitamente para Android e iOs).

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