10 mudanças no trabalho humano e questões ergonômicas do ‘novo normal’

As mudanças ocorridas no mundo do trabalho após 14 de março são enormes, com impactos em Ergonomia e em Organização do Trabalho. Relacionamos aquelas mais importantes que temos visto:

1. Distanciamento e máscara

Esta passa a ser a realidade do mundo do trabalho. Quanto tempo vai durar? No mínimo uns três anos, até que se tenha uma significativa porcentagem da população dotada de imunidade coletiva ou até que se tenha uma boa cobertura vacinal. A distância mínima entre as pessoas (que lembra os ingleses) e o uso constante de máscara (que lembra os asiáticos) são vistos nos ônibus que transportam os trabalhadores, nos refeitórios, nos postos de trabalho das linhas de produção, na volta dos cubículos nos escritórios remanescentes e no relacionamento entre as pessoas.

Os protocolos estão aí. Temos a famigerada e contestada Portaria Conjunta 20 (de 18 de junho de 2020), dos Ministérios da Economia, Saúde e Agricultura. Mas o melhor mesmo é se guiar pela orientação da OIT (ver adiante).

2. Protocolos de higiene rígidos 

Se a figura do portador de TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo) com mania de limpeza nos causava estranheza e poderia ser considerada até uma figura caricata, agora tudo passa a ser dessa forma, uma vez que temos entre nós um inimigo invisível, que gosta de aglomeração, de pessoas e de pouca higiene.

Os protocolos de limpeza das mãos e de higiene estão disponíveis. O Manual Safe Return to Work: Guide for Employers on COVID-19 Prevention, editado pela OIT em 7 de maio, continua sendo a referência de atuação.

3. Quase ninguém nos escritórios

2019 foi o ano da consolidação dos escritórios open-spaces: áreas amplas, pessoas trabalhando umas de frente para as outras, ar condicionado perfeito. Tudo em nome de um modelo de trabalho que, subitamente, foi abandonado. Os open-spaces se transformaram em empty-spaces. Quando voltarão a ser habitados? A perder de vista.

4. Home office e teletrabalho: o provisório que está virando definitivo 

A OIT calcula que, mesmo após o arrefecimento da pandemia, trabalhar em home office será realidade para 18% de todos os trabalhadores no mundo e, conforme o país, para 40%. Já exaustivamente debatida, a mudança traz implicações bem conhecidas, como as condições ergonômicas, a dificuldade de conciliar o tempo do trabalho e o dos familiares, o estabelecimento de horários dedicados e a abordagem de conflitos na vida familiar. Outro aspecto que não pode ser negligenciado é que, com o trabalho remoto, transfere-se para o próprio indivíduo aquilo que era próprio da empresa: a regulação de conflitos na relação empregador-empregado.

5. O abre e fecha da economia e seus impactos 

Como uma sanfona, a abertura e o fechamento da economia e os ciclos de expansão e retração das atividades das empresas trazem muita tensão para as pessoas. Pode ser decorrente de aguardar a chamada, de ir trabalhar e retornar por não haver demanda, ou a tensão e insegurança pelo receio da demissão.

6. Acentuação do adoecimento mental 

A linha divisória entre saúde e adoecimento mental é muito tênue. Ela se mostrou bastante evidente na pandemia de Covid-19 entre pessoal da saúde, tendo que lidar com jornadas de trabalho prolongadas, muitas vezes em manobras de alta carga viral, e ainda mais tendo que se confrontar com a falta de condições materiais e humanas. Casos de burnout são previstos nessas situações e, de fato, ocorreram e estão ocorrendo.

Outros aspectos relacionados à fragilidade mental do momento são o pró

prio medo do adoecimento, a vivência de casos de parentes com adoecimento e óbito por Covid-19, além do temor em relação às perspectivas profissionais nos segmentos econômicos mais atingidos pela recessão.

Além disso, muitos dos fatores assim denominados psicossociais continuam existindo, e em alta intensidade.

7. Idosos, mulheres e jovens ficaram no prejuízo

 No “novo normal”, idosos foram muito atingidos pela perda do trabalho, conforme já demonstram as últimas estatísticas da PNAD Contínua (IB-GE): pode ter sido por decisão pessoal de já aposentados, pelo acesso ao Benefício de Prestação Continuada, como também tem havido decisão de empregadores de se livrarem de possíveis responsabilidades, uma vez que ter mais de 60 anos é conhecido como fator de risco de evolução para o óbito em casos de Covid-19. 

Mulheres também foram muito atingidas, por fatores diversos, especialmente porque muitos dos setores duramente atingidos pela recessão (varejo, hotelaria, turismo, viagens, restaurantes, salões de beleza e outros) terem predominância natural de mão de obra feminina. O fechamento das creches e escolas agravou as dificuldades de boa parte das mães em home office.


Se os jovens já tinham dificuldade de colocação profissional antes da pandemia, muito mais agora. Chega-se mesmo a dizer que estamos no limiar de uma nova geração de jovens desempregados e desocupados: a “Geração Lockdown.”

8. Ar condicionado: sob vigilância extrema 

Aquele que era um sinal de conforto nos tempos pré-pandemia, agora é abominado. Os ambientes necessariamente terão que ter janelas que possam ser abertas (ou que sejam mantidas abertas), com o seguinte mantra: “ventilação, ventilação, ventilação” e não à reciclagem do ar. 

Outro aspecto que demanda atenção é a revisão cuidadosa da higiene dos dutos de ar condicionado central.

9. Tudo igual nos fatores psicossociais e nas antigas más condições ergonômicas 

As pressões de níveis superiores, as datas-limites para a conclusão de trabalho, as situações de estresse continuam iguais ou um pouco maiores. A conhecida trilogia do adoecimento mental (busca frenética por resultados financeiros + sistemas tayloristas + busca obsessivo-compulsiva de máximo de resultados no menor tempo possível) continua existindo. Assim, faz parte do “novo normal” alguma coisa que já era parte do “antigo normal”: o Trabalho IDT (Intenso, Denso e Tenso), agora com uma letra a mais: P (Precarizado).

De forma idêntica, empresas que tinham problemas ergonômicos tradicionais, especialmente com sobrecarga para a coluna vertebral, continuam tendo os mesmos problemas.

10. SARS-CoV-2 como acelerador do futuro 

As tecnologias 4.0 já vinham ocorrendo no Brasil desde 2015. Com a Covid-19, elas estão se acentuando. Afinal, sistemas automatizados deixam as empresas menos vulneráveis em casos de afastamentos de trabalhadores. Assim, estamos assistindo a um aumento dos investimentos em processos movidos por internet das coisas, realidade virtual, realidade aumentada, robôs colaborativos e sistemas tecnológicos inteligentes. É bom lembrar que, um dos impactos desses sistemas na carga de trabalho, é a acentuação do trabalho TTTQL (Trabalha-se o Tempo Todo em Qualquer Lugar).

Destaque final para outras mudanças irreversíveis decorrentes da Covid-19: a enorme redução do turismo de negócios (com aumento significativo das reuniões virtuais), as alterações no campo do ensino (com a adoção de técnicas semipresenciais) e a telemedicina. 

Quem sobreviver, verá.


* Texto publicado na coluna Ergonomia na edição 345 (setembro/2020) da Revista Proteção, de autoria de Hudson de Araújo Couto, médico do Trabalho, doutor em Administração, coordenador do curso de pós-graduação em Medicina do Trabalho e consultor de empresas.
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2 COMENTÁRIOS

  1. Três anos usando máscara? Não mesmo. Com a vacinação, a vida voltará ao normal. Sejamos mais otimistas e não vamos espalhar pânico.

  2. Pela evolução dos fatos, acho que a cultura nacional deverá sofrer algumas mudanças ditas como radiais, pois o agente nocivo ativo em questão, ainda é de uma origem (Gênese) desconhecida e cheia de inconsistências…

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