Você não estava presente no acidente de trabalho!

– Meu filho, se eu lhe der uma prova junto com o gabarito você acha que terá alguma dúvida para responder?

– Posso até ter, professor, mas como tenho a resposta, só vou marcar. Mas qual a relação com a Segurança do Trabalho?

– Em algumas análises de acidentes do trabalho temos uma situação que alguns profissionais consideram parecida.

– Não entendi!

– Tem muito profissional que olha para o acidente “já sabendo a resposta” de como aconteceu. Já sabem que o trabalhador errou, já sabem que irão indicar novo treinamento e que irão rever o procedimento do setor. Esquecem que o objetivo é entender o que levou o trabalhador a realizar a atividade de determinada forma.

– Esta isenção é bem difícil, professor. Quando faço uma análise de acidente é comum eu já ir formulando uma teoria de como aconteceu e me pego forçando a barra para direcionar os fatos para aquela versão.

– Realmente é difícil, nesta situação sempre fico falando mentalmente: “eu não estava aqui na hora do acidente, não sei como aconteceu”. Ao mesmo tempo tento analisar o que levaria o trabalhador a tomar uma decisão, aparentemente absurda, ou seja, precisamos analisar o contexto do acidente em relação ao ambiente de trabalho.

– Tinha um professor que falava o seguinte: se eu não descobrir por que a ação fez sentido para o trabalhador, poderá ocorrer novamente.

– Exatamente! Além disso, fica fácil para o avaliador dizer que tal decisão não deveria ser tomada. Ele tem todos os fatos, tem horas para pensar em cada item coletado e ponderar qual seria a melhor decisão. Já o trabalhador acidentado teve que tomar a decisão em um tempo curto, em ambientes, no mínimo, desconfortáveis, por exemplo, com ruído e calor, às vezes com pressão por produção, talvez com problemas familiares e financeiros na cabeça, sem uma boa noite de sono e diversas outras variáveis possíveis.

– Concordo, professor! Dizer que o trabalhador deveria ter feito sem estar na pele dele é muito fácil e não vai ajudar em nada no objetivo de descobrir o que o levou a tomar determinada decisão.

– Tem um detalhe final, meu filho. Como estamos avaliando os dados após o sinistro, já sabemos que tal ação tem como resultado o acidente, mas o trabalhador estava tentando fazer o melhor possível com as informações disponíveis no momento e tenho certeza que não tomou o café pela manhã pensando de que forma poderia vir a se acidentar naquele dia.


O blog Segurito na Proteção trata de questões relacionadas à SST. É editado pelo professor Mário Sobral Jr, que é Mestre, engenheiro de Segurança do Trabalho, especialização em Higiene Ocupacional e Ergonomia e Editor do Jornal Segurito.
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4 COMENTÁRIOS

  1. Ótimo artigo amigo, sempre falo em minhas palestras, que acidentes podem ser decorrentes, de uma vida financeira mal gerida, problemas no relacionamento e até mesmo, estar trabalhando em algo que não se sente feliz. Vamos espalhar essa cultura de segurança e saúde no trabalho, no Brasil e em todo o mundo. Deus abençoe!

    Produtividade Sem Segurança, NÃO é Produtividade, e SIM, RISCO! Frase: William Fernandes.

  2. Artigo com qualidade de informação. Isso ajuda a temos cuidado com nossa forma de avaliar um acidente, visando o cuidado com o trabalhador e com a empresa. Creio que a cultura de segurança começa com ética, avaliando de forma neutra busca dá uma resposta corrente do ocorrido. Agradecido pela informação do artigo professor. Abraço!

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