sexta-feira, 24 de junho de 2022

Quando a agulha venceu o TST

O seu Vidal, Engenheiro de Segurança da empresa havia reunidos os três técnicos para decidir como iria organizar a SIPAT, eu era um dos técnicos. Na reunião foram sugeridas diversas ideias, como por exemplo: palestras relacionadas aos acidentes ocorridos os últimos anos, solicitaçao de stands de fornecedores e jogos diversos para dar uma animada.

No meio da reunião a Sandra dá a sugestão de fazer uma campanha de doação de sangue, nos anos anteriores a empresa não havia concordado porque isto significava abonar um dia para o trabalhador, mas em ano de baixa produção e sem querer demitir para não perder mão de obra qualificada, poderia ser que a ideia passasse pela direção.

Fiquei meio incomodado com a ideia (pois tinha pânico por agulhas), mas achei que não era problema porque o diretor nunca iria aprovar tal sugestão.

Na semana seguinte sou informado que a ideia havia sido aprovada, daquele dia em diante fiquei maquinando como eu iria escapar da situação, até verifiquei se não tinha a possibilidade tirar férias no período, mas o seu Vidal disse que eu só poderia tirar as minhas férias após a SIPAT.

Chega a bendita semana e eu passei a manhã me mantendo ocupado, nunca trabalhei tanto, mas durante o almoço o diretor veio comentar na nossa mesa que a campanha de doação estava sendo um fiasco e que apenas pouco mais de cinco trabalhadores haviam feito a doação e que tinha até técnico de segurança que ainda não havia doado. O suor escorreu pela testa e logo senti uma sensação de fraqueza, ao mesmo tempo o seu Vidal falou que deveríamos dar exemplo e que seria muito importante que todo os técnicos participassem da campanha de doação de sangue e que ele era um dos cinco que já havia doado.

Nunca mastiguei tanto uma comida e nunca achei tão ruim um prato de frango.

Os outros técnicos deram só o tempo do almoço e fizeram a doação, mas para mim não era algo tão fácil. Digamos que eu tinha um pouco de medo da agulha, mas ia ficar muito chato não participar da campanha.

Fui com as pernas pesadas e suando frio para o ambulatório, entrei à espera de um milagre. Estava de um jeito que até um princípio de incêndio seria bem vindo (desculpem, mas acho que enfrentaria melhor o fogo do que a agulha).

Primeiro recebo um questionário com as restrições e não me encaixava em nenhuma, peso estava bem acima do mínimo necessário (e tenho que confessar que cada vez mais longe), o almoço tinha sido só um franguinho, não estava anêmico ou hipertenso.

Infelizmente estava apto com louvor, segundo a enfermeira nada me impedia de fazer a doação.

Sentei como se estivesse sendo amarrado em uma cadeira elétrica, cada vez suava mais e comecei a ficar com sono, achei que iria desmaiar. A enfermeira falou que eu estava um pouco pálido e perguntou se eu estava bem.

Queria dizer que não estava, que precisava ir embora,  mas fiquei calado pensando que agora não ia poder voltar atrás. A enfermeira iniciou os preparativos e tentei me distrair lendo os cartazes de campanhas de vacinação. Havia relaxado um pouco, mas a enfermeira me fez despertar com a seguinte frase: Não precisa se preocupar, a agulha é grande mas não vai doer nada e se doer um pouquinho é para uma boa causa.

Nunca pensei tanto em xingar uma pessoa, mas foi ela começar a enfiar a agulha e tudo se apagou. Acordei horas depois (ok, na verdade haviam sido poucos minutos) com a enfermeira desesperada tentando me acordar.

Falei que estava bem e perguntei o que havia acontecido, ela falou que eu havia desmaiado.

Meio sem jeito perguntei se ela havia conseguido retirar o sangue. Para meu terror ela disse que não conseguiu nem iniciar o processo.

Vendo meu olhar de desespero disse para eu assinar o papel e que eu não me preocupasse.

Sai tenso e aliviado ao mesmo tempo.

Na reunião para avaliar o resultado da SIPAT achei estranho quando soube que “todos” do SESMT haviam doado sangue, mas das 35 doações, registradas na empresa, a técnica de enfermagem não soube explicar porque só haviam chegado 34 bolsas no instituto para qual o sangue foi doado. Na verdade ficou sendo um segredo que só eu e a enfermeira sabíamos. Daquele dia em diante ela passou a estar nas minhas orações diárias.


O blog Segurito na Proteção trata de questões relacionadas à SST. É editado pelo professor Mário Sobral Jr, que é Mestre, engenheiro de Segurança do Trabalho, especialização em Higiene Ocupacional e Ergonomia e Editor do Jornal Segurito.
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