quarta-feira, 29 de junho de 2022

Acordando muito tarde

Estava no ônibus pensando no problema que estava tendo na escola para aprender aquelas ferramentas ergonômicas e se realmente eu iria precisar daquilo quando começasse a trabalhar. Tinha que acabar aquele curso rápido e não podia reprovar novamente. Precisava sair do serviço de montador, aquilo é serviço de robô, o dia todo colocando um parafuso em uma placa, não aguento mais.

Cheguei em casa por volta das 23h, dei um beijo na minha mulher que estava vendo algo na televisão, tomei meu banho, comi um feijão misturado com arroz que a Cida deixou na panela, escovei os dentes e fui deitar.

Rolava de um lado para o outro na cama sem conseguir dormir pensando que com 23 anos ainda não tinha nada, trabalhava de peão em uma empresa do Distrito, morava de aluguel, andava de ônibus e a Cida estava desempregada. De repente uma onda de pensamentos positivos me fez pensar que assim que eu acabasse o curso de Técnico de Segurança eu iria conseguir um emprego melhor, depois faria uma faculdade e finalmente seria mais feliz. Relaxei e acabei dormindo.

Ao acordar notei que a Cida já havia levantado, saio da cama sonolento e sinto uma dor no joelho, vou meio manquejando com os olhos semicerrados para o banheiro. Ligo o chuveiro e finalmente desperto, mas ao olhar para as paredes do banheiro levo um susto, não estava reconhecendo aqueles azulejos e nem o chuveiro, saio do box e está tudo estranho, vou chamar a Cida, mas sumiu minha voz ao olhar para o espelho do banheiro e ver um velho. Rugas no rosto, barriga flácida, cabelos ralos e brancos. Não era eu, mas ao mesmo tempo era, parecia estar com mais de 50 anos.

Corri desesperado, até a cozinha, apenas enrolado na toalha. Lá encontro uma senhora que ao prestar atenção reconheço ser a Cida.

– Socorro, Cida. O que está acontecendo? Por que estamos velhos?

– Tá doido, Renato! Fale por você, eu ainda me sinto novíssima apesar dos meus 48 anos.

– Como assim, ontem você tinha 22 anos!

– Realmente, parece que foi ontem, a vida passa muito rápido mesmo.

– Não, Cida. Realmente foi ontem. Eu estava com 23, deitei na cama com 23 e acordei este velho. O que está acontecendo?

– Renato, deixa de brincadeira, só porque hoje é seu aniversário de 50 anos você vai surtar?

– 50 anos, 50 anos (eu repetia sem acreditar no que falava).

Respirei fundo e pensei: Devo estar sonhando, tenho certeza que eu fui dormir com 23 anos, então isto deve ser um sonho, apenas é muito realista. Já, já devo acordar.

– Ok, Cida. Supondo que eu seja este velho. Onde eu trabalho?

– Você está me assustando, Renato. Você trabalha na Terminais e Acessórios Ltda, voltou para lá faz dois anos.

– Eu ainda trabalho colocando parafusos?

– Não, amor. Você é o Engenheiro de Segurança do Trabalho da empresa.

Um pouco mais calmo pergunto: e eu ganho bem?

– Você trabalha como um cavalo, mas se está falando do salário, sim, é um bom salário. Mas você realmente não está de brincadeira? Não lembra?

– Cida, realmente não lembro de nada

– Pense bem, você não lembra quando nos mudamos para esta casa. Você disse que só se mudaria quando tivesse água quente e nenhum resquício de poeira.

– Engraçado, acho que lembro disso, fale mais sobre o que aconteceu na nossa vida. Fizemos muitas viagens?

– Na verdade, acho que você tirou férias uma vez e foi de apenas 20 dias, em geral vendia para guardar o dinheiro para uma viagem à Suíça.

– Nós fomos? Não lembro desta viagem.

– Nunca fomos, sempre faltava alguma coisa ou você tinha alguma tarefa inadiável no trabalho.

A conversa com a Cida fez com que começasse a lembrar do meu passado e por um instante achei que era melhor ter continuado esquecido, percebi uma monotonia de dias que passaram exatamente iguais, sem sorrisos ou descanso.

– Cida, temos que mudar isso, lembrei de um filósofo que falava sobre avaliarmos a nossa vida como se ela fosse repetir eternamente e nesta avaliação eu só me vejo velho e louco na eternidade.

Passei o resto do dia planejando o que eu iria fazer a partir de agora para mudar este destino.

Ao final da manhã mais tranquilo, fiz as minhas orações e pensei que a partir do outro dia seria uma pessoa mais feliz, dormi esperando poder viver melhor a vida. Infelizmente nunca mais acordei.


O blog Segurito na Proteção trata de questões relacionadas à SST. É editado pelo professor Mário Sobral Jr, que é Mestre, engenheiro de Segurança do Trabalho, especialização em Higiene Ocupacional e Ergonomia e Editor do Jornal Segurito.
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