sexta-feira, 24 de junho de 2022

Rotina, Realidade Real e Mudança

Oi, gente. Tudo bem? Acatando a sugestão da Angela, hoje abordaremos rotina e mudanças, e também falaremos de procedimentos pensados e realidade real, ou como se diz quando se quer falar difícil, WAI (work as imagined, trabalho como imaginado) e WAD (work as done, trabalho como executado). Pessoalmente, eu prefiro o simplão mesmo, que ouvia há pelo menos uns 20 anos – procedimento pensado e realidade real.

Tais conceitos já estão no ambiente das empresas faz tempo. O Mario Cortella já diferenciava os dois com um exemplo clássico há pelo menos uns 20 anos que explica direitinho o que é um e o que é outro, assim como a Toyota já propunha uma nova sistemática de trabalho, rotinas e procedimentos há pelo menos outros 60… A parte nova da história envolve diversas nuances e contorcionismos retóricos sobre o assunto. Acreditem, tem gente por aí que envolve até Carl Jung nessa discussão; acho teoria demais para minha cabeça. Prefiro, então, citar o Dadá Maravilha, que a propósito também contribui para o entendimento do que é realidade real ao afirmar que “não existe gol feio, feio é não fazer gol”. Ou seja, o resultado pode vir com soluções simples, e ainda assim legítimas.

Enfim, estudar trabalhos rotineiros é bem interessante, até porque é praticamente impossível afirmar que qualquer trabalho seja rotineiro. Desde os profissionais de saúde que atuam na emergência de hospitais públicos, onde cada pessoa que chega é um caso diferente, e onde se pode afirmar que não há absolutamente nenhuma rotina, até o trabalho de um condutor de metrô em São Paulo, que muitos acham uma coisa rotineira. Mas, se esquecem que há os horários de pico, tem dia que chove e alaga tudo, falta energia, quebra uma composição no ramal, gente pula no trilho, o Corinthians ou o Palmeiras jogam à noite, tem o Lollapalooza… Mesmo no trabalho do metroviário(a), por mais rotineiro que ele seja – estação Paraíso, estação Vergueiro, estação São Joaquim, estação Liberdade, estação Sé (a assim vai…) –  existe a tal da variabilidade. Se até nessa função ela se faz presente, imagina na nossa, de profissionais de segurança…

Lidar com as variabilidades usando a experiência e habilidade adquiridos e fazendo nossas escolhas é parte da paisagem, da realidade real. Esse é o conceito da Heurística (nome pomposo, significado simples – usar nossa experiência e aprendizado para encontrar instintivamente soluções para questões novas). E pode parecer absurdo fazer essa afirmação, mas a variabilidade pode até mesmo fazer parte da rotina. Boa essa, mas e daí? Como isso afeta a segurança e o que isso tem a ver com acidentes?

A questão é que saber que a variabilidade está presente nos deixa mais alertas, e isso é bom qualquer que seja a perspectiva e qualquer que seja a sua compreensão a respeito do que vem a ser segurança. Mas o que provoca acidentes muitas vezes não é a rotina ou nem o seu desvio, mas sim uma mudança.

Mudança, Ivan, como assim? Processos estabelecidos, internalizados na cabeça das pessoas, que simplesmente mudam. Uma nova matéria prima, um novo equipamento, um novo software, uma nova atividade, enfim, algo que mudou em definitivo. Nos leva a uma condição em que precisamos aprender de novo. E isso acontece, na maioria das vezes sem muitos traumas. Mas… e quando as pessoas não percebem que houve uma mudança, não a comunicam, ou mesmo não a identificam na prática? Isso acontece, e muito, no mundo da realidade real. E aí, gente, o risco de se materializar algum evento indesejado, sendo o pior deles um acidente, aumenta prá caramba. Aumenta o tal do “abismo” entre o WAI e o WAD.

Quer entender um acidente? Vá atrás das mudanças. Esse conceito aprendi com dois professores, o Ildeberto (Pará) Almeida, e o Rodolfo Vilela, um da Medicina da Unesp Botucatu e outro da Saúde Pública da USP. Eles desenvolveram há uns 10 anos uma metodologia de análise de eventos baseada em conceitos de mudança, que trouxeram da escola francesa (link do ICSI do post anterior…).

Xiiiii… O post já está longo e faltou discutir o WAI/WAD um pouco mais. Fica para um dos próximos.

Os links da semana são o vídeo curtinho do Cortella e o manual do MAPA, versão 2010 para baixar, do Pará e do Rodolfo. Angela, discuti o que você queria que fosse discutido?


Uma nova visão de segurança se propõe a discutir o futuro da segurança no trabalho, cada vez mais multidisciplinar e inclusivo. Ivan Rigoletto é engenheiro químico e de segurança do trabalho, mestre em Engenharia Civil, MBA em Gestão Empresarial e doutor em Engenharia Mecânica. Está na indústria há mais de 30 anos, a metade como executivo de Segurança e ESG. É professor universitário, autor e coautor de diversos livros e artigos. Foi condecorado pelo Corpo de Bombeiros de Campinas. Estreia como articulista regular no blog da Proteção.
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2 COMENTÁRIOS

  1. Excelente artigo Ivan compreender que no trabalho realizado existe a variabilidade e de fundamental importância para avançarmos no quesito segurança.

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