quinta-feira, 07 de julho de 2022

O SESMT tem tomado boas decisões?

– Sempre comento da importância do Julgamento Profissional para a tomada de decisões na Segurança do Trabalho, mas isso não significa que profissionais experientes tenham um dom mágico para achar as respostas sem um estudo prévio.

– Professor, mas o senhor que já tem tempo na área deve bater o olho e saber algumas respostas!

– Infelizmente, não é bem assim. Entenda que tomar uma decisão não é olhar para uma determinada situação e apenas por ter vários anos de experiência acreditar que tem um chute preciso sem um respaldo técnico por trás. Estou alertando para esse ponto pois estou lendo um livro que confirma esse meu pensamento com dados científicos.

– Qual livro?

– “Ruído: Uma falha no julgamento humano”, os autores são: Daniel Kahneman, Olivier Sibony e Cass R. Sunstein. O livro apresenta diversas situações em que profissionais experientes precisam tomar decisões, como juízes ao ter de definir uma pena, médicos ao ter de estabelecer um diagnóstico ou mesmo um professor ao dar uma nota em uma prova e por motivos diversos acaba não havendo uma uniformidade nas decisões.

– Não entendi bem, professor. Pode dar um exemplo?

– Claro, os autores apresentam vários estudos. Dentre o estudo com juízes há, por exemplo, uma revisão de 207 mil decisões judiciais de imigração ao longo de quatro anos mostrando um efeito significativo das variações diárias de temperatura: quando faz muito calor, as chances de obter asilo são menores; em outro estudo perceberam que juízes com forme são mais severos e um último exemplo, um estudo envolvendo milhares de tribunais de menores revelou que os juízes tomavam decisões mais austeras na segunda-feira (e mais brandas ao longo da semana) quando seu time do coração fora derrotado no fim de semana.

– Professor, mas aí não eram bons profissionais!

– Meu filho, eram centenas de profissionais e ao serem avaliados de forma estatística identificaram esses desvios, ou seja, esses ruídos no processo. Os autores alertam que similar a um instrumento de medição, a pessoa emitindo julgamentos nunca é perfeita. Precisamos compreender seus erros e medi-los.

– Mas aí complicou, professor! O meu time tá no final da tabela e todo dia tenho que tomar decisões, vou ter de parar de assistir os jogos e comer de três em três horas para não ficar com fome?

– Os caso citados são só alguns exemplos, mas o que eu acho importante destacar é que para tomar uma decisão, você tenha 30 anos de experiência, ou seja recém formado, é importante considerar o uso do conhecimento teórico adquirido, mas também a capacidade de observação, análise e experiência prática para, junto com muito bom senso e respaldado em informações sólidas da fase de reconhecimento dos perigos existentes na empresa, tomar uma decisão adequada para proteger o trabalhador e sem utilizar recursos da empresa de forma exagerada.

– Tem alguma sugestão mais prática?

– Acho que sim. Acredito que algo que falta no nosso setor e que traria uma redução dos erros é uma avaliação estatística básica dos dados, algo que não é considerado pela maior parte dos profissionais de Segurança do Trabalho e consequentemente acabamos tendo decisões  sobre adicional de insalubridade, aposentadoria especial, dimensionamento de EPCs e muitos mais, baseados em uma única amostra e respaldados com a ilusão de anos de experiência sem um suporte técnico para fundamentar esse julgamento.


O blog Segurito na Proteção trata de questões relacionadas à SST. É editado pelo professor Mário Sobral Jr, que é Mestre, engenheiro de Segurança do Trabalho, especialização em Higiene Ocupacional e Ergonomia e Editor do Jornal Segurito.
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