Mundo paralelo

“Ei vocês da Terra 1, trabalho na Terra 2 e aqui neste mundo paralelo atuo em uma função que não existe na dimensão de vocês. Sou Técnico de Insegurança do Trabalho.

Na verdade, recebi uma mensagem dizendo que vocês até que têm algumas qualidades nesta minha área. Porém não fiquem pensando que é um trabalho fácil, pode ter certeza de que pode ser mais exaustivo do que a função que vocês possuem aí na Terra 1.

Vou descrever algumas ações só para vocês entenderem um pouco do meu serviço.

Quando chego vou direto ver se os trabalhadores estão sem os EPIs ou desorientar aqueles que insistem em usá-los, para que fiquem mais inseguros. Depois têm as inspeções, são dezenas e consequentemente com diversas ações, por exemplo: eu sempre aproveito as inspeções dos cintos de segurança para dar uma puída no equipamento, no sistema de exaustão fico alerta para não esquecer de diminuir a velocidade dos exaustores e nestas rondas sempre ando com uma agulha para fazer pequenos furos nas proteções respiratórias.

Com algumas ações, tipo as realizadas no cinto de segurança, eu consigo acidentes mais rápidos, mas com as outras ações, como as dos exaustores e das máscaras, consigo trabalhadores doentes e é possível manter minha estatística de afastados no longo prazo. Afinal tenho que manter meus indicadores nas alturas.

Meu recorde são seis acidentes no mesmo dia, mas tenho que confessar que infelizmente já ficamos 20 dias sem acidentes, nada do que eu fazia dava certo.

Depois que eu me capacitei e fiz o curso “Expondo ao Risco em Sete Passos” tudo ficou mais fácil, hoje acidento meus trabalhadores profissionalmente e não apenas de forma amadora, correndo de um lado para o outro, com um verdadeiro sistema de gestão.

Outra ação que é extremamente importante é a Permissão de Trabalho, não posso simplesmente deixar o trabalhador ir fazer suas atividades sem previamente deixar uns gatilhos e gambiarras.

Porém acredito que uma das minhas principais dificuldades são os treinamentos, tem muita gente que não presta atenção ou não segue o procedimento estabelecido e acaba se mantendo seguro no trabalho. Semana passada expliquei que toda vez que a prensa travasse o procedimento deveria ser destravar sozinho e com a máquina ligada. Normalmente quando isto acontece tenho pelo menos uma amputação, nos dias de maior sorte chega até mesmo a óbito, mas tem muito trabalhador que não segue o procedimento e resolve ligar para a manutenção.

Lógico que não deixo por menos e registro a advertência, mas como quase todos estão voltando de acidentes (afinal sou um excelente profissional) não posso demiti-los porque estão com estabilidade.

Por sinal este é um grande problema, é muito raro quem não tenha estabilidade, então para sair da empresa só morrendo ou tenho que conseguir que sofram novo acidente, ou seja, o que não falta é serviço para mim.

Mês que vem entro em férias e estou pensando em fazer uma visita ao mundo paralelo da Terra 1, pelo que me falaram, além de um bom passeio, em muitas empresas ainda posso aprender muito para a minha profissão.”

Trecho do livro “Mundo Paralelo – Histórias Ordinárias e Extraordinárias da Segurança do Trabalho” – Mário Sobral Jr.


O blog Segurito na Proteção trata de questões relacionadas à SST. É editado pelo professor Mário Sobral Jr, que é Mestre, engenheiro de Segurança do Trabalho, especialização em Higiene Ocupacional e Ergonomia e Editor do Jornal Segurito.
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