quinta-feira, 07 de julho de 2022

Mude a cultura de SST ou corra atrás de unicórnios

– Professor, tenho uma pergunta que se o senhor souber responder irá salvar a minha vida e a de muitos outros profissionais de SST.

– Pois antes de você fazer a sua pergunta vou citar uma frase que uma amiga sempre usa: “Crie unicórnios, mas não crie expectativas”.

– Poxa, professor! Entendi o recado, mas vou perguntar assim mesmo: Como podemos fazer os trabalhadores seguirem as normas de Segurança do Trabalho?

– Pense em algo difícil! Já vá comprando a fazenda para depois passar a correr atrás dos unicórnios. De qualquer forma vou tentar responder.

– Vou dar um exemplo que aconteceu comigo, que talvez ajude: Eu trabalhei em uma empresa multinacional que lógico tinha seus problemas de Segurança do Trabalho, mas muita coisa dava certo pelos valores dos gestores. Em uma determinada situação o SESMT queria estabelecer a obrigatoriedade do uso de óculos de proteção em um determinado setor, mas o gerente achava que poderia trazer um impacto negativo na produção.

– Qual a relação com a minha pergunta?

– Calma, criança agoniada! Eu aqui no maior esforço para contar uma historinha para facilitar o entendimento e você interrompe com a sua impaciência.

– Desculpe, professor. Vou aguardar. Mas já comprei meu chapéu de cowboy e a corda para ir atrás dos unicórnios.

– Ok, engraçadinho. Mas como eu estava falando, o gerente de produção, que havia acabado de chegar da França, não havia gostado da regra e tinha total poder político para passar por cima de mim e estabelecer as regras que achasse mais adequadas, mas quando fomos para o setor para conversar com os trabalhadores ele me apoiou e disse que era importante seguirmos o procedimento, no entanto, ao sair do setor ele tentou novamente me convencer a mudar de ideia. Perguntei para ele por que não falou nada no setor, quando estávamos com os trabalhadores. Ele respondeu que era óbvio que não concordava com a medida, mas não era correto desacatar o SESMT na frente dos trabalhadores, pois iria enfraquecer o meu setor.

– Ou seja, era algo que ele tinha enraizado como sendo correto e que foi estabelecido antes dele chegar no Brasil. Passei por outras situações similares nessa mesma empresa e percebi que era cultural.

– E a minha resposta, professor?

– Tudo bem, meu filho. Já vou caminhar para a moral da história. Acho que ficou claro que as ações dessa empresa e, lógico, de toda empresa, tem uma influência cultural, mas ao invés de chegar aqui lhe falando uma fórmula mágica com cinco passos que irão fazer com que a cultura da sua empresa mude de um dia para o outro, prefiro lhe dizer que essa mudança é paulatina e demora anos. Isso, claro, caso a Segurança do Trabalho seja um valor, principalmente para os seus gestores. Ou seja, para conseguirmos empresas com trabalhadores que considerem a SST como prioridade, é preciso apoio e bom exemplo de cima para abaixo.

– Entretanto, se dermos uma olhada rápida no nosso entorno vamos verificar facilmente que o principal valor apreciado na sociedade é o desenvolvimento financeiro e a qualquer custo, a consequência é que em muitas situações esse foco financeiro acaba batendo de frente com algumas ações de Segurança do Trabalho (principalmente porque boa parte dos profissionais da prevenção nem tentam utilizar argumentos de perdas financeiras por falta de investimento no nosso setor), como consequência fica difícil acreditar que vamos conseguir mudanças culturais amplas apenas com ações localizadas.

– Obrigado, professor. Depois dessa conversa só tenho mais uma pergunta: Unicórnio come alfafa ou algodão doce?


O blog Segurito na Proteção trata de questões relacionadas à SST. É editado pelo professor Mário Sobral Jr, que é Mestre, engenheiro de Segurança do Trabalho, especialização em Higiene Ocupacional e Ergonomia e Editor do Jornal Segurito.
[email protected]

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2 COMENTÁRIOS

  1. Excelente artigo Mário Sobral!

    Sem dúvida alguma esse sempre será um dos maiores desafios para nós prevencionistas. Para que a Cultura de Segurança seja implantada e/ou consolidada, é necessário o envolvimento e interesse de todas as partes da empresa/instituição.

    Obrigado pelo material!

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