Medo do gerenciamento dos riscos

– Professor, estava pensando aqui que esse negócio de gerenciar riscos é bem mais complexo do que o pessoal está pensando.

– Como assim, meu filho?

– As pessoas estão achando que vão trabalhar com uma espécie de checklist dos perigos da empresa e depois vão jogar em uma matriz para identificar os riscos mais críticos e a partir deste ponto vão propor os controles.

– A visão resumida é esta mesmo, mas fiquei curioso com a complexidade que você havia citado, concordo e também tenho alguns argumentos, mas gostaria de ouvi-lo antes.

– Quer colar as minhas ideias, professor? Desculpa é brincadeira, não consegui resistir!

– É o que dá não poder reprovar ou tirar ponto de ex-alunos! Mas fale os seus argumentos, engraçadinho.

– Primeiro ponto é acreditar que um checklist será suficiente para identificar os perigos. Lógico que irá ajudar, mas não pode ser a única ferramenta de levantamento dos dados, além disso pode ser até um fator limitante, caso o avaliador não consiga enxergar além deste padrão.

– O segundo ponto, que muita gente não entende, é pensar que este gerenciamento de riscos está relacionado exclusivamente com máquinas, cadeiras, ferramentas, ou seja, focam nos “objetos”. Esquecem que estes objetos ou mesmo processos, por si só, não são perigosos, mas sim a interação destes com os trabalhadores, que têm influências psicológicas, sociais, cognitivas etc.

– Meu filho, você está falando bonito. Continue que eu estou gostando.

– Obrigado, professor! O terceiro ponto é acreditar que temos especialistas em riscos, que por causa da leitura de um livro, duas NBRs e planilhas baixadas de sites, têm todos os conhecimentos necessários para identificar o que for necessário nos postos de trabalho. Esquecem que na realidade o especialista do posto de trabalho é o trabalhador.

– Perfeito, meu filho! Além disso tudo é importante lembrar que os riscos não são objetivos. Duas pessoas trabalhando na mesma máquina não estão expostas aos mesmos riscos e uma matriz de riscos que irá nos ajudar a “quantificar” a criticidade por meio de número de expostos, frequência da exposição, gravidade e probabilidade nunca terá a capacidade de considerar todas as variáveis envolvidas. Por exemplo, imagine que fossemos avaliar uma máquina em determinado setor, porém  o responsável por esta área é extremamente rígido atuando com pressão exagerada na produção dos trabalhadores; nesta mesma empresa vamos avaliar o trabalhador do segundo turno na mesma máquina, mas digamos que a chefia tem uma atitude totalmente diferente da anterior. Acho que fica claro que mesmo realizando as mesmas atividades os riscos serão diferenciados.

– Olha que o senhor considerou só a chefia e o turno, se formos pensar na experiência do profissional, em limitações físicas do trabalhador, na influência do ambiente, como ruído ou calor, a forma de trabalho, suas motivações. Estas e outras variáveis também influenciarão na avaliação dos riscos.

– Exatamente, meu filho. No entanto, apesar de toda a complexidade, muitas empresas acabarão contratando aquele profissional que se julga o especialista e que sozinho irá definir o que é mais arriscado, porém nesta avaliação terá todos os seus vieses decorrentes dos seus conhecimentos, da sua vivência e das suas limitações como qualquer profissional.

– Este é o meu medo, professor. O gerenciamento de riscos virar mais um monte de papel, com planilhas coloridas, que será elaborado de forma limitada, para atender a uma obrigatoriedade legal ao invés de ser uma forma de auxiliar no gerenciamento dos riscos e consequentemente de trazer maior proteção ao trabalhador.


O blog Segurito na Proteção trata de questões relacionadas à SST. É editado pelo professor Mário Sobral Jr, que é Mestre, engenheiro de Segurança do Trabalho, especialização em Higiene Ocupacional e Ergonomia e Editor do Jornal Segurito.
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