sexta-feira, 24 de junho de 2022

Jens Rasmussen

Oi, gente. Quando acertava os detalhes sobre este espaço com o Alexandre, percebi que havia repertório para muita discussão por muito tempo. Mas, como definir a melhor sequência para você aí desse lado, que dedica seu tempo a ler o que escrevo? Conto com várias ferramentas e metodologias para fazer isso, inclusive uma consultora aqui em casa, a Angela, arquiteta e engenheira de segurança do trabalho, mestranda em Arquitetura na Unicamp, minha esposa. Ela estuda desenho universal e wayfinding, muita coisa a ver com uma nova visão da segurança – vou voltar a esse tema no futuro não para “puxar o saco” da minha mulher, ela nunca precisou disso, mas porque o tema me encanta.

Então… Ela me sugeriu analisar o a relevância da rotina e das mudanças na nova visão de segurança. Sem dúvida, uma boa discussão. Mas eu também gostaria de começar a apresentar os caras que fincaram as bases do futuro; é importante conhecer as principais correntes de pensamento e as pessoas que estão por trás delas para que a gente possa começar, cada um de nós, a formar a nossa visão individual para esse tal futuro. Sendo assim – Angela, desculpa aí, mês que vem falamos de rotinas e mudanças – quero apresentar a vocês Jens Rasmussen. Eu comecei a ter contato com seus estudos e suas publicações entre 2013 e 2014.

Rasmussen (1926-2018) é um dos gurus das novas visões. Junto com René Amalberti, Todd Conklin, Erik Hollnagel e Sidney Dekker, compõem o panteão principal do momento. Professor em Riso, na Dinamarca, ele pautou seus estudos em segurança de sistemas e fatores humanos, pesquisando erros e acidentes, e desenvolvendo modelos muito interessantes e muito citados nos dias de hoje. Para não cansar vocês com teorias, vou me fixar nas duas maiores contribuições dele que vêm sendo úteis para mim até hoje.

A primeira delas, conceitual, é o modelo Habilidades-Regras-Conhecimento (Skills, Rules, Knowledge – SRK), construção que ele começou nos anos 60 e terminou nos 80, meio com jeitão do CHA que a gente conhece, mas diferente. Este é o primeiro modelo de cognição que analisa o operador frente a uma atividade onde ele exerce controle, ou seja, de fatores humanos e cognitivos nos ambientes de trabalho, que foi e é bastante utilizado no projeto de interfaces homem-máquina até hoje. Ele se baseia no S (habilidades, onde os comportamentos são baseados em hábitos inconscientes, rotinas e processos automáticos, na heurística), R (regras, comportamento baseado em regras explícitas e conhecidas, o que o ICSI chama de Segurança Normatizada) e o K (conhecimento, comportamento baseado no conhecimento, que transcende as regras e valoriza o individual de cada pessoa, o que o ICSI associa com Segurança em ação).

Um outro conceito que o Rasmussen desenvolveu e eu adotei em minha cabeça, bem interessante, é o modelo de gestão de risco em sociedades dinâmicas, que apelidei de “modelo da bexiga” e que apresento numa visualização gráfica simplificada logo abaixo. Vamos imaginar um balão de aniversário cheio como sendo uma empresa ou um processo industrial. Existem diversos elementos que interagem com este balão. Sendo um desses elementos os fatores econômicos, é possível imaginar que ele sempre exerça pressão sobre o sistema; todos sentimos na pele as “surpresinhas” ao longo dos meses e anos no mundo e no Brasil. Podemos entender um segundo elemento como a produtividade, ou a carga de trabalho, ou mesmo os processos nas empresas, que sempre pedem que se faça “mais com menos”. Logicamente, o balão também será pressionado.

Ora bolas, se a gente pressiona uma bexiga com as duas mãos, por dois lados diferentes, o que acontece? Se pressionarmos demais, e se ela passar do limite, ela estoura. E é esse o conceito – os fatores econômicos e organizacionais podem provocar consequências imprevistas ao se deslocar o ponto de operação de forma a responder a essas pressões, E neste deslocamento, podem aparecer os pontos de ruptura, que o Rasmussen identificou como sendo os acidentes. Nesse contexto, qual é o nosso papel, enquanto pensadores e profissionais da Segurança? Garantir que as margens de segurança não sejam ultrapassadas e que o sistema como um todo seja resiliente para suportar esse contexto (resiliência, olha mais um post vindo aí…). Ele apresentou este modelo em 1997.

Abaixo, a figura a que me refiro:

Para mais informações, você pode conhecer o Jens Rasmussen no site dele, achar a referência do que descrevi relativo aos conceitos do ICSI (procure nas páginas 12 e 13), e o artigo de 1997 do Rasmussen sobre seu modelo de gestão (item 6, páginas 189 a 191, figura na página 190). Se você se vira bem no Inglês, tem ainda um livro do Rasmussen de 2000, Proactive Risk Management in a Dynamic Society, que é muito bom. Vale muito a leitura de todas essas referências.

Com este pano de fundo, Angela e galera daqui da Proteção, mês que vem vou trazer algumas reflexões sobre a temática das rotinas e mudanças. Até maio!

_____

Uma nova visão de segurança se propõe a discutir o futuro da segurança no trabalho, cada vez mais multidisciplinar e inclusivo. Ivan Rigoletto é engenheiro químico e de segurança do trabalho, mestre em Engenharia Civil, MBA em Gestão Empresarial e doutor em Engenharia Mecânica. Está na indústria há mais de 30 anos, a metade como executivo de Segurança e ESG. É professor universitário, autor e coautor de diversos livros e artigos. Foi condecorado pelo Corpo de Bombeiros de Campinas. Estreia como articulista regular no blog da Proteção.
[email protected]

Artigos relacionados

2 COMENTÁRIOS

  1. Excelente postagem Ivan muito legal apresentar para o pessoal os pensadores que influenciaram as Novas Visões como o Rasmussem, assim como você citou tenho trazido para o meu dia a dia esse conceito de segurança normatizada e segurança em ação, acho bem interessante, e para finalizar o conceito do “modelo da bexiga” e fantástico pois facilita a bastante a explicação. Parabéns.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui