quarta-feira, 29 de junho de 2022

Habilidades não técnicas podem evitar acidentes

– Professor, não sei mais o que faço, treino direto os trabalhadores da empresa sobre procedimentos de Segurança, mas os problemas continuam acontecendo. Parece que eles não aprendem!

– Meu filho, acho que tem algo errado nesta tua história. Me dê um exemplo de um acidente que tenha ocorrido.

– A injetora estava parada e o setor de produção precisava terminar um lote para o cliente. O técnico em mecânica e um auxiliar foram fazer os ajustes. Segundo as informações que eu recolhi, travaram a máquina conforme o procedimento de Lockout-tagout (LOTO), porém assim que terminaram tudo e iam entregar a máquina ela não pegou e o técnico teve um estalo sobre qual seria o motivo, mas ao invés de desligar tudo e voltar para o procedimento de LOTO, achou que seria rápido e apenas desligou sem fazer o procedimento complete. Durante o serviço acabou esbarrando no acionador da máquina e teve alguns arranhões. Na verdade, teve foi sorte, pois poderia ter perdido a mão esmagada. O pior de tudo é que na semana anterior estes dois tinham recebido o treinamento de segurança de máquinas. Agora me diga o que eu faço?

– Entendo sua indignação, mas vamos aos fatos. Primeiro você disse que a manutenção precisava ser rápida, ou seja, os trabalhadores estavam sob pressão.

– Sim, mas não podiam pular os procedimentos!

– Ok, mas se eles fizessem o serviço pulando o procedimento, sendo mais rápidos e caso não houvesse o acidente, qual seria a provável reação dos gestores?

– Depende do setor da empresa, mas neste caso especificamente o chefe deles ia achar ótimo, pois caso a máquina não voltasse a funcionar poderia ter até demissão.

– Outro ponto, o procedimento de LOTO não foi refeito por qual motivo? Você chegou a perguntar?

– Sim, o técnico falou que o comando era longe e o serviço ia ser bem rápido e o assistente disse que não quis contrariar o técnico.

– Não sei se você percebeu um detalhe importantíssimo nesta informação. Ambos sabiam que estava errado, um não fez para ganhar tempo e o outro com medo de contrariar o chefe. Para o primeiro caso é preciso que você analise se realmente é algo demorado, caso seja, rever como podemos deixar este processo mais rápido, caso não seja, demonstrar que o tempo gasto será de alguns poucos segundos. Em relação ao segundo caso é interessante revisar o treinamento e tentar demonstrar que algumas habilidades não técnicas são necessárias para a atividade.

– Como assim, professor?

– Percebe que o auxiliar tecnicamente sabia o que deveria ser feito, mas não tomou a decisão porque se sentia inferior hierarquicamente ao técnico ou achou que isto poderia lhe trazer algum problema? Será que este técnico já havia dito anteriormente para ele não se intrometer e que a responsabilidade do serviço era dele?

– Às vezes o motivo é dificuldade na comunicação, uma liderança inadequada, não saber trabalhar em equipe, não saber gerenciar o estresse de determinada atividade (como por exemplo ser pressionado para acabar rapidamente a atividade). Percebe que além da parte técnica, da cultura da empresa em relação às ações de Segurança ainda temos habilidades não técnicas que podem influenciar no acidente. Meu conselho: reveja a análise. Por favor, não vá colocar como conclusão falta de atenção do trabalhador e apenas treinamento como ação para resolver o problema.


O blog Segurito na Proteção trata de questões relacionadas à SST. É editado pelo professor Mário Sobral Jr, que é Mestre, engenheiro de Segurança do Trabalho, especialização em Higiene Ocupacional e Ergonomia e Editor do Jornal Segurito.
[email protected]alsegurito.com

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2 COMENTÁRIOS

  1. A política de segurança deve estar muito bem inserida na empresa, procedimentos muitas vezes são criados após a ocorrência de graves acidentes ou fatais. A pressa sempre é a inimiga da perfeição, e no caso de acidentes, ela é um fator preponderante para as ocorrências.

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