sexta-feira, 24 de junho de 2022

Cuidado com os perigos do home office

André, experiente TST da empresa Quase Tudo Lindo Ltda., após utilizar argumentos técnicos, legais e financeiros conseguiu convencer o chefe a fazer a aquisição de laptops e mobiliários para os trabalhadores em home office. Conseguiu cadeiras com os ajustes necessários, acolchoamento na densidade adequada, mesas com bordas arredondadas e próprias para computadores, suporte para laptop, apoio para os pés, ou seja, muito mais do que o SESMT acreditava ser possível.

Para comemorar a conquista, houve um evento com a presença do Diretor Geral para a entrega do primeiro kit na casa de um dos trabalhadores. No início, um pouco de dificuldade para conseguir acomodar o novo mobiliário, mas foi só empurrar um sofá, transferir a estante dos santinhos para a cozinha e reposicionar a TV que tudo se ajustou. Para uma futura campanha de marketing tudo estava sendo registrado, do discurso do diretor às lágrimas do trabalhador.

O TST voltou para a empresa com a sensação de dever cumprido e no dia seguinte ligou para o trabalhador a fim de verificar se estava tudo certo. Seu João atendeu o telefone com um sorriso e disse que estava tudo ótimo, mas que estava com uma certa dificuldade com a altura da cadeira, muito alta para ele. André, pensou, coisa simples, esqueci de orientar sobre como fazer os ajustes, vou inserir no procedimento para poder passar a informação aos próximos trabalhadores.

Passaram-se umas duas semanas e ao entrar em contato com o trabalhador não notou o mesmo sorriso. Seu João com muito cuidado, perguntou quem ficaria responsável pela energia gasta com o computador e se haveria alguma contribuição da empresa com a internet. André disse que avaliaria a situação na empresa e depois passaria a decisão. De acordo com o RH a empresa não teria como auxiliar nesses custos.

André resolve visitar seu João para avaliar se estava tudo certo. Ao bater a campainha escutou um choro de criança vindo do interior da casa e os latidos do cachorro do vizinho. Seu João abre a porta com um olhar cansado. O TST entra na sala e verifica que a estante com os santinhos retornou e a mesa do computador foi transferida para o quarto, porém sem espaço adequado para a cadeira. Além disso, o quarto é bem escuro, não há entrada de iluminação natural e quando questionado seu João replica dizendo que não vai deixar a luz acesa pela manhã, já que a empresa não estava ajudando com essa despesa.

Depois pode ser ouvido o seguinte diálogo:

– Tudo bem, seu João? Achando melhor trabalhar em casa?

– Mais ou menos, o computador está travando e o TI da empresa ainda não teve tempo para fazer uma visita e hoje está até tranquilo, mas está tendo obra na vizinha e não aguento mais o barulho da marreta sendo respondida pelo latido do cachorro da outra vizinha.

– Mas pelo menos o senhor pode descansar quando quer, tem mais flexibilidade.

– Para ser sincero, acho que é melhor trabalhar na empresa, pois a visão que eu tenho é que a empresa acha que eu passo o dia todo deitado. Já ouvi umas indiretas do meu chefe que não gostei, além disso o dinheiro que deram para a alimentação não é suficiente e eu ainda preciso parar para fazer o almoço, pois se eu for comprar pronto não vou ter dinheiro até o fim do mês.

André retorna para a empresa cabisbaixo ao perceber que não tinha considerado as diversas variáveis que poderiam interferir na casa de cada trabalhador e que agora não teria como voltar atrás, pois já havia vendido a ideia de que a empresa estava à frente de todas as outras que conhecia, pensando na segurança desde o lar do trabalhador. O projeto não prosseguiu e lógico que apesar de reclamações em algumas outras residências, parte dos trabalhadores também gostaram da novidade. Ao final a empresa percebeu, como já era esperado, que as soluções não poderiam ser genéricas, mas sim customizadas para cada realidade, consequentemente com custo mais elevado e com orçamento não aprovado.

Meses depois André saiu da empresa. Hoje em novo trabalho, apesar de mais experiente, ainda não conseguiu achar uma solução que consiga equilibrar a necessidade da avaliação individualizada e as limitações financeiras da empresa.

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O blog Segurito na Proteção trata de questões relacionadas à SST. É editado pelo professor Mário Sobral Jr, que é Mestre, engenheiro de Segurança do Trabalho, especialização em Higiene Ocupacional e Ergonomia e Editor do Jornal Segurito.
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