A indústria tem capacidade para atender à demanda de EPIs no setor médico-hospitalar?

Nunca os Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) estiveram em tamanha evidência quanto hoje, devido à pandemia do novo coronavírus. Quem diria que um dia veríamos pessoas na rua falando sobre as diferenças entre máscaras caseiras, cirúrgicas e do tipo PFF2 (N95). Governo, profissionais de saúde e população em geral querem saber se a indústria brasileira poderá atender a demanda aumentada por EPIs para a área médico-hospitalar.

Antes de mais nada, vamos lembrar quais são os produtos considerados como EPI pela Secretaria do Trabalho para essa área

. São eles: as máscaras PFF2 (N95) e as luvas de procedimento cirúrgico e não cirúrgico.

Todos os demais, citados atualmente nesta pandemia, não são considerados EPIs para a área médico-hospitalar ou nem são EPIs. Por exemplo, protetores faciais e óculos de segurança são EPIs aprovados para partículas volantes. Não são aprovados e nem foram ensaiados para reter patógenos.

As vestimentas de segurança são EPIs aprovados, no Brasil, para riscos químicos, e tampouco foram aprovados para patógenos. E a “máscara cirúrgica” nem sequer é considerada um EPI.

Máscaras PFF2 (N95)

Vamos tomar como exemplo as máscaras PFF2, onde temos diversos fabricantes nacionais do produto final e das matérias primas.

Conforme dados da ANIMASEG – Associação Nacional da Indústria de Material de Segurança e Proteção ao Trabalho, o consumo desse produto no mercado brasileiro, em 2019, foi de cerca de 180 milhões de máscaras por ano, ou 15 milhões por mês. Desse montante, 70% corresponde à fabricação nacional e somente 10% representa a quantidade de máscaras destinadas à área médica, suprida, até então, por apenas três empresas no país. Porém, a produção brasileira soma 177 máscaras certificadas pelo INMETRO de 27 fabricantes.

Diante dessas informações, nos surpreende que haja falta de capacidade produtiva nacional para atender ao mercado.

Entraves e providências

Alguns entraves foram rapidamente retirados, a fim de unir esforços para aumentar a produção nacional e suprir a demanda emergencial do setor da saúde, como: a suspensão da exigência de Registro na ANVISA (RDC 356, de 23/03/2020), que liberou todos os 27 fabricantes para fornecer à área médico-hospitalar; e a suspenção da compulsoriedade do Certificado de Conformidade do Inmetro (Portaria 102, de 20/03/2020).

Restou a questão do fornecimento da matéria-prima, principalmente do filtro, que muitas empresas adquiriam da China. Nesse caso, a mediação da ANIMASEG junto ao principal fornecedor brasileiro foi fundamental, garantindo assim a quantidade necessária para fabricação das máscaras.

Fornecimento

Você deve estar questionando: se podemos atender a demanda da área médico-hospitalar, qual é o motivo de ainda não haver máscaras PFF2 disponíveis para os profissionais da saúde?

Temos as seguintes situações a considerar desde a declaração de pandemia por Covid-19: primeira, a população em geral começou a adquirir as máscaras PFF2 mais do que o necessário, provavelmente por falta de conhecimento e pânico, prevendo a falta do produto no mercado, sendo que essas máscaras deveriam ser destinadas aos médicos, à indústria e aos hospitais. Segunda, revendedores finais enxergaram na escassez do produto uma oportunidade comercial, prejudicando também o abastecimento. Terceira, a grande maioria dos fabricantes e importadores foram habilitados a fornecer o produto somente após as flexibilizações das regulamentações da ANVISA e do Inmetro, a partir do dia 20 de março.

Ou seja, as empresas precisaram de um tempo para se prepararem e criarem as conexões de comercialização. Até o fechamento deste artigo, as fabricantes brasileiras sinalizaram a oferta de mais cinco milhões de máscaras PFF2 por mês para abastecer a área da saúde.

Outras ameaças

Nota-se também que, como o setor de produção de EPIs não foi considerado claramente essencial, prefeituras e governos estaduais limitaram a movimentação de cargas e trabalhadores, o que dificulta a produção e a distribuição dos produtos, sendo que, em alguns casos, as cargas de EPIs foram ameaçadas de apreensão, fato que também impacta a continuidade da produção e importação.

Reflexão

Concluímos que passada a pandemia, o Brasil precisa repensar suas estratégias de comercialização e proteção de sua indústria, abandonada nos últimos 30 anos, além de estruturar um sistema de gerenciamento de crises para enfrentar as futuras ameaças que, com certeza, virão.


O blog Equipamentos de Proteção em Foco é voltado à Saúde e Segurança do Trabalho, especificamente, no que se refere ao setor de Equipamentos de Proteção Individual e Coletiva, mercado, legislação, normas técnicas, indicações de uso, qualidade, inovações e dispositivos de proteção/segurança. O autor do blog é Raul Casanova Júnior, Engenheiro Eletrônico e Administrador de Empresas, com trajetória profissional no setor de Equipamento de Proteção, em especial, de EPI. É o atual Diretor Executivo da ANIMASEG (Associação Nacional da Indústria de Material de Segurança e Proteção ao Trabalho), onde atua desde 1993, e Diretor Executivo da ABRASEG, entidade que reúne importadores e distribuidores de equipamentos de proteção, desde 1995. É também Superintendente do Comitê Brasileiro de Equipamento de Proteção Individual – ABNT/CB-32, gestão 2020-2022.
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1 COMENTÁRIO

  1. boa tarde Raul Casa Nova

    sou assinante da revista proteção e gostaria que você falasse em seu blog ou publicasse uma matéria da dificuldade que nos TST das industrias que são trabalhos essenciais, estamos para achar EPI’s básicos (mascaras, óculos, macacão, protetor facial) devido a pandemia do covid-19 e quando achamos os valores que estão sendo cobrados estão ate 4 vezes mas caros, então nos do departamento de ST e junto com o COMPRAS não estamos conseguindo comprar EPI para nossos colaboradores, que estão trabalhando, e trabalhar sem usar os EPI’s nos não vamos deixar e ai como fazer.

    acho que a fiscalização quanto a quem ta vendendo deveria existir por causa do preços abusivos, e isso mostra também o quanto e a demanda de EPI usada no brasil e uma pandemia já se, sente a falta de EPI. para saúde e para as industrias.

    espero que seja atendido, e um forte abraços do seu amigo de ST.

    Valeu.

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