Até Tolstói sabia que os acidentes são multifatoriais

– Professor, mudei de empresa e como o senhor sempre recomenda, dentre outras ações, estou estudando a análise de acidentes dos últimos anos para conhecer o histórico da empresa.

– Excelente, meu filho! É essencial para conhecermos um pouco da empresa.

– Porém, não está adiantando muito, as análises estão bem pobres, praticamente em todas há a indicação de que a causa do acidente foi a desatenção do trabalhador e as ações para correção ficam restritas à sinalização e treinamento. Pior que quando fui falar com o meu chefe ele disse que os trabalhadores da empresa são realmente irresponsáveis.

Complicado, meu filho! Ele realmente acredita no que está escrito.

– Agora não sei o que eu faço, pois esta semana houve um acidente e já identifiquei diversos fatores que precisam ser tratados para que este acidente não volte a ocorrer e fica evidente que a falta de organização da empresa é uma das principais causas, mas como sou novato não sei se a chefia vai enxergar com bons olhos esta análise multifatorial em virtude deles estarem acostumados sempre a considerar o trabalhador como culpado. O que eu faço?

– Se já estão com este modo de pensar, realmente você terá dificuldades de fazer com que entendam que um evento pode ter diversas origens. E mesmo que algumas causas que você venha a identificar não tenham sido, neste momento, como fatores contributivos, é importante que sejam identificadas e tratadas. Em qualquer análise de acidente não necessariamente descobriremos a realidade sobre o sinistro, mas sim a nossa realidade sobre a situação.

– Concordo, professor! Por isso sempre faço em conjunto com vários profissionais.

– Perfeito, meu filho. Lembrei até de um trecho de León Tolstói no longo e saboroso clássico Guerra e Paz que comenta sobre isso.

– Professor, Tolstói escreveu sobre Acidente do Trabalho?

– Não, meu filho! Escreveu sobre a coincidência das causas, mas com um pouco de boa vontade tem muito a ver com o que estamos falando. Escute aí:

Quando a maçã fica madura e cai – por que cai? Porque a gravidade a atrai para a terra, ou porque sua haste está murcha, ou porque ela secou ao sol, ficou muito pesada, o vento a derrubou, ou porque um garoto que está junto a árvore quer comer a maçã?

Nenhuma dessas causas é válida. Tudo isso é apenas a coincidência das condições sob as quais ocorre qualquer acontecimento vivo, orgânico, elementar. O botânico que descobre que a maçã cai como consequência da decomposição do tecido celular ou qualquer coisa semelhante não tem mais razão que o garoto dizendo que a maçã caiu porque ele a desejava comer e nesse intuito rezou a Deus.

– Ou seja, igual razão ou sem-razão terá aquele que vier dizer que o acidente ocorreu por um único motivo e que tem certeza de qual foi.


O blog Segurito na Proteção trata de questões relacionadas à SST. É editado pelo professor Mário Sobral Jr, que é Mestre, engenheiro de Segurança do Trabalho, especialização em Higiene Ocupacional e Ergonomia e Editor do Jornal Segurito.
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