Aprendendo a fazer segurança com o COVID 19

Professor, neste período de pandemia a minha empresa não parou e percebi uma mudança de comportamento dos trabalhadores que me deixou surpreso.

– Qual, meu filho?

Sobre o uso dos respiradores, já trabalho nesta empresa faz três anos que sempre escuto os seguintes argumentos para não utilizar o EPI: é desconfortável, esqueço de usar, antes de você chegar aqui eu não usava e nem por isso fiquei doente, dentre outros.

– Já ouvi isso também, meu filho.

Mas a minha surpresa é que durante todo o período que estou aqui, fiz teste com outros modelos, tentando trocar por equipamentos que diminuíssem o desconforto, sinalização pela fábrica para que facilitasse a lembrança e frequentes treinamentos por meio de DDS, palestras na SIPAT ou mesmo palestras específicas para os usuários, mas nunca havia conseguido esta adesão. Tenho a sensação de que sempre foi possível convencer os trabalhadores a utilizar e eu que não tive competência suficiente para isso.

– Não exagere, mas esta sua reflexão é bem interessante para utilizarmos no futuro as ferramentas que possibilitaram estas mudanças.

– Professor, este que é o problema. Só consigo visualizar o medo como fator, mas não sei se seria bom as pessoas terem medo e como faria para utilizar na Segurança do Trabalho.

– Meu filho, quanto mais informação o trabalhador tiver, mais ele pode relacionar com outras que já possui e consequentemente mudar seu modo de agir em função do conhecimento adquirido. Ou seja, se ele sabe que tal agente tem possibilidade de realmente prejudicar a sua saúde, aumenta a probabilidade de seguir determinado procedimento.

Professor, mas informação eu já passo e no caso do COVID 19 acredito que não é só isso.

– Com certeza, outro fator importante é qual a fonte da informação, por exemplo, no momento que um órgão reconhecido como uma autoridade na área de saúde (como a OMS) passa a informação, aumenta a probabilidade de as pessoas acreditarem e seguirem.

O senhor meu deu uma ideia, posso chamar o químico da empresa para ajudar na divulgação. Vou até pedir para ele aparecer de jaleco para passar mais autoridade.

– Outro ponto importante é o que eu chamo de “Maria vai com as outras”, também é conhecido como Efeito Manada, ou seja, temos uma tendência a repetir o que outras pessoas fazem, principalmente se são pessoas influentes, ou seja, você não precisa convencer todo mundo, mas focar nos líderes.

– Por fim, outro argumento usado no COVID 19 é um sentimento de culpa, pois o tempo todo ouvimos: você não deve sair não apenas por você, mas por gerar uma consequência para os outros, principalmente idosos.

Já uso isso, na hora que alertamos para o caso de um afastamento por doença ou mesmo morte, a família do trabalhador ficará desamparada.

– Agora a principal diferença é que no caso do COVID 19 isto é repetido, literalmente, a cada minuto do dia e em uma empresa é complicado fazer campanhas tão intensas, mas acho que aplicando algumas destas estratégias podemos conseguir uma maior adesão dos trabalhadores para as nossas campanhas.


O blog Segurito na Proteção trata de questões relacionadas à SST. É editado pelo professor Mário Sobral Jr, que é Mestre, engenheiro de Segurança do Trabalho, especialização em Higiene Ocupacional e Ergonomia e Editor do Jornal Segurito.
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2 COMENTÁRIOS

    • Não sei se conseguirei responder o que você espera, mas vamos tentar. Acredito que o principal problema é o foco, nós e a empresa temos diversas atividades e como em geral não há um planejamento acabamos trabalhando de forma descoordenada. Para termos um objetivo mais centrado é necessário levantar quais são os principais problemas da empresa (como em um Pareto) e assim, talvez seja possível ser mais efetivo sem muitas ações dispersas. Sem esquecer, que caso não tenhamos apoio da empresa dificilmente alcançaremos estes objetivos.

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