Já sou assinante!

Assinante Proteção ou Proteção+ tem acesso ilimitado

Ainda não sou assinante?

Identifique-se pelo Facebook para ganhar mais 3 artigos por mês

ou

Assine já A partir de R$5,90/mês

para acesso ilimitado

quinta-feira, 07 de julho de 2022

REPORTAGEM ESPECIAL | SST em supermercados: tudo em um só lugar

Por Raira Cardoso/Jornalista da Revista Proteção

A frase muitas vezes usada como propaganda no setor supermercadista resume bem o cenário precário quando o assunto é Segurança e Saúde do Trabalho, reunindo uma diversa gama de riscos ocupacionais e pouca cultura de prevenção

Um dos setores que mais emprega no Brasil, o setor supermercadista engloba desde os mercados de vizinhança até os grandes atacarejos (modelo que mistura atacado com varejo). À frente desses estabelecimentos, os operadores de checkout servem como ‘cartão de visitas’ das organizações. Mas nem por isso estão livres da exposição a riscos ocupacionais durante sua jornada laboral. Durante sua rotina, realizam esforço biomecânico excessivo, com muitos movimentos repetitivos e levantamento de peso, além da carga cognitiva e relacional, advinda do contato com os clientes que, reza a lenda, sempre têm razão.

Nos ambientes de retaguarda, empregados do recebimento/estoque e repositores adotam posturas indesejáveis e carregamentos individuais de grandes cargas, que são os principais causadores de adoecimentos. O risco de acidentes também é bastante presente, seja devido ao uso inadequado de empilhadeiras, das máquinas e equipamentos nos açougues e padarias, entre outras situações. Todo esse cenário foi ainda mais agravado com a pandemia de Covid-19, uma vez que as lojas são consideradas serviços essenciais e não adotaram a quarentena mesmo no auge de contaminação no país.

Detalhando todos os desafios do setor relacionados à Segurança e Saúde no Trabalho, especialistas aproveitaram a reportagem para apresentar boas práticas que devem ser adotadas para melhorar a realidade dos trabalhadores nestes locais.

Com a evolução da vacinação no combate à Covid-19, a rotina das pessoas vai voltando a uma certa normalidade e, retornando a circular pelas cidades, algumas mudanças chamam a atenção. Uma delas é a grande quantidade de estabelecimentos comerciais que não resistiram à pandemia e acabaram fechando as portas. Na contramão disto, o setor supermercadista vivenciou um período de crescimento em 2020. Conforme dados da Associação Brasileira de Supermercados, apresentados na 44ª edição do Ranking Abras, houve faturamento de R$ 554 bilhões, representando 7,5% do PIB nacional. Isso considerando todas as formas e canais de distribuição, ou seja, mercados de vizinhança, supermercados, hipermercados, atacarejos e e-commerce.

Chegando a um total de 91.351 lojas distribuídas pelo país, o segmento é um dos que mais emprega segundo a Abras, contabilizando um efetivo de três milhões de colaboradores diretos e indiretos. Nesses estabelecimentos os trabalhadores realizam diversas atividades laborais e, em cada uma delas, diferentes desafios colocam em risco a segurança e a saúde desses colaboradores.

Não é à toa que os supermercados e hipermercados (CNAE 4711) aparecem em segundo lugar no levantamento mais recente das atividades com mais acidentes de trabalho do Anuário Estatístico de Previdência Social (2019). Mas afinal de contas, que tantos riscos existem nesses locais e como eles passam despercebidos pelos clientes que lotam seus corredores todos os dias? Será que a pandemia agravou essa situação? E de que forma pode ser feita uma gestão efetiva de Segurança e Saúde do Trabalho nestes ambientes?

CENÁRIO

Antes de mais nada, é importante distinguir os diferentes estabelecimentos que integram o setor supermercadista. Enquanto os mercados menores e os supermercados funcionam com um sistema de autosserviço oferecendo uma grande variedade de alimentos e produtos domésticos, os hipermercados adicionam a esse mix lojas de departamentos com as mais diversas mercadorias. Por sua vez, os chamados atacarejos unem as características do atacado e do varejo, vendendo produtos em volumes maiores e preços reduzidos.

Müller: projeto técnico – Crédito: Arquivo Pessoal

Logo à frente desses estabelecimentos encontram-se os operadores de checkout – ou caixa – e empacotadores, nas lojas que ainda mantêm esta função. Já os operadores atuam pelos corredores e estoque, fazendo a organização e a reposição de mercadorias, enquanto outros profissionais realizam funções nos açougues, padarias, etc. “Os perigos mais comuns são relacionados aos fatores ergonômicos, presentes em todos os setores desses estabelecimentos. Tais como arranjo físico, leiaute ou mobiliário, exigência de força, posturas extremas/forçadas dos segmentos corporais e organização do trabalho”, aponta o auditor fiscal do Trabalho Mauro Müller. Entenda como os riscos relacionados à Ergonomia podem afetar a saúde dos trabalhadores nesses ambientes laborais a partir da página 42.

Chefe da Segur (Setor de Segurança e Saúde do Trabalhador) da Superintendência Regional do Trabalho em Porto Alegre/RS, ele cita também os riscos decorrentes de agentes físicos, como a vibração de corpo inteiro nas atividades com uso de empilhadeiras, e a vibração de mão/braço pelo uso de máquinas no açougue ou padaria. Ainda há exposição ao frio nos setores de câmaras frias e de hortifruti, assim como ao calor na padaria e cozinha. O ruído contínuo ou intermitente é outro agente que está presente na maioria das atividades. “Os trabalhadores também podem estar expostos a perigos decorrentes de agentes químicos e biológicos nas atividades de manutenção, limpeza e higienização, referentes ao uso de substâncias químicas diversas”, complementa Müller.

POSSÍVEIS ACIDENTES

Crédito: Tânia Rêgo/Agência Brasil

O risco de acidentes é outro muito presente em algumas atividades do setor supermercadista, de acordo com o auditor fiscal do Trabalho Marcel Giuliano Silveira de Sousa. Em se tratando de acidentes com máquinas e equipamentos, ele afirma que ocorrem principalmente no açougue, especialmente em serras-fita e moedores de carne, assim como nos cilindros de massas, modeladoras e amassadeiras da padaria. “Há de se ressaltar também a máquina enfardadeira, usada na prensagem de papelão, que, se não devidamente protegida, pode predispor os empregados a perigos de sérios acidentes, como amputações em mãos”, pontua.

Em sua atuação na SRT no Estado de São Paulo, ele também observa de forma corriqueira o perigo de queda em altura, mesmo em estabelecimentos bem estruturados e de grande porte, segundo ele devido a inúmeras falhas na gestão da NR 35. Como é o caso do uso de escadas tipo plataforma para acesso a prateleiras mais altas do estoque, recebimento e reposição de mercadorias, sem guarda-corpo efetivo para proteção contra quedas. “Além disso, muitas empresas costumam utilizar empilhadeira, que é projetada exclusivamente para transportar e erguer cargas, para elevar trabalhadores para que atividades de manutenção como a troca de lâmpadas sejam executadas”, revela Sousa.

O equipamento é ainda mais utilizado nos atacarejos, onde os estoques vêm para a frente das lojas. “Com o emprego das empilhadeiras em funcionamento nos horários de pico, sem isolamento das áreas, clientes e empregados estão em risco de acidente eminente, seja por atropelamento ou queda de produtos em altura, ou até mesmo a queda de prateleiras gigantes em efeito dominó”, alerta o secretário de Saúde e Segurança da Confederação Nacional dos Trabalhadores no Comércio e Serviços, Domingos Braga Mota. Destacando a seriedade deste acontecimento, ele relembra o acidente que ocorreu em São Luís/MA em outubro do ano passado, que vitimou Eleane de Oliveira Rodrigues, de 21 anos. Funcionária de um atacarejo, ela foi soterrada por produtos após o desabamento de prateleiras e não resistiu. Além da repositora de estoque, outras oito pessoas, entres clientes e funcionários, sofreram ferimentos leves.

REALIDADES DISTINTAS

Silva: ambientes de retaguarda – Crédito: arquivo pessoal

Na percepção do chefe do Setor de Planejamento, Controle e Avaliação da Seção de Fiscalização do Trabalho da SRT/RS, Rudy Allan Silva da Silva, há um paradoxo no interior das instalações supermercadistas que merece destaque: a convivência entre ambientes harmoniosos nos salões de atendimento e locais pouco aprazíveis na retaguarda das lojas. De um lado, ele observa corredores amplos e desobstruídos, limpos e climatizados; de outro, pavilhões abarrotados de mercadorias, pouco iluminados, sujos e sujeitos a grande amplitude térmica, sendo extremamente frios no inverno e quentes no verão. “Checkouts e os demais ambientes das lojas acessíveis aos clientes servem de cartão de visitas das organizações, relegando à retaguarda dos estabelecimentos uma atenção menor. A prática fiscal revela que as estratégias de gestão de Saúde e Segurança do Trabalho não são homogêneas”, revela o AFT.

Sousa destaca ainda a mão de obra terceirizada existente nos supermercados, hipermercados e atacarejos, geralmente em funções como vigilância e limpeza, expostos aos riscos laborais existentes nos estabelecimentos. Além dos promotores de vendas, que não são contratados, mas encontram-se nos locais fazendo a arrumação dos produtos das empresas que representam. “No tocante à gestão de SST, os supermercados geralmente fiscalizam o cumprimento de itens mais básicos nas empresas contratadas, como fornecimento de EPI e existência de ASO. Outras situações, como acesso a escadas e carregamento manual de cargas por promotores, por exemplo, costumam ter uma menor atenção das contratantes”, relata.

Adirlaine: nível de gestão é baixo – Crédito: arquivo pessoal

Auditora fiscal do Trabalho da SRT em Minas Gerais, Adirlaine Melo reforça o fato de que o nível de gestão de riscos encontrado no segmento é baixo. Segundo ela, os programas apresentados existem apenas para cumprimento da exigência legal, geralmente citando que não existem riscos e sem abordar as questões de organização do trabalho. “Na análise do acidente, quando realizam, costumam descrever como ‘ato inseguro do trabalhador’, não minimizam ou eliminam os riscos existentes, nem mesmo alteram o processo de trabalho, quando se faz necessário, para evitar novas ocorrências”, conta.

Os próprios redesenhos de negócios que as lojas vêm sofrendo nos últimos anos contribuem para a persistência de adoecimentos e acidentes neste setor no entendimento da socióloga Juliana Andrade Oliveira. Tecnologista da Fundacentro, ela pondera que, toda vez que se mexe na organização do trabalho, há impacto na SST, que pode ser positivo ou negativo. “Quando vemos os registros de afastamentos, vemos que não houve preocupação o suficiente em fazer com que essas mudanças melhorassem, não só o serviço, mas também o bem-estar dos trabalhadores”, avalia.

ENFOQUE NA PREVENÇÃO

Para uma mudança efetiva nesse cenário, Sousa enfatiza que o trabalho de SST precisa ter enfoque na prevenção, seja por meio da eliminação dos agentes no ambiente, seja pelo seu controle e redução. Adirlaine aponta que isso começa pela antecipação dos riscos existentes de acordo com as atividades apresentadas nas lojas. “Devem ser observados quais equipamentos e máquinas existem no local e se estão em conformidade com as exigências da NR 12, se estão sendo disponibilizados EPIs onde o risco não pode ser eliminado; como é a organização do trabalho, se existem metas de produção, rodízio de trabalhadores, treinamentos”, lista.

Empilhadeiras são usadas de forma inadequada no interior das lojas – Crédito: Shutterstock

A auditora fiscal do Trabalho de Minas Gerais destaca a importância de capacitação para os trabalhadores com acesso a câmaras frias ou de congelamento. Lembra também que eles precisam utilizar calça, casaco, botas de borracha (com antiderrapante), meias, luvas, toucas específicas para proteção térmica e de acordo com a temperatura a que estarão expostos. Além disso, os colaboradores que movimentam mercadorias do ambiente quente ou normal para o frio e vice-versa devem ter um intervalo para recuperação térmica. “Reforço ainda sobre os elevadores de carga, acerca dos dispositivos de segurança a serem observados para evitar acidentes, como o intertravamento de porta, para evitar sua abertura fora do nível, excesso de peso, etc.”, complementa.

A NR 35 é outra norma que deve ser observada no setor supermercadista para evitar acidentes envolvendo o trabalho em altura. Especialmente nos atacarejos, Müller aponta que as estruturas de estocagem precisam ser dimensionadas em um projeto técnico feito por um profissional legalmente habilitado. “O projeto de dimensionamento deve contemplar uma resistência suficiente para que na estrutura de armazenamento, mesmo entortando-se um perfil ou retirando-se uma coluna, as vizinhas consigam suportar sozinhas a carga”, ressalta.

O diálogo contínuo dos prevencionistas com os trabalhadores é outro ponto de destaque. “Para a boa gestão dos agentes ocupacionais deve haver atuação do SESMT, deve ser ouvida a CIPA, ser considerada a percepção dos colaboradores e de outros profissionais como prestadores de serviços e contratados”, complementa Sousa. Somente o trabalho conjunto e contínuo visando, não só a saúde e a segurança, mas também a qualidade de vida dos funcionários das lojas do setor supermercadista, acarretará melhorias efetivas e queda nos números de acidentados e adoecidos como decorrência das suas atividades laborais.

Organização do trabalho é essencial

Riscos ergonômicos e psicossociais cercam todos os funcionários do setor

Nem todos os estabelecimentos do setor supermercadista possuem os riscos associados a açougues, padarias, preparo de alimentos, grandes estoques. Mas absolutamente todos eles expõem seus trabalhadores a riscos relacionados à Ergonomia.

Marçal: alta carga física – Crédito: arquivo pessoal

Nas atividades de operadores de checkout, o doutor em Ergonomia José Marçal Jackson Filho destaca a dimensão física exigida, uma vez que eles manipulam muitos pesos, dependendo do tipo de supermercado, chegando a manipular de um a sete quilos por hora. Tecnologista da Fundacentro, Juliana Andrade Oliveira cita também o esforço biomecânico nas lojas em que não há a figura do empacotador, ficando para o operador de caixa a função de ensaque. “Ainda que os clientes em lojas menores não tenham o costume de fazer grandes volumes de compra, essas operam com filas em vários horários do dia, pois estão situadas em locais centrais na cidade. No final do dia, foram várias sacolas preenchidas de vários clientes”, observa. Segundo ela, esse é um dos fatores que pode explicar a persistência das tenossinovites e outros adoecimentos osteomusculares que aparecem nas primeiras causas de afastamentos destes trabalhadores.

Por essas e outras situações habituais do serviço de checkout, o auditor fiscal do Trabalho Marcel Giuliano Silveira de Sousa, da Superintendência Regional do Trabalho de São Paulo/SP, aponta a presença, principalmente, da movimentação repetitiva em membros superiores. Assim como posturas indesejáveis, como flexão de tronco e de ombros para alcance de produtos e transporte manual de mercadorias, sendo algumas mais pesadas. Já no recebimento/estoque e reposição, ocorrem muitos carregamentos individuais de cargas para as arrumações nas prateleiras e pallets. “Ademais, as alturas para retirada e deposição de mercadorias em pallets e prateleiras podem ser baixas, levando os funcionários a realizarem flexão (curvatura) acentuada no tronco, predispondo-os mais facilmente a lesões na coluna lombar”. AFT em Minas Gerais, Adirlaine Melo lembra ainda dos trabalhadores que atuam em açougues e padarias, que trabalham em pé durante toda a sua jornada.

Além das tenossinovites, que são inflamações que acometem tendões do polegar, a dorsalgia (dor nas costas), e a Síndrome do Túnel do Carpo aparecem com frequência entre os operadores de checkout. Já nos empregados de recebimento/estoque e repositores de mercadorias, as lombalgias são comuns. Isso considerando os casos de adoecimentos reconhecidamente ligados às funções laborais. “Como a notificação de doenças ocupacionais é muito baixa, os dados que possuímos não são precisos”, comenta Sousa.

LINHA DE FRENTE

Objetos pesados devem ser carregados por dois ou mais empregados – Crédito: Shutterstock

Somados aos esforços biomecânicos, Juliana aponta o aumento do esforço gerado pelo trabalho relacional dos empregados do setor supermercadista, especialmente dos operadores de checkout. Isto é, o autogerenciamento que o trabalhador faz em suas próprias emoções e comportamentos para produzir uma interação de serviço satisfatório para o cliente e para a empresa. “No caso dos operadores de caixa, ou melhor, operadoras, já que é uma função majoritariamente ocupada por mulheres, há a vulnerabilidade a violências, que vão desde assédios, humilhações até a um assalto. Elas estão na linha de frente, são as trabalhadoras que o cliente tem contato imediato e, em geral, são as que são cobradas por algo que não funciona, um preço errado, fila que não anda, e as que mais exercem o trabalho relacional”, explica a socióloga. 

Conforme ela, o imperativo de que ‘o cliente tem sempre razão’ abre brechas para comportamentos inaceitáveis, como paqueras, insinuações, que as caixas recebem na maioria das vezes sem poder negar atendimento. Muitas se calam porque temem perder seus empregos ou porque sabem que a empresa pode optar por fazer vista grossa, para não perder a clientela. Marçal acrescenta ainda a atividade cognitiva dos operadores de caixa que, embora não façam contas, lidam com o dinheiro das pessoas e também precisam ficar atentos aos sons emitidos a cada produto que passa para conferir se ele realmente foi cobrado.

No caso dos repositores de mercadorias e estoquistas, acabam trabalhando mais entre si e com colaboradores de outras empresas, que entregam os produtos. A pressão de ter que realizar uma tarefa com alta carga física em pouco tempo pode ser bastante estressante.

Juliana: violências podem ocorrer

“Na ocupação de operador de caixa, os episódios depressivos aparecem em terceiro lugar como causa de afastamento relacionado ao trabalho e em primeiro nas causas de afastamento por auxílio-doença comum. Não se observa o mesmo entre repositores e açougueiros, as outras duas ocupações com mais afastamentos”, revela Juliana. Ao seu ver, isso é um indício das consequências da falta de proteção à trabalhadora na interação com o cliente, que pode tanto ser fonte de sentido no trabalho (receber um elogio) quanto de violência (assédio, humilhação, etc.).

MAPEAMENTO

Definindo as exigências que devem ser seguidas para a adaptação das condições de trabalho às características psicofisiológicas dos trabalhadores, a Norma Regulamentadora 17 possui um anexo dedicado exclusivamente aos operadores de checkout, em vigor desde 2007. De acordo com o auditor fiscal do Trabalho Mauro Müller, o mais importante é a organização realizar um mapeamento ergonômico, o levantamento dos problemas de ergonomia existentes nas atividades para montar um plano de ação adequado. “Deve-se identificar também as situações para as quais será necessário o aprofundamento por meio da realização de uma Análise Ergonômica do Trabalho”, aponta ele que é Chefe da Segur da Superintendência Regional do Trabalho em Porto Alegre/RS.

Dentre as boas práticas previstas no Anexo 1 da NR 17 a serem observadas nos checkouts, a auditora fiscal do Trabalho da SRT-MG, Adirlaine Melo, destaca que os mobiliários e equipamentos precisam ter suas regulagens de alturas, distâncias e dimensões adequadas, atendendo às características antropométricas de 90% dos trabalhadores. Nesse sentido, garantir um espaço adequado para livre movimentação do operador e manter uma cadeira de trabalho com assento e encosto para apoio e lombar são essenciais. “Já para a manipulação de mercadorias deve-se levar em conta equipamentos, peso, balança, ensacamento, digitação de códigos, etc.”, cita.

Em se tratando da organização do trabalho, a disposição física e o número de checkouts em atividade e de operadores precisa ser compatível com o fluxo de clientes, oportunizando pessoas de apoio para substituição quando necessário, pausas durante a jornada de trabalho e rodízio entre os operadores do caixa. A adoção de filas únicas e caixas especiais (idosos, gestantes, etc.) também são recomendados.

Sousa: redução do impacto – Crédito: arquivo pessoal

Com relação ao carregamento manual de cargas pesadas no recebimento/estoque e reposição de mercadorias, Sousa ressalta que as empresas devem adotar medidas de forma a reduzir o impacto sobre a saúde dos trabalhadores. “Como tornar obrigatório o carregamento de cada mercadoria por dois ou mais empregados simultaneamente, elevar a altura de pallets e prateleiras para deposição e retiradas de mercadorias, de modo a propiciar diminuição de flexão da coluna lombar, entre outras ações”, pontua o AFT de São Paulo.

Condições ambientais favoráveis ao trabalho, como iluminamento, ruído e conforto térmico também precisam ser observados em todas as lojas do setor supermercadista.

SST NO PROJETO

Para Marçal, a resposta para sair da situação patológica de algumas lojas que adoecem muitos trabalhadores, de diversos setores, se encontra no desenvolvimento de projetos que promovam condições organizacionais, materiais e de espaço adaptadas às atividades e aos colaboradores. “Em local com leiaute mais agradável, um controle de temperatura melhor, uma disposição dos caixas que segue o princípio de fila única, que tem um desenho que respeita altura, com um espaço suficiente entre os caixas, certamente a saúde dos trabalhadores vai ser melhor. A prevenção tem que cobrir esses diferentes aspectos”, observa o tecnologista da Fundacentro. Do mesmo modo, o doutor em Ergonomia afirma que, se houver programas de suporte, se a posição dos supervisores for de suportar mais os trabalhadores, se houver mais pessoas embalando, por exemplo, a saúde do operador do checkout será favorecida devido à diminuição da sua carga de trabalho.

Juliana aponta a necessidade de um canal de escuta para que as operadoras de caixa possam ser ouvidas sobre acontecimentos ‘desagradáveis’ ou humilhantes com clientes. Além disso, é importante que as informações sobre promoções sejam muito claras e expostas no estabelecimento para que as operadoras não tenham que explicar exceções que possam desagradar os clientes. “Para elas, é importante que conversem entre si e que identifiquem clientes mal-educados e saibam em conjunto se defenderem. Um gerente que escuta a queixa de uma trabalhadora já faz muito pela sua saúde”, pondera a socióloga que atua na Fundacentro.

Anexo 1 da NR 17 apresenta boas práticas a serem observadas nos checkouts – Crédito: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Passando por um processo de revisão no último ano, a NR 17 foi atualizada e aguardava-se sua publicação até o fechamento desta edição. Coordenando a equipe de governo do Grupo de Trabalho Tripartite da norma, Müller adiantou que o novo texto prevê a integração da NR 17 com o gerenciamento de riscos ocupacionais estabelecido pela nova NR 1. No Anexo 1, que trata dos operadores de checkout, comenta que a atualização também é relativa ao GRO.

Na sua visão, trata-se de um avanço importante, uma vez que os riscos ocupacionais passam a ser avaliados de forma completa em seu contexto, incluindo os aspectos ergonômicos. “Outro avanço importantíssimo para os trabalhadores é a previsão da Avaliação Ergonômica Preliminar, que possibilitará a identificação dos problemas e adoção de medidas de prevenção de forma mais ágil pela organização, sem necessitar a realização de uma AET, um procedimento mais demorado, para todos os casos”, revela o Chefe da Segur da SRT/RS. A Análise Ergonômica do Trabalho permanece quando for necessário o aprofundamento da análise da situação de trabalho.

FISCALIZAÇÃO

Secretário de Saúde e Segurança da Confederação Nacional dos Trabalhadores no Comércio e Serviços, Domingos Braga Mota chama a atenção para a necessidade da Fiscalização e ações conjuntas para que os estabelecimentos do setor supermercadista de fato ofereçam ambientes laborais seguros e saudáveis. “O elevado índice de registros dos acidentes e doenças do trabalho relacionados ao nosso ramo exige uma atuação ampla e qualificada de maneira a garantir a preservação da segurança e saúde dos trabalhadores e trabalhadoras”, opina. Nesse viés, ele destaca algumas ações da Contracs, como a participação durante as consultas públicas de Normas Regulamentadoras como a NR 17, parcerias com órgãos como a Fundacentro e elaboração de publicações e campanhas sobre assédio moral e operação de checkout.

SRT-SP promoveu palestras para empresas – Crédito: Gerência regional de Ribeirão Preto

Desenvolvendo um projeto voltado à Ergonomia no Estado de São Paulo há décadas, a Superintendência Regional do Trabalho realizou uma força-tarefa em diversos supermercados em 2019. Coordenador da iniciativa, Marcel Giuliano Silveira de Sousa conta que as empresas foram convocadas a participarem de uma palestra com enfoque nos principais descumprimentos que a fiscalização vinha observando no setor. “Ao final de cada palestra, cada empresa recebeu, por escrito, um termo de notificação contendo os itens que precisariam ser adequados, assim como os prazos. Após, os supermercados passaram a ser fiscalizados in loco para verificação do cumprimento do termo de notificação”. O auditor fiscal do Trabalho percebeu uma maior ‘abertura’ dos empregadores para adequarem máquinas e equipamentos conforme a NR 12. No entanto, apresentaram maior resistência para regularizações referentes à Ergonomia e trabalho em altura. “Não sei precisar o motivo, mas podemos pensar que, por exemplo, mudanças na forma de carregamento manual de cargas podem impactar na velocidade e produtividade do trabalho”, reflete.

Devido à pandemia, houve redução das fiscalizações in loco, que estão sendo reestabelecidas gradualmente, conforme o avanço da vacinação. Em um segmento em que a cultura da prevenção não está consolidada, a Inspeção do Trabalho se faz essencial. Assim como a atuação dos prevencionistas na origem das causas de acidentes e adoecimentos. Empregadores e trabalhadores também precisam ser envolvidos nessa missão da promoção da SST que, a longo prazo, beneficia a todos.

Covid-19 é mais um desafio

Lojas do setor supermercadista sofreram com surtos da doença

Quase dois anos se passaram desde o registro do primeiro caso de Covid-19 no Brasil, e o número de vítimas fatais está próximo aos 600 mil segundo a Organização Mundial da Saúde. Enquanto uns retornam aos seus postos de trabalho presenciais, outros adotam o home office de vez ou mesmo um modelo híbrido, os estabelecimentos do setor supermercadista seguem suas rotinas normais. Isso porque, por serem considerados serviços essenciais, mantiveram suas portas abertas mesmo no auge da contaminação no país.

Por isso mesmo, de acordo com a tecnologista da Fundacentro, Juliana Andrade Oliveira, os trabalhadores do segmento estão entre os que mais adoeceram pelo novo coronavírus e, pior, entre as ocupações que mais tiveram desligamento de emprego por morte no ano de 2020. “No caso das operadoras de caixa, estão muito próximas da principal fonte de risco, os aerossóis que saem da fala e respiração dos clientes. É verdade que rapidamente as lojas se adaptaram, e passamos a ver as barreiras acrílicas, álcool em gel na porta, carrinhos higienizados, contagem de limite máximo de pessoas por loja, uso de máscara pelos trabalhadores e exigência do uso da máscara aos clientes, mas será que essas medidas foram suficientes e foram todas realizadas corretamente?”, questiona.

Segundo a socióloga, algumas lojas fizeram a sua lição de casa, mas outras apenas ofereceram kit de álcool gel na entrada e acharam que era o suficiente. O que pode explicar os surtos da doença identificados em diversos supermercados. Até mesmo porque, no primeiro semestre de 2020, quando havia adesão ao isolamento social, a ida aos estabelecimentos passou a ser um evento social e virou inclusive ponto de encontros.

Pensando nisso, a Fundacentro traduziu e adaptou um material da OMS, publicando o guia ‘Prevenção à Covid-19 – Orientações aos empregadores e trabalhadores de supermercados’ (https://bit.ly/3lMuG7U) em outubro de 2020. Coordenando a elaboração da publicação, Juliana comenta que ela está sendo atualizada em relação às formas de transmissão, mas a maioria das recomendações de leiaute e organização do trabalho permanecem atuais. “Infelizmente, não estamos no final da pandemia e com o surgimento de variantes mais transmissíveis, a vacinação por si só ainda não é suficiente. Então é preciso que as empresas sejam aliadas e ofereçam máscaras de qualidade, que façam o rastreamento de casos de Covid-19, incentivando que trabalhadores com sintomas sejam testados e tratados”, enfatiza.

ATUAÇÃO DO MPT

Priscila: Termos de Ajuste de Conduta – Crédito: Flávio Portela

O setor supermercadista também esteve no radar do Ministério Público do Trabalho durante a pandemia de Covid-19. “Os supermercados possuem características e pontos críticos que viabilizam a maior disseminação e propagação do Sars-Cov-2, que impõem a implementação efetiva de medidas eficazes de controle”, aponta a procuradora do Trabalho do RS Priscila Dibi Schvarcz, que integra o Grupo de Trabalho Covid-19 do MPT em âmbito nacional. Para ilustrar a questão, ela aponta que no ramo alimentício – incluindo supermercados, restaurantes, cafés e padarias – foram decretados até junho deste ano 247 surtos da doença apenas no município de Porto Alegre/RS.

Em razão disso, a instituição tem atuado firmando Termos de Ajuste de Conduta e, quando necessário, ajuizando Ações Civis Públicas. “De um modo geral, o setor tem compreendido a importância da adoção de medidas adequadas como forma de preservação da saúde de seus empregados, assim como do público que frequenta os estabelecimentos, razão pela qual foram pactuados cronogramas para cumprimento de medidas de prevenção”, relata Priscila.

A Associação Brasileira de Supermercados também desenvolveu um material de apoio ao setor, denominado Protocolo para Prevenção do Coronavírus (COVID-19) nos Supermercados (https://bit.ly/3hTjAwQ). Secretário de Saúde e Segurança da Confederação Nacional dos Trabalhadores no Comércio e Serviços, Domingos Braga Mota aconselha que todos os estabelecimentos continuem seguindo as orientações dos órgãos de saúde, listadas no documento. “É por meio da conscientização e da atitude positiva de cada indivíduo que este episódio será superado. Se cada empresa e cada cidadão fizer a sua parte, passaremos por essa turbulência de forma mais amena e sairemos dela mais fortes como sociedade”, completa. Quanto mais informação circular entre as lojas do setor supermercadista, mais elas estarão preparadas para lidar com mais este desafio.

Artigos relacionados

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui