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quinta-feira, 07 de julho de 2022

REPORTAGEM ESPECIAL | Gerenciamento de Riscos Ocupacionais: A hora da mudança – Ed. 361

Por Marla Cardoso/Jornalista da Revista Proteção

Com a implantação do PGR e do GRO, a gestão dos riscos ocupacionais poderá modificar a visão sobre SST nas empresas

O ano de 2022, mais precisamente a partir de 3 de janeiro, promete ser um marco para a área de Saúde e Segurança do Trabalho no país. É nesse dia que entra em vigor a nova NR 1 e o GRO (Gerenciamento de Riscos Ocupacionais), executado a partir do PGR (Programa de Gerenciamento de Riscos). A data também coincide com a extinção do PPRA (Programa de Prevenção de Riscos Ambientais), que não sai de cena para dar lugar ao novo modelo, já que o texto da NR 9 tem como base os conceitos de Higiene Ocupacional avaliando os agentes físicos, químicos e biológicos. Agora, com o PGR e o GRO, o foco é mais abrangente com a avaliação constante de todos os tipos de riscos e perigos, incluindo ergonômicos e de acidentes, e reunindo todas as atividades e ambientes de trabalho da organização.

Além de identificar os perigos, com o GRO será necessário avaliar os riscos com a participação dos trabalhadores, estabelecer controles, monitorar as ações implantadas e buscar a melhoria contínua de um sistema de gestão de SST, sempre que houver modificações no ambiente laboral. Um desafio encarado pelos especialistas como uma ótima oportunidade para que a maneira de olhar para a prevenção dentro das empresas mude drasticamente. Uma forma de instigar que os profissionais de SST, assim como seus empregadores, deixem de trabalhar apenas para o cumprimento de normas e passem a fazer uma gestão de SST alinhada com todo o negócio e suas áreas. Resta saber se todos estão preparados!

Lumbreras: mais abrangente – Crédito: Arquivo

Desde que foi criada, através da Portaria 3.214, em 1978, a NR 1 passou por quatro revisões. O engenheiro de segurança e auditor fiscal do trabalho, Luiz Carlos Lumbreras, lembra que, pelo menos desde o ano 2000, a CTPP (Comissão Tripartite Paritária Permanente), responsável pelo processo de revisão e elaboração de regulamentações na área de SST, já havia se pronunciado sobre a necessidade de estender a norma a uma sistemática mais abrangente. E foi justamente para pensar nesse novo texto que um Grupo Tripartite de Trabalho, coordenado por ele, foi criado em 2011. O resultado, depois de 10 anos de discussões, culminou em uma proposta com foco na gestão dos riscos ocupacionais.

Almeida: controles unificados – Crédito: Arquivo pessoal

O que a NR 1 propõe agora não é uma novidade no universo corporativo. Sistemas de gestão já são uma realidade em diversas empresas, que geralmente iniciam se estruturando por meio da ISO 9001 – Sistema de Gestão da Qualidade. Profissional da área de Segurança do Trabalho há mais de 30 anos, Eduardo Almeida, que mantém no Youtube o canal Dr. Safety e atua como especialista de Segurança de Processos Sênior da Usiminas, lembra que todos os conceitos da NR 1 são advindos da ISO 31000 – Gestão de Riscos – destacando que o que se propõe agora, com a nova norma, é o mesmo modelo de gestão, porém, com uma mudança de foco. “Quem é gestor de riscos vai buscar aplicar ferramentas que são mais específicas da área de Segurança Ocupacional para gerir riscos dessa natureza”, explicou Almeida.

COMPARTILHAMENTO

A semelhança também é destacada pelo engenheiro de Segurança do Trabalho, Mário Sobral Júnior, que lembra que esses padrões normativos possuem requisitos comuns e interdependentes que afetam o desempenho das empresas e que podem ser compartilhados pelos diferentes sistemas de gestão. “Essa estrutura, que não é nova, se bem aplicada pode trazer bons frutos para a área de SST”, reforçou.

Inicialmente, o GRO ajudará os projetos a nascerem mais seguros dentro das organizações, otimizando investimentos e custos para controlar os riscos, mas também os resultados. “Quando a decisão de gestão de risco é trabalhada de forma efetiva, no nascedouro dos projetos ou nas modificações necessárias, vai haver ganho de produtividade, redução de perda de tempo com paradas por acidentes ocupacionais ou outros tipos de acidentes. Temos que começar a entender que a Segurança do Trabalho não é algo separado do todo. Temos uma gestão empresarial e a visão da Segurança e da Saúde têm que estar integrada ao processo”, destacou Almeida.

Saúde e Segurança do Trabalho devem estar integradas ao negócio – Crédito: Shutterstock

Outro ponto, no olhar do especialista, é que quando se consegue integrar essa visão, às vezes, controles que a empresa faria separado para as áreas do Meio Ambiente, Segurança Ocupacional e de Processos, podem ser unificados, ganhando em sinergia em vários aspectos, como na auditoria, fiscalização e manutenção.

Por ter como base um sistema de gestão, o GRO já nasce com um passo à frente, abrindo uma importante janela para a área de SST que, por muitos anos, dentro das organizações, foi vista como uma área regulatória de geração de custos. Quem chama a atenção é o diretor da Milaneli-FAPonline – Software de Governança em SST, Eduardo Milaneli, que acredita que com a implantação do GRO a área de SST passará a figurar nas ações estratégicas das companhias como parte fundamental da sustentabilidade do negócio. “O GRO não tem só a previsibilidade de mudar a forma de enxergar o valor de SST para os negócios, mas também de mudar a postura regulatória dos profissionais de SST. É como se o SESMT estivesse sendo abduzido a sair do operacional, a pensar na governança tática e estratégica de forma contributiva para a exponenciação dos negócios da organização”, exemplifica.

MATURIDADE

Para que a implantação do GRO possa mudar a forma como a SST é praticada dentro das organizações, e para tornar esse momento histórico, a técnica em Segurança do Trabalho, mestre em Gestão Integrada, Saúde do Trabalho e Meio Ambiente e gestora de Engenharia de Segurança do Trabalho da Atento Brasil S/A, Loredana Di Giuseppe, acredita que além de tornar as questões de SST parte integrante da cultura e governança da empresa, é preciso que as organizações se dediquem a democratizar as questões de SST, promovendo uma profunda reflexão sobre o que a empresa de fato precisa em relação à SST, identificando o seu atual nível de maturidade, quais recursos serão investidos para que ele seja elevado e aonde se quer chegar.

“O nível de maturidade pode ser medido não só pelo que se cumpre em relação aos requisitos legais em SST, mas pela forma como eles são cumpridos. Perguntas poderosas que podem colaborar com esse diagnóstico: Eu controlo os riscos ou os controles? As medidas de controle dos riscos são facilmente reconhecidas pelos trabalhadores durante suas funções?”, sugere. Promover essa análise preliminar, na visão de Loredana, além de solidificar os conceitos, será um importante farol de como o GRO/PGR poderá contribuir para um novo olhar sobre como a SST é praticada dentro das empresas. “Os benefícios podem ser muitos! Desde um potencial de visão dos riscos e suas interseccionalidades de uma forma integrada, abrangente, completa e não superficial, até a inclusão e engajamento de outros atores na prevenção de riscos, transformando o cuidado sobre as questões de SST na organização uma pauta coletiva, agregadora de valores para o negócio e significativa para a sociedade”, afirmou.

O que o GRO não é!

1 – Não é uma novidade

Está sendo proposto um modelo de gestão de risco muito conhecido. Todos os conceitos da NR 1 são advindos da ISO 31000. É o mesmo modelo de gestão, o que muda é o foco. Na NR 1 estamos falando de risco ocupacional.

2 – Não é um documento

É muito mais que um documento. É um modelo de atuação. É uma forma de gerir. Não é ter um PGR na gaveta que vai resolver o problema. Tem que haver um processo de identificação, avaliação, controle e melhoria dos riscos ocupacionais.

3 – Não é um bicho de sete cabeças

Quanto mais complexo for o processo produtivo, quanto mais interação entre os empregados e os equipamentos, quanto mais atividades forem desenvolvidas na empresa, mais robusto precisa ser o processo de identificação de riscos, mas não é um bicho de sete cabeças. O modelo de gestão de riscos que preconiza a NR 1 é simples: identificação, avaliação, controle e melhoria do ambiente de trabalho. É um modelo de gestão baseado em normas que são bastante conhecidas.

4 – Não é modinha

Não pode ser encarado ­dessa forma, como muitos encararam o PPRA. O GRO é uma oportunidade que as empresas e profissionais têm de fazer gestão de segurança, fazer gestão de risco. As empresas que conseguirem levar a sério vão perceber os benefícios que este modelo pode trazer.

5 – Não é processo batelada

O que a NR 1 pede é o contrário. Um processo contínuo, que vai ao longo de muitos anos trabalhar na identificação, avaliação, controle dos riscos e, à medida que vai melhorando e reduzindo, outros podem ser descobertos e incorporados, agregando novas informações. É um processo contínuo, que nunca tem fim e o começo é sempre pela identificação do risco.

6 – Não é para qualquer um executar

O principal responsável pela execução é o dono do negócio. Ele que tem que fazer as coisas acontecerem. Mas ele precisa de alguém muito especial que vai ajudar a fazer isso acontecer, que é o profissional de segurança. Esse profissional necessita ter o conhecimento, a expertise para saber entregar ao dono do risco, do negócio, o melhor programa de gerenciamento do risco ocupacional que ele pode desenvolver.

7 – Não é para prejudicar a empresa

O GRO vem para controlar risco e isso é bom para todo mundo. A conse­quên­cia do risco, que são os acidentes, é prejudicial para todos. O traba­lhador perde, a sociedade perde, a empresa perde. Para um acidente a­contecer, vários incidentes anteriores aconteceram provenientes do mau controle do risco. Se o profissional for eficaz e souber direcionar adequadamente tudo que é importante para a empresa, ela vai ganhar muito e os trabalhadores também.

Fonte: Eduardo Almeida, profissional da área de SST há mais de 30 anos. Mantém o canal no Youtube Dr. Safety e atua como especialista de Segurança de Processos Sênior da Usiminas.

O que esperar dos profissionais

É preciso abandonar a velha forma de fazer SST

Entre os atores que podem atuar para que o gerenciamento de riscos aconteça de verdade, estão os profissionais de Saúde e Segurança do Trabalho, que serão os protagonistas para a mudança da cultura de SST nas empresas. E o GRO chega para instigar uma nova maneira de olhar para a prevenção. Para o auditor fiscal do trabalho, Luiz Carlos Lumbreras, a NR 1 traz um grande desafio e uma oportunidade para os profissionais. “Sem dúvida, eles terão que ampliar os seus conhecimentos de gestão em SST, aprimorar sua capacitação, mas esse desafio também os insere na dinâmica das empresas, pois o gerenciamento de riscos ocupacionais é parte do gerenciamento do negócio. Está mais do que na hora de virarmos a chave, abandonarmos a visão da SST como uma obrigação normativa, documental e alicerçada na vertente dos adicionais, para estar inserida como parte importante do negócio. Entendo que a grande oportunidade é colocar a SST no seu lugar de destaque, integrada ao gerenciamento da organização”, destacou.

Metodologia participativa na identificação de perigos é prática indicada – Crédito: Shutterstock

A mesma opinião é compartilhada pelo especialista Eduardo Almeida, que acredita que os profissionais precisarão estudar, se aprofundar e conhecer bem sobre gerenciamento de riscos para a implantação do GRO. “Comprar um PPRA, transformar ele em GRO e colocar na gaveta não vai resolver o problema. O foco agora é atacar o risco, controlar o risco, e a norma é feliz quando prevê a classificação do risco”, destaca. A implantação do Gerenciamento de Riscos Ocupacionais também exigirá um novo posicionamento dos profissionais, que precisarão se preparar para ter acesso à alta gestão da organização, porque pode ser do profissional de SST a iniciativa para ajudar a empresa a entender onde ela está na governança e para onde ela pode caminhar.

Essa também é a visão do diretor da Milaneli-FAPonline – Software de Governança em SST, Eduardo Milaneli, que acrescenta que a inovação e a inclusão de tecnologias para integrar os sistemas de gestão em Saúde e Segurança do Trabalho devem ser foco da preocupação de toda a empresa. O especialista também reflete sobre a formação da cultura de SST nas empresas, que só vai se transformar em valor quando a alta administração dos negócios entender que SST é um valor. “O que pauta a cultura é o somatório de pequenos fatos implementados na fala e na atitude de toda uma organização, começando pelo presidente, diretores, gerentes e gestores. O GRO pode contribuir na mudança da cultura se a alta administração dos negócios enxergar o valor que este modelo trará para a organização”, comentou.

COLABORADORES

Loredana: aprofundar saberes – Crédito: Arquivo pessoal

Para a técnica de Segurança do Trabalho, mestre em Gestão Integrada, Saúde do Trabalho e Meio Ambiente e gestora de Engenharia de Segurança do Trabalho da Atento Brasil S/A, Loredana Di Giuseppe, que atua na área de segurança no dia a dia de uma empresa, a implantação do GRO traz uma grande oportunidade de vencer algumas barreiras dentro das organizações. Ela compartilha que a metodologia participativa de identificação de perigos é uma forma de fazer isso na prática. “O envolvimento de outros atores nas questões de SST aumenta a consciência sobre a importância da prevenção e, consequentemente, dos níveis de maturidade sobre ela”, justifica. De acordo com ela, promover a cultura de prevenção é fazer com que cada colaborador dentro das organizações reconheça a SST como parte integrante das suas atribuições. “E esse saber parte de nós, profissionais técnicos da área. É preciso expor as questões, encorajar a capacitação de pessoas de outras áreas e, sobretudo, deixar que a participação de todos seja efetivamente real”, chama a atenção.

Para tornar isso tudo possível, Loredana reflete que é importante pensar se somente a formação técnica é suficiente para que os profissionais do SESMT gerenciem os riscos de forma efetiva nas organizações onde estão inseridos. Com a proposta amplificada do GRO/PGR, a especialista diz que será necessário um aprofundamento de alguns saberes, como Higiene Ocupacional, Ergonomia, Análise de Incidentes, Saúde Ocupacional e Prevenção e Combate a Emergências. “Existem inúmeras instituições formais de educação que oferecem cursos sobre esses temas em formatos livres e/ou pós-graduação. Há também as instituições já conhecidas da área como ABHO, Abergo e Fundacentro, que realizam cursos de capacitação e atualização. Os sindicatos de classe também atuam nesse sentido e podem ser importantes fontes de conhecimento”, elenca.

No campo da autoeducação, ainda é possível, segundo Loredana, encontrar muitos materiais sobre todos esses temas na internet. Com a pandemia, muitas instituições passaram a promover lives e webinars, que ficam gravadas e podem ser utilizadas como fonte de atualização. Há também canais especiais no Youtube e Instagram, com profissionais da área que discutem e aprofundam temas relacionados à SST, além da literatura (livros e revistas técnicas). “Outro caminho para grandes organizações nas quais o SESMT é composto por outros profissionais (fisioterapeutas, educadores físicos, psicólogos, ergonomistas, bombeiros civis, dentre outros), além dos determinados pela lei, pode ser o envolvimento e a participação de todos eles na construção do GRO/PGR. Aprender entre colegas também pode ser uma forma bastante interessante de se manter atualizado”, sugere.

CONTRAPONTO

Sobral: lento e gradativo – Crédito: Erlison Lima

Mesmo diante dessas possibilidades, alguns especialistas não acreditam em uma mudança imediata de cultura a partir do GRO. O engenheiro de Segurança do Trabalho, Mário Sobral Júnior, diz que o PGR é uma ferramenta para consolidar os perigos das empresas e priorizar os mais críticos e que as informações legais, que são a maior parte dos dados para a elaboração do programa, já eram obrigatórias antes da nova NR 1. “Por que acreditamos que empresas que não possuíam as documentações obrigatórias de normas como NR 10, NR 12, NR 33, NR 35 e muitas outras, simplesmente, em um passe de mágica, irão considerar a importância desta documentação e seguirão as obrigações legais?”, questiona.

Ele diz que no caso do GRO, que são as diretrizes para o sistema de gestão, também não consegue visualizar a mudança, exceto para as empresas que já têm a SST como um valor e agora terão ferramentas para melhorar a sua atuação. “Para que uma real e esperada mudança ocorra, será necessário que os profissionais do SESMT trabalhem de forma integrada e que utilizem argumentos técnicos, legais e principalmente financeiros, como por exemplo, diminuição de processos judiciais, de multas, economia no FAP, menor probabilidade de ações regressivas do INSS, dentre outros fatores, para convencer a alta direção. Dessa forma, podemos iniciar um processo lento e gradativo de mudança cultural”, opina.

Autoeducação ganhou impulso na pandemia – Crédito: Arquivo/Keith Ribeiro

Para o engenheiro de Segurança do Trabalho e diretor da Laboral – Saúde e Segurança do Trabalho, Jorge Chahoud, o cenário é bastante desconfortável para alguns profissionais que se acostumaram a preencher planilhas de maneira inconsistente, sem base técnica nos levantamentos, insistindo em documentos absolutamente cartoriais. “Esta realidade infelizmente está presente. Profissionais de Saúde e Segurança do Trabalho devem revisitar conceitos técnicos, fazer uma autoanálise sobre sua realidade e suas limitações. O que quero dizer é que o aperfeiçoamento deve ser constante”, completou, lembrando que a NR 1 não é uma norma técnica e, portanto, determina o que deve ser feito, mas não apresenta o “como fazer”.

Da teoria à prática

Identificação e gerenciamento dos riscos são os pilares do PGR

Além de ser necessário que os profissionais de SST e os demais envolvidos com a área de saúde e segurança entendam a nova proposta trazida pela NR 1, é preciso que esteja muito claro o que precisa ser feito para identificar e gerenciar os riscos ocupacionais. A gestão efetiva, a partir desse modelo, exigirá que as ações e atualizações sejam contínuas. “Ou seja, precisaremos de um procedimento efetivo de gestão de mudanças. Por exemplo, na possibilidade futura da entrada de uma nova máquina no processo ou um novo produto químico, o profissional de SST precisará ser informado de imediato para identificar os perigos e avaliar os riscos relacionados”, exemplificou Sobral Júnior.

Esse dinamismo exigido pelo PGR e GRO são vistos como desafiadores, mas também com impacto direto na monetização das ações de Saúde e Segurança do Trabalho dentro das organizações, como destaca Loredana. Conforme a especialista, uma das tendências atuais de mercado é a ESG (Environmental, Social and Governance), que se refere a práticas empresariais e de investimento que se preocupam com critérios de sustentabilidade.

“Cuidar da segurança e saúde dos funcionários aparece no pilar das questões sociais como uma importante e necessária resposta das empresas frente aos desafios da sociedade contemporânea. Isso significa que apostar na prevenção de riscos ocupacionais é hoje uma prática reconhecida como financeiramente atrativa aos olhos dos investidores e acionistas, e o GRO/PGR pode ser esse caminho da ampliação do espectro da área de SST para o futuro das empresas brasileiras. Temos uma oportunidade ímpar de tornar os princípios da área em princípios do negócio, tornando o trabalho uma prática mais segura, digna e edificadora, além de rentável”, defende ela.

NOTA TÉCNICA

Para demonstrar como essas mudanças ocorrerão na prática, no início de dezembro o Ministério do Trabalho e Previdência publicou a Nota Técnica SEI nº 51363/2021/ME (https://bit.ly/3GG5WqG) que esclarece acerca da transição entre o PPRA da NR 9 e o PGR (Programa de Gerenciamento de Riscos) da NR 1. Entre as diferenças, figura que os processos obrigatórios do GRO são materializados no documento denominado PGR, composto pelo Inventário de Riscos Ocupacionais, caracterizado pela descrição detalhada de todos os riscos presentes nas atividades e/ou ambientes de trabalho, e pelo Plano de Ação.

RELATÓRIO

Além desses documentos, outras informações são necessárias para o atendimento à norma, como o relatório de análise de acidentes e doenças do trabalho. “Propõe-se fazê-lo em formato de planilha, para que seja visualmente possível verificar como cada risco será identificado, avaliado e controlado. Essas três etapas são os fundamentos do inventário e funcionam de forma encadeada e processual e culminam no Plano de Ação, onde o PGR ganha vida”, indica Loredana (veja mais no box Etapas para Inventário e Plano de Ação).

O auditor fiscal do trabalho, Luiz Carlos Lumbreras explica que com o inventário de riscos e o plano de ação, os diversos riscos da empresa passam a ser gerenciados, não de maneira segmentada, mas considerando todas as situações presentes na empresa. Assim, após aplicadas as ferramentas de avaliação de riscos, é possível estabelecer um nível de risco para cada situação identificada, possibilitando priorizar as ações e estabelecer um planejamento para sua implementação. Para o auditor fiscal, essa sistemática, não só impacta nas ações de controle, mas também nas de acompanhamento. “Afinal, para que serve uma medição de um agente, muito bem documentada, feita todos os anos, que caracteriza uma exposição considerada inaceitável, se nada for feito? Por outro lado, qual o sentido de se adotar a mesma metodologia para outro agente que tem sua exposição controlada num valor aceitável, bem inferior a todos os limites estabelecidos por norma ou pela empresa, e repetir, com a mesma periodicidade, as mesmas medições anualmente? Não seria mais interessante priorizar os esforços na primeira situação, investindo o que se gastaria nos repetidos laudos e medições do segundo agente para melhorar o ambiente de trabalho e reduzir a exposição no primeiro caso?”, reflete Lumbreras.

RESPONSABILIDADES

Entendendo a participação dos trabalhadores como fundamental na construção do inventário de riscos e no plano de ação, Loredana lembra que são eles que conhecem profundamente as atividades que executam e o ambiente de trabalho em que estão inseridos. “O saber tácito dos trabalhadores vem do conhecimento e da experiência pessoal e, muitas vezes, consideram procedimentos e regras informais, que podem ser o pulo do gato nas questões de SST”, justifica.
Ao conhecer e avaliar bem os riscos, com a colaboração de todos os empregados, Eduardo Almeida acredita que as empresas possam executar um bom plano de ação.

“Sabendo quais riscos que preciso atacar, reduzir, vou ter um bom plano de ação. Por isso, o profissional de segurança precisa conhecer um bom método de identificação dos perigos, saber identificar e medir a eficácia dos controles que estão sendo aplicados naquele risco para saber se o risco residual é aceitável ou não, e, por último, saber buscar soluções. Outro ponto importante para o plano de ação ser eficaz é que, após ser implantada a medida de controle, é preciso reavaliar aquele risco, verificando se foi possível atingir a redução de risco que se desejava. Esse conhecimento é do profissional de segurança. Não temos como nos omitir deste trabalho”, completa.

Etapas para Inventário e Plano de Ação

A NR 1 prevê que para compor o PGR são exigidos dois documentos base: o Inventário de Riscos e o Plano de Ação.

O Inventário de Riscos deve contemplar, no mínimo, as seguintes informações:

  • Caracterização dos processos e ambientes de trabalho;
  • Caracterização das atividades;
  • Descrição de perigos e de possíveis lesões ou agravos à saúde dos trabalhadores com a identificação das fontes ou circunstâncias; descrição de riscos gerados pelos perigos, com a indicação dos grupos de trabalhadores sujeitos a esses riscos; e descrição de medidas de prevenção implementadas;
  • Dados da análise preliminar ou do monitoramento das exposições a agentes físicos, químicos e biológicos e os resultados da avaliação de ergonomia nos termos da NR 17;
  • Avaliação dos riscos incluindo a sua classificação para elaboração do plano de ação;
  • Critérios adotados para avaliação dos riscos e tomada de decisão.
  • O Plano de Ação deve indicar as medidas de prevenção a serem introduzidas, aprimoradas ou mantidas, seguindo as seguintes orientações:
  • Definir cronograma, formas de acompanhamento e aferição de resultados;
  • Registrar a implementação das medidas de prevenção e respectivos ajustes;
  • Acompanhar de forma planejada o desempenho das medidas de prevenção e contemplar: a verificação da execução das ações planejadas, as inspeções dos locais e equipamentos de trabalho e o monitoramento das condições ambientais e exposições a agentes nocivos, quando aplicáveis.
  • Corrigir as medidas de prevenção quando os dados obtidos no acompanhamento indicarem ineficácia em seu desempenho

Fonte: NR 1/GRO

Como ficam as consultorias?

Terceirizadas devem mudar sistemática a partir da implantação do GRO

Chahoud: qualificação necessária – Crédito: Arquivo

Além do SESMT, as consultorias de Saúde e Segurança do Trabalho também estão muito presentes na realidade das empresas quando o assunto é prevenção. Sem generalizar, o engenheiro de Segurança do Trabalho e diretor da Laboral – Saúde e Segurança do Trabalho, Jorge Chahoud, afirma que o termo consultoria de SST sofreu um desgaste muito grande durante todos estes anos, tendo suas atividades vinculadas à elaboração de laudos e programas cartoriais e à realização de exames médicos pontuais. “Com relação às responsabilidades pelos serviços prestados, já presenciamos assessorias sendo questionadas ou até mesmo processadas pelos seus contratantes por laudos em dissonância com a legislação, levando a conclusões equivocadas e gerando passivos, e inconsistências no levantamento de riscos”, exemplificou.

Diante deste contexto, como fica a atuação das assessorias e consultorias em SST com a implantação do GRO nas empresas? Em primeiro lugar, com as mudanças propostas a partir da nova NR 1, não há mais espaço para a venda de projetos, documentos e consultorias pontuais. O engenheiro de Segurança do Trabalho, Mário Sobral Júnior, defende que o principal, neste momento, é entender que contratar uma empresa terceirizada não significa repassar as responsabilidades e simplesmente aguardar a entrega do serviço. “Por mais experientes que sejam os profissionais externos, eles não terão como conhecer os detalhes do processo e só com a participação próxima do SESMT, demais gestores e trabalhadores será possível o sistema rodar com um mínimo de qualidade”, refletiu.

Milaneli: tecnologia é fundamental – Crédito: Divulgação

Opinião semelhante é compartilhada pelo diretor da Milaneli-FAPonline – Software de Governança em SST, Eduardo Milaneli, que acredita que as consultorias devem trabalhar ainda mais alinhadas com o propósito das organizações. “Não existe uma fórmula pronta e, como acaba a era do técnico NR, é preciso se reinventar e se posicionar frente a este novo cenário que se desenha. Porém, um ponto elas precisam enxergar, a estratégia necessariamente precisa olhar para os negócios, senão o insucesso será inevitável”, acrescenta. Para o gestor, o que se espera das consultorias neste momento é uma forma de medir e controlar sinistros, ocorrências, desvios e, ao mesmo tempo, equilibrar o monitoramento da cultura e sustentabilidade dos processos.

A mudança na dinâmica do trabalho das consultorias, na visão de Milaneli, pode ser suavizada através de soluções tecnológicas. “O fato de o GRO ser construído por consultorias não traz nenhum comprometimento quanto ao resultado do projeto, porém, quem vai gerir o GRO necessariamente precisa se envolver no processo, até porque a construção precisa ser de boa qualidade. Porém, a definição de responsabilidade, a construção dos critérios de identificação, avaliação, análise, classificação e execução também. Como os processos nas organizações são bastante dinâmicos, a escolha da tecnologia para gestão do processo é fundamental”, elenca.

Chahoud também indica que antes de fechar contrato com uma consultoria é recomendado sempre verificar in loco a estrutura da assessoria, a qualificação dos diretores responsáveis e verificar a capacidade técnica dos profissionais que fazem parte do quadro técnico. “Também é importante ficar atento aos equipamentos utilizados para as avaliações, aos softwares utilizados, rol de clientes atendidos, anos de atuação e licenças”, sinalizou.

NOVO TEMPO

Outro aspecto que deve mudar a partir da implantação do GRO nas empresas é o tempo de dedicação de uma consultoria de SST para as empresas contratantes, como chama a atenção Sobral Júnior. “Caso a empresa contratante queira trabalhar com um verdadeiro sistema de gestão, não poderá mais fazer a contratação de uma empresa terceirizada de forma pontual e anual, ou seja, precisará assinar um contrato de longo prazo para que a terceirizada possa identificar os perigos e avaliar os riscos e fazer a manutenção do sistema”, justificou. Uma forma alternativa, na visão do especialista, será solicitar o levantamento pontual para que a partir dessa avaliação, com profissionais internos, o sistema de gestão siga rodando, o famoso PDCA (Planejar, Fazer, Checar e Agir).

Por conta da necessidade de mais investimento, o engenheiro acredita que não será priorizado pelas empresas contratos de longo prazo com os prestadores de serviços e, por isso, alerta que os terceirizados devem tomar cuidados com as informações passadas para o cliente, já que o levantamento dos perigos e a avaliação dos riscos será de uma realidade transitória. Sobral Júnior, inclusive, indica que as consultorias sinalizem no orçamento o seguinte alerta: “Os dados levantados foram realizados por amostragem e não evidenciam a totalidade dos perigos relacionados a cada posto de trabalho. Além disso, são válidos apenas para o período do reconhecimento, sendo necessária por parte da empresa uma contínua análise dos perigos para garantir a manutenção do PGR, segundo estabelecido na NR 1”.

Contratadas devem tomar cuidados com informações prestadas aos clientes – Crédito: Divulgação/Ambientec

Com o aumento da demanda nos serviços prestados pelas consultorias, o valor do contrato das terceirizadas com os contratantes, de acordo com o engenheiro de Segurança do Trabalho, pode ter duas possibilidades. Na situação de um levantamento pontual, com a indicação do prazo necessário para a atividade e os recursos para a realização dos levantamentos do perigo e para as contratações a longo prazo, mas, neste caso, Sobral Júnior afirma que a principal dificuldade será estabelecer um valor para a manutenção do programa. “Pois com o passar dos meses teremos períodos de grandes mudanças e outros com alterações mínimas”, justifica.

Como os serviços de consultoria devem passar a ser cobrados com este novo formato é uma resposta ainda marcada por dúvidas para Milaneli, que acredita que as empresas, impulsionadas pela mudança regulatória e obrigatoriedades tecnológicas através do eSocial, mudaram ou mudarão sua relação com os atuais fornecedores. “Um ponto de atenção às consultorias é que os valores não mais estão na esfera ‘R$’. As decisões de investimentos pelas companhias, agora, estão sendo avaliadas em relação a quanto de valor as consultorias trarão para o negócio”, afirma.

A implantação do PGR e GRO exigirá que profissionais, empresas e consultorias estejam muito alinhados e revejam rotineiramente suas práticas preventivas. O processo será muito mais dinâmico e transparente, fazendo com que todas as atividades da empresa relacionadas à SST sejam validadas e, suas práticas, revisadas. Um ponto sensível, pois será necessário começar a construir um caminho diferente do que vinha sendo trilhado há décadas, mas toda a mudança começa com reflexões e quebra de paradigmas. Que estejamos preparados!

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