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quinta-feira, 07 de julho de 2022

REPORTAGEM ESPECIAL | Ergonomia: Muito além da postura – Ed. 362

Por Marla Cardoso/Jornalista da Revista Proteção

NR 17 entrou em vigor em janeiro alinhada com a nova NR 1 e integrada à gestão de SST, mas segue sendo um desafio para as empresas

Quando a NR 17 nasceu, em 1978, apresentava referências normativas para apenas uma situação de trabalho: o levantamento, transporte e descarga de materiais; e fazia dois apontamentos referentes a mobiliários e cadeiras, com os itens “Bancadas, mesas, escrivaninhas e painéis” e “Assentos ajustáveis”. Com pouco mais de cem linhas e sem detalhamentos, o documento estava alinhado com a realidade laboral da época, mas distante de reunir tudo o que a ergonomia prevê. Ao longo da sua história, a NR 17 ainda ganhou anexos, contemplando atividades como dos operadores de checkout e o trabalho em telemarketing e, desde janeiro deste ano, uma nova redação.

Agora, o documento está integrado ao PGR (Programa de Gerenciamento de Riscos) da NR 1 e traz diferenças explícitas entre a AEP (Avaliação Ergonômica Preliminar) e a AET (Análise Ergonômica do Trabalho), integrando, em um único programa, o inventário de riscos e plano de ação junto com os riscos de acidentes e monitoramentos da Higiene Ocupacional, muitas vezes realizados de forma distante e desvinculada. Com a nova NR 17, o tema deve ganhar um estudo aprofundado voltado às singularidades da situação de trabalho. A grande questão será contar com profissionais capacitados e experientes em número suficiente para atender o universo do trabalho nessa área.

Uma pesquisa preliminar da Abergo (Associação Brasileira de Ergonomia) em instituições que ofertam pós-graduação Lato Sensu ou Stricto Sensu no Brasil estima 8 mil profissionais capacitados minimamente com especialização na área até o ano passado. Mesmo que esses números sejam maiores, ainda estão aquém das necessidades para que a ergonomia seja atendida com qualidade nas empresas.

Experimente fazer uma busca rápida sobre ergonomia nas imagens do Google. O que você verá são referências a mobiliário e trabalho no computador. Por muito tempo, e ainda hoje, na visão de leigos, a área é mais associada a problemas posturais. Há um motivo. De acordo com a mestre em Engenharia de Produção pela UFSCAR, especialista em Ergonomia de Sistemas de Produção pela USP, consultora e docente em Ergonomia em instituições como Universidade Proteção, Descomplica, IEDUV e Senac SP, Fabiana Raulino da Silva, isso se deve à demanda inicial que trouxe a ergonomia para o Brasil no início da década de 1980. Na época ocorreram diversos casos de tenossinovite (tipo de inflamação que causa dor em mãos, pés, tornozelos e punhos afetando os tendões) relacionada ao trabalho de digitadores e que motivou a elaboração da NR 17.

O trabalho de digitadores e depois no telemarketing impulsionou a elaboração da NR 17 – Crédito: Arquivo ABT

“A ergonomia, na verdade, é a ciência que visa compreender as diferenças entre o trabalho prescrito e o trabalho real para propor transformações para trazer mais saúde, segurança, conforto e desempenho eficiente. Ela lança um olhar não apenas para aspectos físicos como mobiliário, postura e levantamento e transporte de cargas, mas também sobre aspectos cognitivos (como memória, uso de sistemas informatizados, desenvolvimento de competências, raciocínio), organizacionais (onde o termo “organização” se refere aos tempos e métodos da empresa, sua forma de organizar as tarefas, papéis, indicadores e resultados), psicossociais (aspectos emocionais como a depressão, estresse, trabalho invisível e esgotamento ou burnout) e até mesmo aspectos ambientais, como iluminamento inadequado, ruído e temperaturas desconfortáveis”, detalha Fabiana.

Lucy Mara: integração – Crédito: Arquivo pessoal

Compreender que o conceito de ergonomia vai muito além de questões posturais e de mobiliário é o primeiro passo para que efetivamente a área seja praticada com êxito nas empresas. Embora a revisão da norma, conforme ergonomistas, ainda não contemple todos os aspectos necessários, os especialistas consideram que a nova NR 17 traz evoluções. “Foram 77 itens novos, 18 excluídos e um migrado para a NR 7/PCMSO. As melhorias passam por maiores detalhamentos, com redução de sua subjetividade que dificultava a interpretação, principalmente nas fiscalizações e judicialização. A inclusão dos riscos ergonômicos na NR 1 também favorece muito a gestão em SST para as empresas, proporcionando maior e melhor integração entre a Segurança do Trabalho, a Saúde Ocupacional e a ergonomia, evitando que cada setor trabalhe separadamente, muitas vezes, em projetos similares, porém sem integração, a exemplo de como é realizado até agora”, opinou a presidente da Abergo, Lucy Mara Baú, ergonomista sênior, coordenadora do Departamento de Ergonomia da Faculdade Inspirar e diretora da empresa Ocupamed/Fisiotrab.

PRINCIPAL ALTERAÇÃO

A integração da NR 17 ao GRO (Gerenciamento de Riscos Ocupacionais) da NR 1 aparece, na visão do auditor fiscal do trabalho e coordenador do GTT (Grupo de Trabalho Tripartite) da NR 17, Mauro Marques Müller, como a principal mudança da revisão, resultando na inclusão de um novo capítulo chamado Avaliação das situações de trabalho. Conforme Müller, esse capítulo é fundamental para realizar a integração e a gestão dos riscos relacionados aos fatores ergonômicos pelas organizações.

“As principais mudanças decorrentes dessa integração passam pela inclusão da AEP (Avaliação Ergonômica Preliminar) como instrumento básico de avaliação dos riscos relacionados aos fatores ergonômicos de todas as atividades de trabalho da organização. A AET (Análise Ergonômica do Trabalho) foi mantida como instrumento de avaliação aprofundada em algumas hipóteses. Os resultados da AEP devem ser integrados ao inventário de riscos da organização, bem como devem ser previstos planos de ação, tanto para as medidas de prevenção e adequações decorrentes da AEP, quanto para as recomendações da AET”, detalhou.

Müller: inclusão da AEP – Crédito: Arquivo pessoal

A segunda mudança aponta para a impossibilidade de implementar apenas a NR 17, já que é preciso executar conjuntamente a NR 1 (GRO/PGR) e os requisitos da NR 17. “Isso passa pela necessária leitura conjunta das principais normas de SST, especialmente NR 1, NR 7 e NR 17. Aqui encontramos o grande desafio para as organizações. A NR 1 e a NR 17 não estabelecem uma única forma de realizar a gestão dos riscos relacionados a fatores ergonômicos e sua integração com o GRO/PGR. A organização deve, de acordo com sua realidade, definir qual a melhor maneira de fazer essa gestão”, destaca Müller.

Essa novidade na norma, na visão dos ergonomistas, indica para uma verbalização mais clara de que direção é preciso tomar ao falar de perigos e riscos na ergonomia. Fabiana Raulino explica que como a redação da NR 17 teve como base estudos da Ergonomia da Atividade (pela abordagem francofônica), as pessoas ainda sentem falta de parâmetros, números e padrões. “A NR 17 indica apenas alguns caminhos que precisam ser alcançados tecnicamente por outras vias. Para se realizar uma análise em ergonomia é preciso saber que existem metodologias e elas não estão escritas na NR, porque lá não é o lugar desse contexto técnico. Acho que evoluímos muito na nova redação por ampliar o olhar para as diferenças entre as organizações, tratar a indústria e o setor de serviços em suas diferenças e, especialmente, por estabelecer a diferença entre a AEP e a AET”, contextualizou.

ASPECTO NOVO

Jacinta: olhar para a organização – Crédito: Arquivo pessoal

Outra grande evolução na norma chama a atenção para a organização do trabalho, que faz referência expressa para avaliar os aspectos cognitivos que possam comprometer a segurança e a saúde do trabalhador, destacando também as normas de produção, o modo operatório, a exigência de tempo, o ritmo de trabalho, o conteúdo das tarefas e os instrumentos e meios técnicos disponíveis.

Essa inclusão, na visão da ergonomista sênior, pesquisadora certificada pela Abergo, diretora da Qualivida – Consultoria em Saúde, professora pesquisadora da Universidade Feeva­le e integrante do Grupo de Estudos do Trabalho da FIERGS (Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul), Jacinta Sidegum Renner, deveria ser considerada o primeiro item e o mais importante do texto, porque, na sua visão, a partir da organização do trabalho os demais itens também vão ao encontro da ergonomia.

“Eu e minha equipe de trabalho já aplicamos a nova NR 17 com essa perspectiva diferenciada em três grandes corporações e deu certo. Começamos sempre com a organização do trabalho e vamos esmiuçando até chegar no posto de trabalho, nas questões mais físicas e de equipamentos, materiais, espaço físico e ambiente”, sugere.

Esse item, conforme Jacinta, faz uma importante referência, por exemplo, em relação às pausas, que devem ser usufruídas fora do posto de trabalho e não podem ser acompanhadas por aumento de cadência individual. “Não era raro que, principalmente em linhas de produção, se aumentasse a velocidade da esteira após a pausa. Agora isso vai ser monitorado de perto”, alerta.

MENOS ESFORÇO

Um ponto de muita discussão na ergonomia, mesmo com a criação da equação NIOSH e das normas técnicas da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas) para estipular alguns parâmetros nessa direção, diz respeito ao levantamento, transporte e descarga individual de cargas que, na nova versão do documento, sofreu uma reformulação, mas manteve a maior parte dos seus requisitos. Agora, a nova redação traz itens (17.5.2 e 17.5.4) que mostram algumas das variáveis a serem consideradas na avaliação destas situações de trabalho e não apenas o peso em si como fator isolado.

De acordo com Fabiana Raulino, um dos pontos incluídos foi o item (17.5.2.1) que estabelece que é vedado o levantamento não eventual de cargas que possa comprometer a segurança e a saúde do trabalhador quando a distância de alcance horizontal da pega for superior a 60 cm em relação ao corpo. Em relação à norma anterior, esses três itens ainda sofreram alterações que indicam que as empresas devem organizar os locais para pega e depósito das cargas, não obrigando o trabalhador a fazer movimentações forçadas, e posicionar cargas e equipamentos o mais próximo possível do trabalhador, de maneira a facilitar o alcance.

Acelerar a esteira após as pausas era prática indevida comum em algumas organizações – Crédito: Flávio Wornicov Portela/MPT-RS

Mais um item, ainda, traz as medidas de prevenção que devem ser adotadas, desde a implantação de meios técnicos facilitadores, como a utilização de equipamentos, até a redução do peso e do tamanho das cargas, a limitação da duração da atividade ou da frequência (número de vezes que se movimenta a carga num determinado período de tempo), a redução da distância percorrida, no caso de transporte e alternância com outras atividades ou pausas suficientes a cada período de duas horas nesse tipo de atividade.

E “como as empresas irão atender esses novos itens?”, instiga o auditor fiscal, Mauro Müller: “A partir da Avaliação Ergonômica Preliminar. A organização deve realizar a AEP. Se for identificada alguma atividade de trabalho que inclua a movimentação manual de cargas, por meio da própria AEP deve ser realizada a avaliação dos riscos existentes e a implementação das medidas de prevenção adequadas, atendendo aos requisitos previstos nos itens deste capítulo da NR 17”, responde.

Com todos esses avanços e mesmo depois de discussões intensas, alguns pontos acabaram não sendo contemplados na norma. Entre eles, as questões psicossociais, que foram descritas apenas no Anexo I da NR 17, ficando para serem debatidas posteriormente por falta de consenso. Outro ponto pendente, na visão da presidente da Abergo, Lucy Mara, foi o trabalho remoto, presente em menor proporção antes da pandemia, mas já existente.

“Teremos muitos conflitos nestas investigações de riscos em vários aspectos: físico (mobiliário e ambiental), de organização do trabalho (regras de convívio trabalho/família e metas), cognitivo e psicossocial (em casa o trabalho é mais intenso e o fato de não separarmos trabalho/família/casa, leva à sobrecarga mental e conflitos psicossociais, que comprometem cada vez mais os trabalhadores). Estas regras ainda terão que ser mais bem definidas”, chama a atenção.

Entendendo a Ergonomia

Conforme o professor de Fisiologia e coordenador da Pós-graduação em Medicina do Trabalho da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais, consultor de Ergonomia, Segurança e Medicina do Trabalho e autor de 19 livros, Hudson de Araújo Couto, há pelo menos cinco áreas muito importantes da ergonomia, além de ajustes nos postos de trabalho. Mas nem todas elas estão contempladas na nova NR 17.

Hudson: especialista destaca áreas da ergonomia – Crédito: Arquivo pessoal
  • Na organização do trabalho – parte do princípio de que, se o trabalho estiver bem organizado, há pouca chance de adoecimento. Essa área é um bom desafio para o profissional de ergonomia, pois ele terá que entender o impacto de oito fatores na origem de adoecimentos: tecnologia, maquinário, manutenção, matéria-prima, material, método, mão de obra e recursos financeiros. Quando uma questão de adoecimento humano for relacionada a um ou mais dos fatores da organização do trabalho, a solução não é a melhoria do posto de trabalho, mas sim a melhoria do processo de gerenciamento. Essa área está contemplada parcialmente na nova NR 17, mas de forma correta.
  • Na confiabilidade humana – trata de algo muito sutil: o ser humano acerta mais se as condições de ergonomia para o acerto estiverem adequadas. A construção de seres humanos que acertam depende de boas condições de ergonomia, mas também da existência de bons sistemas de gestão da qualidade, entre elas: a boa percepção visual, a manutenção de estado de alerta, a carga mental no nível adequado, aplicativos intuitivos, boa interface, bons acessórios para a memória humana, alertas adequados, prevenção do deslize e outras formas involuntárias de erro e auxílio por sistemas de inteligência artificial. Nada disso é tratado na nova NR 17.
  • Na prevenção de acidentes de trabalho – trata, de forma incisiva, de uma realidade incontestável: cerca de 40% dos acidentes típicos têm, na sua origem, uma má condição de ergonomia. Isso equivale a dizer que o trabalhador que se acidentou ou que causou um acidente não tinha outra condição de realizar o trabalho que não aquela. Isso equivale a dizer que os programas de prevenção de acidentes precisam se modernizar e passar a tratar da condição de ergonomia para a execução das tarefas. Esse aspecto da ergonomia é tratado de forma superficial na nova NR 17, quando se pede essa abordagem na avaliação da organização do trabalho.
  • Fatores psicossociais – trata, especialmente, da carga mental e de seus desacertos: sobrecarga ou subcarga mental. No nível correto de carga mental o ser humano tem alto desempenho. Mas se essa carga for excessiva, além da possibilidade de erros, o indivíduo tem sofrimento mental com aquela realidade. No processo de discussão tripartite houve tentativas de incluir itens relacionados a essa área, mas não houve acordo. Portanto, não é tratado na nova NR 17.
  • Macroergonomia – aborda algumas formas de conforto ou sobrecarga causadas por falta de padronização internacional de normas ou por contratos comerciais. São bem conhecidas as situações de postos de trabalho ergonomicamente ruins devidos a padrões nacionais ou internacionais pobres em ergonomia, quando uma máquina já chega com problemas ergonômicos importantes. Mais sutis, mas igualmente muito impactantes, são as questões dos contratos comerciais entre as empresas que “esticam a corda” do fator custo sem considerar o impacto sobre os trabalhadores. Essa área da ergonomia também não é tratada na NR 17.

Ergonomia na prática

AEP e AET nortearão ergonomistas na identificação dos riscos e soluções

A inclusão da AEP (Avaliação Ergonômica Preliminar) como instrumento básico de avaliação dos riscos relacionados aos fatores ergonômicos de todas as atividades de trabalho da organização e a manutenção da AET (Análise Ergonômica do Trabalho) como instrumento de avaliação aprofundada na NR 17 é que devem nortear como os problemas ergonômicos serão identificados e modificados na prática. Lucy Mara Baú, presidente da Abergo, lembra que a AEP não é novidade para os ergonomistas, fazendo parte de sua rotina introdutória da AET. O que muda agora é que todas as empresas, de qualquer porte ou risco, deverão fazer a avaliação.

Fabiana: estudo aprofundado – Crédito: JS Barros

Com a nova versão, de acordo com a mestre em Engenharia de Produção pela UFSCAR, especialista em Ergonomia de Sistemas de Produção pela USP, consultora e docente em Ergonomia, Fabiana Raulino da Silva, além da integração com o PGR, que não ocorria com o PPRA, a AEP surge com o papel de mapeamento inicial, deixando claro que em situações de maior complexidade a AET precisa ser realizada dentro de sua metodologia.

“Na AEP temos uma avaliação mais simplificada que, para integrar o inventário de riscos do PGR, pode ser até uma planilha para facilitar a visualização das informações. Nela, é importante mapear os riscos ergonômicos de ordem física, cognitiva, organizacional, psicossocial e ambiental e deixar claro qual o plano de ação para cada perigo e a graduação desse risco. Graduar o risco é essencial para sabermos por onde começar e como traçar nosso plano de ação”, detalhou.

PASSO A PASSO

Já a AET, segundo a especialista, é um estudo aprofundado que exige um passo a passo que agora está escrito na nova redação da NR 17. Ele começa, conforme Fabiana, pela análise da demanda que motiva esse estudo mais profundo, seguida por uma análise do funcionamento da organização, dos processos, das situações de trabalho e da atividade. Também é necessário fazer descrição e justificativa para definição de métodos, técnicas e ferramentas adequadas para a análise e sua aplicação, não estando adstrita à utilização de métodos, técnicas e ferramentas específicas (onde se identifica as possíveis discrepâncias entre o que é realizado e as condições em que isso acontece). E, por fim, o estabelecimento de diagnóstico, recomendações para as situações de trabalho analisadas e, a restituição dos resultados, validação e revisão das intervenções efetuadas com a participação dos trabalhadores.

Para o professor de Fisiologia e coordenador da Pós-graduação em Medicina do Trabalho da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais e consultor de Ergonomia, Segurança e Medicina do Trabalho, Hudson de Araújo Couto, há lógica nesse encaminhamento. Especialmente porque, com uma AEP bem feita, já se pode encaminhar a solução de uma série de situações, sem necessidade de análise ergonômica, que é mais complexa. “Assim, ficará reservada a AET para um número bem menor de situações, a serem mais bem esclarecidas”, pontua. O docente também esclarece que a AEP não substitui a AET. “Ela visa detectar, de forma rápida, alguns pontos que seriam denominados como itens evidentes de não conformidade nas condições de trabalho e que devem ser corrigidos rapidamente, sem necessidade de análise aprofundada”, explica.

AVAL DO TRABALHADOR

Para contar com uma boa avaliação e análise dos riscos ergonômicos, Mauro Müller, auditor fiscal e coordenador do trabalho de revisão da norma diz que é preciso a firme determinação da organização em fazer a avaliação de ergonomia e implementar as medidas necessárias. Ainda é fundamental a integração dos níveis gerenciais da empresa no processo, pois se os supervisores, gerentes e chefes dos setores não estiverem integrados desde o momento da avaliação até a implementação, podem ocorrer problemas, e o processo de melhoria poderá ficar truncado. Também são aspectos essenciais a atuação de profissionais com conhecimentos de ergonomia, que podem facilitar as avaliações necessárias e a integração com o GRO/PGR, além da constituição de um processo de melhoria contínua na organização em que a ergonomia esteja integrada no processo de gestão de SST.

“Além disso, para realizar uma boa AET é preciso um processo dinâmico de análise, diagnóstico e intervenção para resolver o problema ou demanda. Já para a AEP, a NR 17 não estabeleceu um modelo a ser seguido. Ela pode ser realizada por meio de abordagens qualitativas, semiquantitativas, quantitativas ou combinação dessas, dependendo do risco e dos requisitos legais”, explica Müller. A participação dos trabalhadores durante a etapa de avaliação é apontada por todos os ergonomistas, e também prevista na norma, como essencial para a condução correta da AEP e da AET.

Duque: comitês – Crédito: Arquivo pessoal

“A visão do trabalhador precisa estar presente através da CIPA, validando esses riscos sob a perspectiva das pessoas. Essa exigência não existia na NR anterior e isso é fundamental. Só existe uma boa ergonomia com um olhar do trabalhador integrando essas análises”, pontua a ergonomista sênior, pesquisadora certificada pela Abergo, diretora da Qualivida – Consultoria em Saúde, professora pesquisadora da Universidade Feevale e integrante do Grupo de Estudos do Trabalho da FIERGS, Jacinta Sidegum Renner.

A mesma opinião é compartilhada pelo ergonomista sênior certificado pela Abergo, professor Doutor em Engenharia de Produção e diretor técnico da DCA Ergonomia & Design, Carlos Maurício Duque, que garante que a voz do trabalhador é o grande diagnóstico da ergonomia. “O trabalhador deve escolher o que será feito. Não é o ergonomista e nem a empresa”, ressalta. Com experiência de mais de 40 anos na área, Duque diz que sua metodologia de trabalho inclui a criação de um comitê diretivo, com a alta administração da empresa, e o comitê operacional, integrado pelo operador, o líder e seu supervisor. “O segundo comitê resolve o que precisa ser feito e levamos para os dirigentes avaliarem os custos”, resume.

Desafios à vista

Participação dos trabalhadores ainda deixa a desejar

O envolvimento dos trabalhadores na identificação dos riscos ergonômicos, previsto na NR 17 como uma obrigação no processo de avaliação destes riscos, aparece como um desafio na implementação do novo texto. Com mais de 40 anos de experiência na área, o ergonomista sênior certificado pela Abergo, professor Doutor em Engenharia de Produção e diretor técnico da DCA Ergonomia & Design, Carlos Maurício Duque, diz que não é incomum algumas empresas se incomodarem quando o ergonomista questiona o operador em relação às atividades que desempenha. “Já tivemos dificuldades de entrevistar operadores porque a própria empresa não deixava e, quando deixava, ficava do nosso lado, tirando a liberdade do trabalhador de falar o que ele bem entendesse”, revela.

Coergo da Herval é composto pelas lideranças dos setores – Crédito: Divulgação/Herval

Mas há quem pense diferente. Uma forma de envolver os trabalhadores e gestores da empresa em soluções ergonômicas e multiplicar a cultura de ergonomia dentro da empresa é através da implementação dos Coergos (Comitês de Ergonomia), que podem colaborar nos levantamentos ergonômicos e na resolução dos problemas. Um desses grupos vem desenvolvendo importante trabalho preventivo e multidisciplinar na empresa Herval – Móveis e Colchões, de Dois Irmãos/RS, envolvendo os gestores de todas as áreas da fábrica desde o ano 2000, quando a empresa passou a ter um olhar ainda mais atento para a ergonomia.

O gerente de produção da área de colchões e integrante ativo do comitê, Eli da Silva Matusalem, lembra que a empresa já teve diferentes modelos de Coergo. Atualmente possui um Comitê estratégico para a tomada de decisões composto por lideranças dos setores. “As demandas surgem das análises ergonômicas, que contam com o envolvimento dos trabalhadores, demandas da CIPA, SESMT e PCMSO da empresa”, explica. E foi justamente de uma trabalhadora que surgiu a ideia para a resolução de uma questão que incomodava os operadores. “Precisávamos achar uma metodologia para fazer um processo em uma esteira de produção em que não tivéssemos muita rotatividade dos membros superiores para executar esta função. Em uma determinada reunião com a equipe, passamos a nossa necessidade para todos e uma colega fez um desenho de como poderia dispor as máquinas e também a cadeira para que não precisasse tanto giro dos membros superiores. Apresentamos aos técnicos do equipamento e SESMT e eles fizeram exatamente conforme a ideia da colaboradora. Foi um sucesso”, relembra o gestor.

A Herval conta com uma consultoria semanal de uma empresa que faz a gestão da ergonomia. É ela que orienta para tomada de decisões relacionadas à NR 17, organiza o Coergo, realiza as análises ergonômicas, auxilia nas etapas de implementação, teste e validação. Também capacita líderes e trabalhadores para atuarem de forma mais autônoma em relação à ergonomia. “O SESMT e a ergonomia atuam em conjunto, uma área complementando a outra, desde o planejamento das ações até a execução”, destacou.

MELHORIAS

Na A&S o processo de envase de cartuchos recebeu upgrade ergonômico – Crédito: Cintia Brumatti

Outras empresas também vêm colhendo os frutos por envolver os trabalhadores na identificação dos riscos desta natureza. É o caso da A&S Tech­nologies, de Jaguariúna/SP, que atua para o desenvolvimento e fornecimento de tecnologias de selantes. Paulo César de Souza, técnico em Segurança do Trabalho, conta que a primeira CIPA da A&S foi constituída em 2018 com 90% dos integrantes do setor produtivo.

Já nas primeiras reuniões mensais, ele lembra que a ergonomia foi pauta, com os trabalhadores abordando assuntos que tratavam da importância de uma melhoria ergonômica em seus postos de trabalho. “O envolvimento da CIPA, juntamente com os demais colaboradores, que estavam ativamente executando o trabalho, foi essencial na identificação das melhorias que deveriam ser realizadas. O propósito naquele momento era buscar soluções para melhorar a qualidade de vida, trazendo maior conforto físico aos trabalhadores”, recorda.

Após o levantamento da necessidade de adequação ergonômica, no ano de 2020, Souza lembra que o SESMT realizou a Análise Ergonômica do Trabalho em todos os setores da empresa, com a parceria de uma consultoria que desenvolveu os estudos a partir dos levantamentos dos membros da CIPA, totalizando 32 postos de trabalho. “Sabendo das ações a serem tomadas, criamos um Coergo composto por profissionais de SST, engenharia de processos, colaboradores do setor de formulação, envase, logística, injeção, manutenção, gerentes de produção e RH, que seria responsável pela elaboração e desenvolvimento do projeto de NR 17, que tinha prazo de 12 meses para ser concluído. O time realizou a execução das ações, levando em consideração as principais necessidades apontadas como prioridades pelos colaboradores e CIPA”, cita o técnico.

As principais melhorias implementadas iniciaram com a aquisição de um carrinho rebocador. Com auxílio deste equipamento no setor de formulação, a movimentação dos tachos deixou de ser manual para se tornar um processo automatizado, exigindo pouco esforço físico do trabalhador, comparado ao processo anterior. A A&S ainda implantou uma talha elétrica, sistema de gancho para a realização de paletização de caixas de cartucho no setor de envase.

Paulo César: melhorias implementadas – Crédito: Cintia Brumatti

Antes da melhoria, a atividade era executada por dois colaboradores por conta da carga. Após a implantação do sistema, apenas um colaborador realiza a atividade. Também foram implantados robôs colaborativos. Com a inserção de automatização no setor de sleeve e final de linha, os equipamentos realizam a colocação de bicos nos cartuchos, fechamento das caixas e paletização, contribuindo, assim, na automação das atividades citadas e eliminando movimentos repetitivos.

O técnico reforça que todas as melhorias realizadas durante o projeto contaram com a participação e o envolvimento da equipe. “Por exemplo, na implantação da talha elétrica um projeto terceiro previa o investimento de 90 mil reais. Internamente, com ideias dos colaboradores, desenvolvemos um equipamento com materiais que tínhamos disponíveis, que atendeu as necessidades do setor, com investimento de 6 mil reais. Isso se deu pela participação e envolvimento da equipe, principalmente por aqueles que executam a atividade diariamente”, salienta o técnico de segurança Paulo César.

As melhorias foram reconhecidas além dos muros da empresa. Em 2021, a A&S conquistou a distinção Bronze no Prêmio Proteção Brasil na categoria Ergonomia. “Ganhar um prêmio nessa categoria mostra que um time engajado que acredita em um propósito é vencedor. Quando as pessoas se sentem pertencentes, e acreditam nos valores da empresa, elas sugerem melhorias no processo e são participativas. Equipes multidisciplinares como a CIPA e o SESMT, por exemplo, podem ser esse canal de comunicação em que questões ergonômicas são tratadas de forma menos complexas, com ideias dos próprios colaboradores, e com auxílio da equipe técnica, que executará o trabalho”, completou Souza.

MAIS ESPECIALISTAS

Outra preocupação tem relação com o número de especialistas em ergonomia qualificados para atender a área nas empresas. Para o ergonomista sênior certificado pela Abergo, professor Doutor em Engenharia de Produção e diretor técnico da DCA Ergonomia & Design, Carlos Maurício Duque, se não houver uma efetiva contribuição da educação, da formação dos profissionais e atualização dos ergonomistas mais experientes, será difícil colocar em prática a nova norma. “A formação e a capacitação na área precisam ser reforçadas. A primeira coisa que fazemos quando entramos em uma empresa é capacitar a equipe interna do SESMT em ergonomia, com a participação do trabalhador, que também deve ser capacitado”, destacou. Duque também sinaliza que as empresas precisam selecionar criteriosamente o profissional de ergonomia prestador de serviço. “Não é porque temos uma avaliação ergonômica preliminar, que o profissional deverá ser iniciante”, alerta.

A mesma visão é compartilhada pelo auditor fiscal do trabalho, Mauro Müller, para quem o processo de capacitação em SST deve ser permanente e incluir as questões ergonômicas. “Entendo que as organizações e os profissionais devem buscar essa capacitação em instituições sérias, reconhecidas e com histórico na área. Também sugiro procurar palestras e cursos disponibilizados nos canais da ENIT, da ENAP e da Fundacentro na internet. O Manual da NR 17 será revisado para se adequar à nova realidade e com certeza será um instrumento de auxílio para os profissionais interpretarem e implementarem a nova NR”, destacou.

Embora não exista uma data para disponibilização do Manual, Mauro salientou que é importante aguardar esse momento de entrada em vigor da nova norma, escutar as principais dúvidas e questões que surgirão na implementação, ter um retorno inicial das organizações e dos profissionais, para que isso tudo possa ser tratado no Manual, e o material também seja voltado para a aplicação prática.

Um curso gratuito que o Governo Federal está oferecendo é uma oportunidade de buscar informações sobre a AET. Com o objetivo de explicar para que serve a análise ergonômica do trabalho, a ENAP (Escola Nacional de Administração Pública) está com as inscrições abertas para a atividade online. Conduzido pela Fundacentro, o curso foi desenvolvido com foco na adoção de metodologia que contribua para a prevenção de agravos à saúde e na construção de sistemas seguros com foco na nova NR 17. Com carga horária de 20h, o curso conta com cinco módulos, que abordam temas como noções de ergonomia e AET, aplicações da AET, contribuição da AET para a investigação de acidentes e programas de segurança, e NR 17 e gestão de riscos. Para mais informações e inscrições, acesse www.escolavirtual.gov.br/curso/716.

Colocar em prática a NR 17 integrada à NR 1, com a experiência dos ergonomistas e a vivência da rotina dos trabalhadores, é a grande expectativa em torno do novo documento. Tudo para que a eliminação dos riscos ergonômicos seja trabalhada aliada à gestão de SST e passe a dar à ergonomia a atenção que ela merece dentro das organizações.

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