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quarta-feira, 10 de agosto de 2022

REPORTAGEM ESPECIAL | Calçados de Segurança: Pés protegidos – Ed. 366

Por Marla Cardoso/Jornalista da Revista Proteção

Fabricantes seguem apostando na tecnologia para garantir calçados profissionais cada vez mais seguros

Conforme dados do Anuário Estatístico da Previdência Social de 2020, do total de 445.814 acidentes de trabalho registrados naquele ano, os pés (exceto artelhos) apareceram em segundo lugar entre as partes do corpo com maior incidência de acidentes típicos, com 26.895 registros. Em primeiro lugar, estavam os dedos, com 93.751 ocorrências. Os típicos com artelhos somaram 1.915 acidentes. Os números demonstram o quanto os pés estão expostos a riscos. E essa não foi uma exclusividade de 2020. Em anos anteriores do levantamento, essa região também seguiu entre as três áreas do corpo mais atingidas em registros típicos.

Na rotina de trabalho, o contato destes membros inferiores com agentes mecânicos, umidade, agentes químicos, térmicos, de energia elétrica, cortantes e perfurantes, além da possibilidade do impacto de quedas de objetos, pode ser minimizado com a utilização dos calçados profissionais adequados. Previstos no item G do Anexo I da NR 6 (Equipamento de Proteção Individual), estes EPIs devem passar por um rigoroso processo de fabricação, respeitando normas técnicas que irão garantir que o produto exerça sua função adequadamente.

São essas mesmas normatizações que devem ser seguidas nos ensaios de calçados de segurança realizados pelos laboratórios credenciados pelo Ministério do Trabalho e Previdência para a emissão do CA (Certificado de Aprovação). Além do cumprimento dos requisitos legais, há tempos os fabricantes também entenderam que a tecnologia e o design poderiam ser importantes aliados na oferta de produtos mais confortáveis e bonitos. O cenário parece perfeito. O que resta saber é se os avanços conquistados pelo mercado em matérias-primas e inovações estão chegando aos pés dos trabalhadores brasileiros.

No mercado de EPIs, os calçados de segurança se destacam. De acordo com o relatório Indicadores do Mercado Brasileiro de Equipamentos de Proteção Individual 2021, produzido pela Animaseg (Associação Nacional da Indústria de Material de Segurança e Proteção ao Trabalho) referente ao ano de 2020, somente naquele ano foram produzidos no país 38,7 milhões de calçados de segurança/ocupacional. Ainda foram produzidas 8,7 milhões de botas de PVC; 4,7 milhões de calçados poliméricos; 8,5 milhões de calçados em EVA; 118 mil em PU e 71 mil para usuários de motosserra.

A expectativa da entidade é que, em 2021, a produção tenha ultrapassado os 43 milhões de pares. Os indicadores também apontam 2.258 tipos de calçados profissionais certificados no Ministério do Trabalho. Conhecer os números é importante para entender como o segmento vem se desenvolvendo e pode evoluir, uma vez que a economia irá ditar a capacidade dos fabricantes no investimento de tecnologias e aprimoramento dos produtos.     

Retração no mercado deve ser revertida por conta da evolução dos produtos e novas exigências | Crédito: Júlio Ventura Bittencourt

Em 2020, por exemplo, as incertezas provocadas pela pandemia de Covid-19 fizeram com que a comercialização de calçados de segurança apresentasse uma retração entre 10% e 15%. Além das incertezas causadas no cenário mundial em relação à propagação do vírus, conforme a Animaseg, outras dificuldades surgiram para a indústria calçadista, como a falta e a elevação dos valores de insumos inerentes à produção. Escassez de couro com preços aviltados por conta da pouca oferta e elevada procura, carência na oferta de embalagens e aumento sem precedentes dos derivados de petróleo como PVC e poliuretano foram outros empecilhos que trouxeram adversidades ao setor.

Em relação à qualidade dos componentes, conforme o supervisor técnico do laboratório de EPI Calçados e Físico Mecânico do IBTeC (Instituto Brasileiro de Tecnologia do Couro, Calçado e Artefatos), Marcelo Lauxen, desde a pandemia verificou-se um declínio, principalmente pela falta de insumos no mercado. “Observamos também uma queda na qualidade do couro, que provavelmente foi afetada pelas mudanças nas condições climáticas, muita seca e estiagem em algumas regiões, muita chuva em outras, prejudicando a alimentação e cuidados com nossos bovinos, e a qualidade das peles”, elencou.

TRANSFORMAÇÃO

Embora a diminuição na oferta de matéria-prima seja uma realidade, medidas de caráter normativo como a revisão das Normas Regulamentadoras de Segurança e Saúde do Trabalho e a implementação do eSocial trazem perspectivas otimistas sobre o consumo de calçados de segurança nos próximos anos, conforme a Animaseg.

Quem trabalha diariamente na fabricação e comercialização desses produtos diz que a evolução do setor é constante. O consultor corporativo da Bracol BSB, Luis Augusto de Bruin, sinaliza que o calçado de segurança nacional passou por um processo evolutivo grande em termos de tecnologias e componentes. Os produtos hoje, de acordo com ele, são extremamente técnicos e atendem aos mais variados tipos de risco, com desempenhos aproveitáveis quando são indicados de maneira correta. “A biqueira de composite, por exemplo, nos próximos dois anos, deve substituir por completo as de aço, por terem a mesma capacidade de resistência, mas serem mais leves e mais compatíveis para risco elétrico”, afirmou.

Segundo o CEO da Marluvas, de Dores de Campos/MG, Pedro Arcara, o mercado teve a primeira grande onda de transformação. Além das biqueiras de composite, também com as palmilhas resistentes à perfuração em materiais têxteis. “Tivemos também o primeiro grande aspirante à substituição do couro como principal item de composição para os cabedais dos calçados, que é a microfibra. Além disso, uma variação do solado de PU bidensidade para um solado bicomponente, em PU e borracha, que se tornou uma excelente opção para substituir calçados monodensidade em borracha colada e com uma resistência a variações de temperatura e escorregamento melhor que o PU como único componente”, detalhou.

Arcara comenta que todos esses quatro itens passaram por sua fase de introdução no mercado e hoje já caminham a passos largos, crescendo em representatividade e relevância. “Agora, a bola da vez está com os materiais têxteis para o cabedal e solados com composição diferente dos solados tratorados de segurança, seja em um formato mais slim ou até mesmo com a variação para solados com composição em EVA e borracha”, comentou.

AVANÇO

Máquinas de costura automatizadas conferem performance e alta produtividade | Crédito: Arquivo Kadesh

Acenando também que a evolução chega com a indústria de componentes, a gerente de Controladoria da Conforto, de Estância Velha/RS, Rochele Veit, observa oferta de novas opções de materiais com performance superior às tradicionais já conhecidas. Entre as novidades, estão forros especiais que oferecem melhor desempenho em  transpiração, materiais alternativos ao couro, como knit e microfibra, e palmilhas com múltiplas funções. “Exemplo clássico de evolução de materiais foi a substituição da palmilha de aço pela de aramida para proteção contra perfurações nos pés. Um material mais leve, mais flexível, que protege uma área maior do pé e que ainda pode ser utilizado em ambiente onde haja risco de choques elétricos”, elencou. 

Smilgys: trabalho junto ao cliente | Crédito: Arquivo Pessoal

Outra mudança importante, conforme o gerente de vendas da Safetline, de Hortolândia/SP, Hugo Jorge Smilgys, é que os calçados monodensidade estão praticamente extintos do mercado brasileiro. De acordo com ele, o mercado nacional entendeu que o calçado bidensidade é economicamente viável e com um nível de proteção muito bom. “A grande vantagem do bidensidade é que este tipo de solado, por possuir duas densidades distintas, apresenta um bom desempenho de resistência, pois possui uma camada com alta densidade e também uma camada de grande absorção e leveza. O solado bidensidade é muito confortável quando fabricado conforme os requisitos da NBR 20.344:2015”, comentou.

INVESTIMENTO

Bastos: empresas ainda resistentes | Crédito: Arquivo Kadesh

Embora os avanços conquistados em termos de componentes, matérias-primas e tecnologias estejam, na visão do CEO da Kadesh, de Imbituva/PR, Valdemir Bastos, refletidos nos pés dos trabalhadores brasileiros, na sua opinião, o grande volume ainda se mostra restritivo. “As empresas ainda enxergam como custo manter seu colaborador bem assistido em segurança e conforto. Creio que a evolução vem com a promoção da importância e também aumento da fiscalização”, assinala. Smilgys também acredita que ainda existe no Brasil a percepção de que tecnologia é custo, mas, por outro lado, quando a empresa faz um trabalho mais próximo do cliente, consegue comprovar que este tipo de produto que possui mais tecnologia foi desenvolvido para atender o público correto, com durabilidade. “E percebem que o custo mensal fica, na maioria das vezes, mais barato que calçados de baixa tecnologia”, justificou. Para o sócio-administrador da NSS, de Balneário Camboriú/SC, Deivis Gonçalves, o calçado de segurança brasileiro ainda é bastante tradicional e conservador quando o tema é tecnologia. Ao avaliar os indicadores da Animaseg, ele lembra que o preço médio do par de calçado é de R$ 38 (ocupacional) e R$ 48 (segurança) e que é muito desafiador investir em materiais de alto valor, que tenham diferenciação, tecnologia, design e materiais inovadores com um preço de produto como esse. “Também surgiram alguns modelos diferenciados nos últimos cinco anos, botinas nobuck, um pouco mais de cores, mas ainda representam um percentual muito pequeno, considerando-se a venda das tradicionais botinas pesadas. Ainda assim, mesmo pouco representativo, há uma tendência no surgimento de produtos com materiais mais tecnológicos, leves, com melhor performance e ainda seguros”, completa.

Compra acertada

Saber qual calçado comprar e como cuidar do produto é essencial

Todo o acesso a produtos com tecnologia só faz sentido se, ao adquirir os calçados, os compradores dominarem as atividades e os riscos encontrados em cada ambiente laboral. Além de acompanhar a validade do calçado e o tempo que o mesmo pode permanecer no estoque, saber conservá-lo durante o uso e acompanhar a periodicidade de troca do produto também garante que eles cumpram sua função de proteger. “É muito importante a homologação correta do calçado a ser utilizado. Lembro aqui que temos, apenas no quesito eletricidade, calçados com função de isolar a eletricidade, e outros com função de conduzir, ou seja, funções opostas que precisam estar bem esclarecidas e definidas no momento da homologação”, explicou o CEO da Marluvas, Pedro Arcara. Por isso, o fator chave para adquirir o produto mais indicado para sua função é realizar uma boa leitura dos riscos existentes em cada área, buscando o calçado adequado para aquele risco.

Gonçalves: informações disponíveis | Crédito: Arquivo Pessoal

Para ajudar seus clientes na identificação correta dos produtos para que protejam dos riscos com os quais a empresa convive, a Marluvas desenvolveu um programa, o Comprove, que vai ao ambiente de trabalho do cliente ajudar a levantar todos os perigos e demonstrar todas as opções de soluções de proteção. O sócio-administrador da NSS, Deivis Gonçalves lembra que, de acordo com a legislação, o próprio calçado deve conter as siglas correspondentes à proteção daquele EPI, assim como o CA gravado, entre outras informações. “A embalagem do produto também deve conter uma legenda informando o significado de cada sigla. No site do Ministério do Trabalho, todos os CAs podem ser consultados e, neste documento, consta também para qual atividade o calçado é aprovado e onde é indicado ser utilizado”, exemplificou.

CUIDADOS

Rochele: vida útil do produto | Crédito: Arquivo Pessoal

Além dos compradores estarem bem informados sobre as características dos calçados, também é muito importante, depois da compra, saber como conservá-lo. O trabalho começa com o armazenamento dos pares, que devem ser guardados em local seco e ventilado, ao abrigo do sol. Para calçados com solado em poliuretano, segundo a gerente de Controladoria da Conforto, Rochele Veit, recomenda-se que seja colocado em  uso em até seis meses após sua fabricação, para evitar a ocorrência de hidrólise, que pode fazer com que o solado rache ou se esfarele.

Entre os principais sinais de desgaste que devem ser observados pelas empresas, conforme Rochele, estão: furos, rasgos, cortes ou perfurações no couro, no solado e na forração interna, e desgaste excessivo no solado, prejudicando suas características antiderrapantes. “Independente do prazo de validade do calçado, é importante que o mesmo esteja em boas  condições de uso. Cabe observar que a vida útil do produto está relacionada, principalmente, às condições de uso, armazenamento, manutenção ou condições do  ambiente ou tipo de uso do equipamento, entre outras variáveis. Dessa forma, o desgaste deverá ser avaliado pelo empregador, permitindo um controle frequente da  necessidade de substituições”, ensinou.

O CALÇADO IDEAL PARA CADA RISCO

O item G1 do Anexo I da NR 6 (Equipamento de Proteção Individual) classifica o calçado como EPI para proteção dos membros inferiores e indica para quais riscos ocupacionais eles são recomendados.  

Impacto de quedas de objetos – São utilizados em ambientes com risco de impactos devido à queda de objetos sobre os artelhos. Possuem biqueiras em aço ou composite que resistem à energia de impacto de até 200 Joules e à compressão de até 15 kN (calçado de segurança), ou à energia de impacto de até 100 Joules e à compressão de até 10 kN (calçado de proteção).

Agentes térmicos – Modelos em couro com solado de borracha nitrílica ou em fibra de carbono são recomendados para altas temperaturas. Já os calçados em couro, PVC ou PU, com solado de borracha natural protegem contra baixas temperaturas.

Agentes mecânicos – Podem ser calçados tipo bota ou coturno, com biqueira de proteção e cabedal confeccionado com material anticortante. Indicado para trabalho com uso de motosserras.

Umidade – Devem ser resistentes à penetração e absorção de água (hidrofugados) ou resistentes ao vazamento (impermeabilizados). Quando a exposição à água é excessiva, a recomendação são calçados impermeabilizados inteiros em borracha ou polimérico.

Agentes de energia elétrica – Há calçados para proteção contra riscos com diferentes resistências elétricas, como antiestático, condutivo, trabalho ao potencial (em linhas vivas) ou os isolantes elétricos. Os modelos podem ter o cabedal em couro e o solado em PU, que proporciona resistência elétrica ou com borracha específica para o risco. Há calçados impermeáveis em borracha ou inteiro poliméricos.

Agentes químicos – Calçados em couro emborrachado com solado em PU ou inteiramente de borracha ou polimérico protegem contra estes riscos. Na hora da escolha do produto, a degradação, penetração e tempo de resistência devem ser considerados.

Atendimento legal

Normatização incentiva melhorias na produção dos calçados profissionais

A evolução dos calçados profissionais também passa pelas normas técnicas obrigatórias para a obtenção do CA (Certificado de Aprovação do Ministério do Trabalho). E elas vêm progredindo. As primeiras NBRs voltadas aos calçados profissionais surgiram em 1992, a 12.594 (Exigência Técnica de Segurança para Construção do Calçado) e a 12.561 (Calçados de Proteção), que eram baseadas em normas de 1970 e 1980, consideravelmente ultrapassadas. Por isso, ambas deixaram de existir em 2008 e deram lugar, depois de análise do CB 32 (Comitê Brasileiro de Equipamentos de Proteção Individual) da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas) a normas com critérios de qualidade e padrão internacional, fazendo com que os produtos brasileiros pudessem ser aceitos no mundo inteiro e vice-versa.

Normas trouxeram mais qualidade e elevaram os produtos ao padrão internacional | Crédito: Divulgação BSB

Foram as NBRs ISO 20345 (Calçado de Segurança), 20346 (Calçado de Proteção) e a 20347 (Calçado Ocupacional), em 2015, que trouxeram os requisitos para calçados de segurança utilizados para riscos mecânicos, resistência ao escorregamento, riscos térmicos e comportamento ergonômico. Outras normas, conforme a Portaria 11.437 de maio/2020, substituída pela Portaria 672 de novembro/2021 com alterações da Portaria 549 de março/2022, conforme você lê no quadro Por dentro das normas, também vêm qualificando e garantindo cada vez mais a qualidade dos calçados profissionais produzidos no país.

MAIS PROTEÇÃO

Casanova: custo mais elevado | Crédito: Bruno Leite

Uma delas, que substitui a NBR 12576/1992 (Determinação da Resistência do Solado à Passagem de Corrente Elétrica) é a NBR 16603 (Calçado Isolante Elétrico para Trabalhos em Instalações Elétricas de Baixa Tensão até 500 v em Ambiente Seco), que trouxe novidades e novas exigências. O diretor executivo da A­nimaseg (Associação Nacional da Indústria de Materiais de Segurança e Proteção ao Trabalho), Raul Casanova, lembra que, quando o CB 32 decidiu alterar esta norma, entendeu que a anterior não oferecia a garantia necessária para proteger o trabalhador dos riscos aos quais este estava sujeito. “Os fabricantes, para atender às novas exigências, tiveram que desenvolver novos modelos de calçado com alterações, inclusive de materiais, que teve como consequência um produto de custo mais elevado”, comentou o dirigente.

A nova norma, que começa a ser exigida neste ano, já que o CA dos produtos ainda fabricados em 2017 vale até 2022, contempla os requisitos normativos do calçado isolante elétrico de Classe I, aqueles fabricados em couro, têxteis, laminados e sintéticos, incluindo requisitos de desenho, ensaios elétricos, ensaios não elétricos, marcações e informações aos usuários, além de definir as metodologias de ensaios, referenciando outras normas. A normatização, embora tenha surgido para trazer maior segurança aos usuários deste tipo de calçado, vem gerando polêmica no mercado.

Bruin: norma complicada | Crédito: Arquivo Pessoal

O consultor corporativo da Bracol BSB, Luis Augusto de Bruin, lembra que quando a NBR 16603 foi criada, a proposta era seguir as normas ISO europeias para facilitar a exportação dos calçados de segurança. “Pela norma internacional, o calçado de segurança para risco elétrico era inteiramente polimerizado. Nós fizemos um negócio híbrido e criamos um monstro. A norma é complicada de ser seguida, porque pede uma série de requisitos e o calçado ficou limitado em termos de resistência, de até 500 volts. Virou um calçado específico, não pode ser usado um calçado que simplesmente não tenha componentes metálicos para os eletricistas, mas também deve ser minimamente hidrofugado, entre outros requisitos”, explicou.

Gerente de Controladoria da Conforto, Rochele Veit, diz que a permissão de manter a norma antiga até o fim da validade dos CAs gerou muitas dúvidas, pois permite a coexistência de regras diferentes para o mesmo tipo de risco. “De certa forma põe em dúvida a finalidade da certificação. Há muitas questões sendo levantadas a este respeito: como um calçado que se usou até então sem nenhum problema  simplesmente deixa de ser adequado sem ter nenhuma mudança em sua concepção e nem no tipo de trabalho, apenas pela mudança de norma? E se de fato a norma antiga colocava em risco os trabalhadores, por que ainda é permitida sua utilização? É uma situação muito delicada e que merece total atenção do mercado”, reflete.

Acompanhando de perto essa mudança a partir da NBR 16603, o CEO da Marluvas, Pedro Arcara, afirma que a nova norma promoveu uma melhoria na engenharia do produto. “Hoje, para que esse calçado possa ser coberto pela NBR, ele precisa ser um produto de alta performance. Em cabine de testes ele chega a ficar com até 85% de umidade durante sete dias”, exemplificou. Apesar do calçado ter um custo mais elevado que o anterior, Arcara diz que existe uma economia pelo fato da durabilidade deste produto ser maior.

Outro ponto que gera economia, de acordo com ele, é o fato do novo calçado estar sendo recomendado apenas para atividades que realmente possuam risco elétrico. A Marluvas vem realizando um trabalho junto aos seus clientes nesse sentido. “As grandes indústrias estão promovendo a revisão dos seus riscos elétricos para que o novo calçado seja utilizado onde realmente houver necessidade. Anteriormente, existia uma banalização do risco elétrico, se especificava esse risco em qualquer atividade. Agora, as empresas estão revendo, fazendo com que o calçado para uso eletricista seja usado apenas quando é demandada essa proteção”, completa.

REQUISITOS

São essas normatizações, de acordo com Casanova, que trazem os parâmetros mínimos que um produto deve atender para que exerça sua função adequadamente. “Neste caso, para que ofereça a proteção adequada dos riscos para os pés ou decorrentes do contato destes com seu meio. Portanto, o profundo conhecimento das normas é essencial para quem projeta e fabrica o calçado, para o profissional de segurança que indica o calçado adequado para os riscos enfrentados pelos trabalhadores de sua empresa e para quem o utiliza também”, explicou.

NBR para calçado isolante elétrico começa a ser exigida neste ano | Crédito: Divulgação Marluvas

A evolução da normatização ainda possibilitou ampliar e qualificar os ensaios de calçados profissionais no país. O assistente de Pesquisas no IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas) e secretário da Comissão de Calçados de Segurança do CB 32 e da Comissão de Calçados para Combate a Incêndio do CB-24/CB-32, Pedro Yuri Kovatch, conta que, antes de 2010, ano em que o IPT aprovou os primeiros modelos, eram realizados em torno de 15 a 20 ensaios por modelo.

Hoje, com a adoção das novas normas, são realizados entre 40 a 50 ensaios por amostra e ainda, na menor, na média e na maior numeração fabricada, levando em consideração que o tamanho do calçado pode interferir na proteção do usuário. “No começo foi difícil para muitos fabricantes se adequarem, mas com o tempo foram aperfeiçoando seus calçados para atender os parâmetros especificados pelas novas normas de calçados. Esse marco colocou os calçados profissionais do Brasil em equivalência aos produzidos no mundo, em especial na Europa, onde são adotadas as mesmas normas para certificação dos calçados profissionais”, concluiu. A normatização, para o supervisor técnico do laboratório de EPI Calçados e Físico Mecânico do IBTeC, Marcelo Lauxen, colaborou com a inovação dos calçados. “Comparando-se os calçados de hoje com aproximadamente 10, 15 anos, principalmente no quesito conforto, estilo, design, é inegável a evolução. Cada vez mais os produtores de EPI projetam seus calçados para atender mais especificamente cada área de uso e não mais somente aqueles básicos. Testam o máximo de requisitos específicos nos seus produtos, não somente o necessário”, sinalizou.

POR DENTRO DAS NORMAS

Os procedimentos e requisitos técnicos para a avaliação de EPIs, e emissão, renovação ou alteração do CA, relativos aos Equipamentos de Proteção Individual enquadrados no Anexo I da NR 6, devem respeitar as normatizações previstas na Portaria 11.437, de 6 de maio de 2020, substituída pela Portaria 672, de 8 novembro de 2021 com alterações da Portaria 549, de 9 de março de 2022. Segundo o documento, as normas que dizem respeito aos calçados profissionais para obtenção do CA são:

  • NBR ISO 20344 / NBR ISO 20345 (de segurança); ou NBR ISO 20346 (de proteção); ou NBR ISO 20347 (ocupacional). (Impactos de quedas de objetos sobre os artelhos; Agentes provenientes da energia elétrica; Agentes térmicos; Agentes abrasivos e escoriantes; Agentes cortantes e perfurantes; e Operações com uso de água).
  • EN 13832-2 / 13832-3 (Riscos de origem química).
  • EN 15090 (Agentes térmicos – para uso em combate ao fogo).
  • ISO 20349-1 / ISO 20349-2 (Riscos térmicos e salpicos de metal fundido).
  • NBR ISO 20345 ou NBR ISO 20346 ou NBR ISO 20347 + NBR 16603 (Agentes provenientes da energia elétrica – Calçado isolante elétrico para trabalhos em instalações elétricas de baixa tensão até 500 V em ambiente seco).
  • NBR 16135 ou IEC 60895 (Calçado para trabalho ao potencial).
  • BS EN 50321-1 (Calçado Classe II (polimérico/elastômero) para proteção elétrica).
  • ISO 17249 (Calçado para motosserristas).

Agregando valor

Materiais inovadores e tecnologias são aliados dos fabricantes

Além do cumprimento dos requisitos legais para a obtenção do CA, e para que os calçados que produzem protejam efetivamente os pés dos trabalhadores, os fabricantes brasileiros perceberam que este mercado é dinâmico e que é preciso constantemente se atualizar. Seja em relação às matérias-primas utilizadas ou às inovações empregadas. É por isso que além do quesito segurança, o conforto e o design dos produtos também passaram a ser premissa de muitas marcas quando projetam calçados profissionais.

Essa é uma preocupação, por exemplo, da NSS, que é conhecida no mercado por disponibilizar 27 modelos da linha de tênis de segurança. O sócio-administrador da marca, Deivis Gonçalves, afirma que a tecnologia aplicada ao produto e nos componentes tornou possível transformar um tênis de moda de alta performance num EPI, com diferenciais como leveza, já que um tênis pesa praticamente 50% do peso de um EPI tradicional, e possui design moderno e atual.

Entre os diferenciais do produtos, de acordo com Gonçalves, estão o solado de borracha com entressola de EVA, que possui maior grip e resistência que o PU, oferecendo performance de 94% de amortecimento, conforme laudo de conforto do IBTeC, e cabedal em tecido, que permite maior transpirabilidade, não esquenta os pés, molda-se aos pés e é flexível e resistente. “Os tênis ainda contam com palmilha interna com nanotecnologia, que permite melhor amortecimento e mantém os pés mais secos e seu calçado sem mau cheiro, e biqueira de alumínio, extremamente leve e com visual esportivo”, completou.

CONFORTO

Atenta à performance dos calçados de segurança que produz, a Conforto vem acompanhando de perto a evolução do mercado. O resultado, de acordo com a gerente de Controladoria, Rochele Veit, aparece nos componentes que utilizam para a fabricação de diversas linhas – a branca para hospitais e a industrial -, como palmilhas amortecedoras de impacto e forros que qualificam a performance do calçado. “Além de proporcionar a segurança exigida por lei, nosso diferencial está justamente no conforto oferecido ao usuário”, garantiu a gestora, sinalizando que os produtos são certificados com o Selo Conforto  emitido pelo IBTeC, que garante que os produtos atendem às normas ABNT de Conforto e oferecem diferenciais como um calçado com temperatura adequada dentro do pé,  correta absorção de impacto, leveza e outros benefícios que vão muito além da proteção.

Arcara: ampla gama de opções | Crédito: Arquivo Marluvas

Há empresas que também encontram na variedade de calçados de segurança ofertados uma forma de se destacar no mercado. A Marluvas atua para quase 20 segmentos, protegendo contra pelo menos 10 riscos. Para isso, produz linhas em couro, EVA, M Micro, PVC e têxtil. São botas, coturnos, galochas, sandálias, sapatos e tênis, com cabedais em mais de 20 opções de couro, microfibra e cabedais têxteis. “Os produtos ainda contam com palmilhas resistentes à perfuração em aço e material têxtil, biqueiras de aço, composite, polipropileno e true line (essas duas últimas sendo apenas biqueiras ocupacionais), cabedais resistentes a chamas, solados resistentes ao escorregamento, com proteção térmica quente e frio, proteção antiestática, enfim, uma gama de opções de materiais”, elencou o CEO da Marluvas, Pedro Arcara.

DIVERSIFICAÇÃO

A Kadesh também aposta em calçados de diversas categorias e preços, atendendo segmentos variados, como o mercado de linha branca, como frigoríficos, metalúrgico, construção civil e serviços, entre outros. O CEO da marca, Valdemir Bastos, afirma que a empresa investiu nos últimos três anos mais de R$ 10 milhões para potencializar novos produtos e ampliar o portfólio. Parte desse investimento foi destinado para maquinário para asperagem, matrizaria e formas, artigos e novas matérias-primas, além de máquinas de montagem e injeção de solados.

Outra empresa que também vem fazendo diferença no mercado é a Safetline, que atende praticamente todos os riscos da ABNT NBR ISO 20.344:2015 e oferece mais de 100 modelos, que variam em cores, materiais e acessórios. Dos diferenciais que a marca traz em termos de tecnologias empregadas e novos componentes que estão agregando mais valor aos seus produtos, o gerente de vendas, Hugo Jorge Smilgys, lista uma série de tecnologias empregadas nos componentes. Entre elas, os solados em TPU, que garantem grande resistência ao escorregamento e maior resistência à perfuração e corte e não sofrem hidrólise; os solados de borracha nitrílica bidensidade, com duas camadas de borracha nitrílica, que garantem resistência à temperatura, maior maciez, menor peso e vulcanização direta no cabedal.

“Também fabricamos produtos com couro emborrachado para ambientes hostis, que recebem uma camada de borracha nitrílica em sua superfície e contam com tratamento hidrofugante, que confere resistência à penetração de água, normalmente indicado para trabalhos com ácidos e/ou bases extremamente agressivas”, destacou Smilgys. Para garantir matérias-primas exclusivas para a fabricação de seus calçados profissionais, a Safetline conta com um curtume próprio na cidade paulista de Tarabai, onde produz o couro floater. “Para atingir níveis de maciez, leveza e resistência, esse tipo de material recebe um grande volume de óleos especiais em seu processo de curtimento. Enquanto um couro normal recebe de 12% a 14%, o floater recebe de 16% a 20% de matéria ativa em seu tratamento. Outra etapa importante no curtimento do floater é o que se chama de ‘bater o couro’, para que o mesmo apresente um aspecto uniforme em sua estampa”, detalhou.

Couros em acabamentos diferenciados atendem a diferentes tipos de agentes de risco | Crédito: Cláudia Utzig Fotografia

Consultor corporativo da Bracol BSB, Luis Augusto de Bruin, salienta que a empresa atende no país, além do mercado externo, todos os tipos de atividades, desde o menor risco aos mais técnicos, de uso condutivo para alta tensão. Além de cumprir as exigências legais para garantir o nível de proteção recomendado aos produtos, a marca também entendeu que precisava investir em calçados fora do padrão estético convencional.

“Lançamos recentemente uma linha diferente, com design arrojado, que visa desmistificar que o desenho agrega pouco valor ao produto. Temos uma preocupação de inovar e mostrar para o mercado que existem opções mais modernas. E temos tido resultados positivos neste aspecto”, salientou. As botinas trazem palmilhas de poliuretano, garantindo absorção do suor e impacto, confeccionadas em tecido de nylon que confere rápida secagem e evaporação da umidade, e biqueira de composite, mais leve que a de aço, com resistência e proteção contra impactos e compressão e que não conduz eletricidade, entre outras tecnologias.  Os relatos de fabricantes de calçados profissionais demonstram que tecnologia e inovação são duas palavras chave neste mercado. Atenção às normatizações também é uma realidade, assim como a preocupação com o conforto e o design dos produtos. A combinação é perfeita para que os pés dos trabalhadores sigam protegidos, independente das atividades que exerçam. Com a lição de casa cumprida pelas marcas, resta que os compradores também estejam atentos às evoluções desses produtos e permitam que eles cheguem aos pés dos trabalhadores.

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