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quarta-feira, 29 de junho de 2022

Reportagem Especial – Avaliações ocupacionais: Risco controlado – Ed. 365

Por Marla Cardoso/Jornalista da Revista Proteção

Saber quando e como utilizar as avaliações ocupacionais é essencial para a identificação e controle  dos agentes de risco no ambiente de trabalho

Era manhã de 15 de janeiro de 2021 quando um trabalhador fazia a limpeza de resíduos químicos de um tanque de dois metros de profundidade em uma empresa de cromação e niquelação de metais na capital paulista. Durante o trabalho, o homem, de 53 anos, inalou gás tóxico, perdeu os sentidos e caiu dentro da estrutura. Ao tentar ajudá-lo, outros dois colegas, de 40 e 25 anos, também foram intoxicados e morreram no local. Uma quarta vítima, de 24 anos, faleceu no hospital e outros quatro foram internados. Em depoimento à polícia, a proprietária da empresa disse que todos utilizavam equipamentos de proteção como máscara, luvas, botas e aventais durante a ocorrência.

Acidentes como este e outros tantos que vitimam trabalhadores no país chamam a atenção para a necessidade de uma correta avaliação dos perigos que rondam os ambientes laborais, constatando sua presença e chegando a conclusões quanto a sua magnitude, o que provavelmente não foi feito neste caso em São Paulo.

Antes de optar por algum método de avaliação é preciso reconhecer os riscos | Crédito: Shutterstock

Se as consequências provocadas pelo contato com os produtos químicos fossem conhecidas e as medidas de controle adotadas fossem suficientes para a proteção daquela exposição, o desfecho poderia ter sido outro. E é justamente para conhecer e eliminar esses perigos químicos e outros físicos e biológicos, presentes nas jornadas de trabalho, que os profissionais de SST realizam a avaliação, que pode ser qualitativa, semi-quantitativa ou quantitativa.

Além de conhecerem profundamente as diferenças entre cada uma delas, o desafio é saber quando e como utilizá-las. Uma tarefa que requer muito estudo, conhecimento técnico e prática profissional.

Imagine que você não está se sentindo muito bem e marca uma consulta médica. Ao sentar na frente do especialista, o profissional faz um amplo questionamento, a chamada anamnese, sobre seu estilo de vida, alimentação, seus hábitos sociais, prática de atividades físicas, histórico de saúde familiar, o ambiente onde você vive, a quais fatores está exposto, eventos adversos, intensidade e duração do quadro, histórico de doenças, entre outras perguntas importantes para estabelecer uma relação com a queixa. Ou então, de pronto, solicita uma lista de exames e, somente após o resultado, definirá o melhor tratamento. Será que, se antes de assinar a requisição médica, uma apurada avaliação das condições que podem estar relacionadas com o adoecimento fosse realizada, já não seria possível iniciar o tratamento e reduzir os riscos de agravamento da queixa?

Miranda: reflexão | Crédito: Arquivo pessoal

A reflexão, proposta pelo engenheiro de Segurança do Trabalho, higienista ocupacional certificado (ABHO HOC-014) e presidente da ABHO (Associação Brasileira de Higienistas Ocupacionais), Luiz Carlos de Miranda Júnior, é uma analogia às avaliações qualitativas e quantitativas para identificação dos agentes de risco no trabalho.

Previstas na nova NR 9, que agora trata sobre a Avaliação e Controle das Exposições Ocupacionais a Agentes Físicos, Químicos e Biológicos, além de serem abordadas em outras normas nacionais e diversas diretrizes internacionais, as avaliações podem ser qualitativas, semi-quantitativas ou quantitativas. Entenda melhor seus conceitos no box Tipos de avaliações.

A primeira, qualitativa, consiste, a partir do julgamento profissional, em uma análise baseada em observações técnicas, experiências anteriores ou modelos. É aquela em que se realiza a identificação do risco que pode estar presente no ambiente, sem que seja atribuído um valor para provar que ele realmente está no local de trabalho.

Já as avaliações quantitativas, de acordo com a engenheira civil e higienista ocupacional, Berenice Isabel Ferrari Goelzer, são mais complexas e sua interpretação se baseia, por exemplo, na comparação de estimativas de concentrações ambientais de contaminantes atmosféricos ou em resultados de medições de agentes físicos, com valores limites de exposição ocupacional (LEOs) recomendados e/ou legalmente adotados, com base em dados científicos. E, neste caso, conforme o Técnico em Higiene Ocupacional Certificado pela ABHO (THOC 0052), tecnólogo em Gestão Ambiental e técnico de Segurança do Trabalho, Marcos Sell, há parâmetros definidos, como os Anexos I e III da NR 9, que tratam, respectivamente, sobre os limites de exposição à vibração e ao calor; a NR 15, que indica limites de tolerância para as atividades consideradas insalubres; os previstos pela ACGIH (American Conference of Governmental Industrial Higyenists); e as NHO (Normas de Higiene Ocupacional da Fundacentro). Há, ainda, recomendações como a publicação da AIHA (American Industrial Hygiene Association), recentemente traduzida pela ABHO com o título Uma estratégia para avaliar e gerenciar – Exposições ocupacionais, além de um dos documentos mais utilizados quanto a Limites de Exposição Ocupacional da ACGIH,  também traduzido e publicado pela ABHO: 2022 TLVs e BEIs.

ETAPA

Antes de se deter, porém, na metodologia, os prevencionistas chamam a atenção de que a avaliação não pode ser considerada como um fim, mas como uma etapa de um processo muito mais amplo que, de acordo com Berenice Goelzer, começa com a percepção de que um certo agente, capaz de causar prejuízo à saúde, pode estar presente num certo ambiente de trabalho, e que termina com a prevenção ou controle da exposição dos trabalhadores a este agente. “Na prática da Higiene Ocupacional, a etapa de avaliação deve ser precedida de reconhecimento de riscos bem feito, e, no caso de serem constatados riscos, isto só tem significado se servir de base para sua prevenção e/ou controle”, esclarece.

Fantazzini: caracterização básica | Crédito: Arquivo

O processo de conhecimento, julgamento e gerenciamento das exposições, na visão do engenheiro mecânico e de segurança e higienista ocupacional certificado (ABHO HOC 0050), Mario Luiz Fantazzini, é contínuo e inicia no reconhecimento dos ambientes, do processo, das funções e tarefas, e dos agentes. Essa fase, conforme o higienista, se chama caracterização básica e é preconizada pela AIHA há muitos anos. “Durante o processo, podem ocorrer avaliações dos agentes, qualitativas e/ou quantitativas. O profissional deve optar entre várias abordagens, que dependem das características da situação encontrada, a qual pode demandar ações de controle imediatas, avaliações qualitativas preliminares ou mesmo avaliações quantitativas”, elenca. Na maior parte dos casos, para Fantazzini, as avaliações quantitativas são fundamentais para o julgamento consolidado da situação de exposição. “Todavia, os estágios intermediários de avaliação e julgamento não impedem que se tomem ações de controle e isso sempre esteve bem claro no antigo PPRA (Programa de Prevenção de Riscos Ambientais), como continua válido no PGR (Programa de Gerenciamento de Riscos) da NR 1”, destaca o higienista.

INTERPRETAÇÃO

Domingos: desvio de conduta | Crédito: Arquivo pessoal

Em tese, o mestre em Saúde Pública pela Colorado State University, com ênfase em Higiene Industrial, tecnologista sênior da Fundacentro (1975 a 2011), ex-presidente da ABHO e consultor em Higiene Ocupacional, Marcos Domingos da Silva, acredita que não são necessários dados quantitativos para fazer controle e resolver os problemas. “O julgamento profissional prevencionista é suficiente para solucionar a grande maioria dos problemas. O que ocorre hoje, principalmente no Brasil, é a falta de credibilidade dos especialistas. Não basta a palavra deles, eles têm de provar através de números que estão certos”, critica.  

Desde a implantação do antigo PPRA, em 1994, Silva lembra que existe a necessidade legal da avaliação qualitativa, expressa na NR 9, como reconhecimento de riscos, mas na prática houve um desvio de conduta por parte dos profissionais de SST, que ignoraram essa fase, partindo direto para as medições. De acordo com ele, é comum para quem trabalha na área de consultoria receber um escopo de contratação de serviços com as medições pré-definidas, sem uma base técnica que justifique o tipo e a quantidade de amostras. “Compete ao profissional prevencionista analisar bem o processo produtivo e as condições de exposição, antes de definir o que deve ser medido. Caso contrário, recursos econômicos serão jogados no lixo com avaliações desnecessárias”, defende.

O higienista exemplifica: “um trabalhador que manipula uma substância tóxica por alguns minutos, uma ou duas vezes na quinzena, não precisa de avaliação quantitativa. Basta que ele faça o seu trabalho bem protegido. Mesmo que sejam feitas medições, resta a pergunta: como interpretar os resultados se os limites de exposição são para exposições de 8 horas diárias e 40 horas semanais? A interpretação dos dados quantitativos não se resume a comparar valores numéricos de níveis ou concentrações. É necessário verificar se representam os tempos de exposição associados aos limites de exposição”, ensina.


TIPOS DE AVALIAÇÕES

As avaliações para identificação dos agentes de risco no ambiente de trabalho podem ser:

  • Qualitativa – compreende uma observação técnica, levando em consideração a experiência dos trabalhadores, de avaliação dos riscos presentes no ambiente, sem a utilização de equipamentos para a realização de medições e sem metodologias semi-quantitativas, mas que permitem ao profissional agir para a mitigação da exposição. 
  • Semi-Quantitativa – um método que proporciona a hierarquização dos riscos e estima se estes são aceitáveis ou se necessitam de medidas urgentes e imediatas. É baseada na magnitude do risco profissional, a partir da estimativa da frequência do risco e da gravidade possível das lesões.
  • Quantitativa – uma avaliação por instrumento, em que é atribuído um valor de concentração ou intensidade ao agente, para dimensionar a exposição ocupacional dos grupos de trabalhadores, comprovar o seu controle e subsidiar o equacionamento das medidas de prevenção. É importante para fins de laudos técnicos, periciais e caracterização de insalubridade.

Como fazer a avaliação

Etapa qualitativa deve preceder a quantitativa

Antes de iniciar a avaliação ocupacional é unanimidade entre os prevencionistas que os profissionais precisam fazer um reconhecimento do ambiente que deve, de acordo com o higienista ocupacional certificado, consultor técnico e professor de Higiene Ocupacional, Gustavo Rezende Souza, reconhecer as atividades, as tarefas e os processos que existem na empresa, através de um mapeamento macro dos perigos. “Quando fazemos esse levantamento, conseguimos ter um entendimento melhor de como são as exposições no dia a dia. Temos exposições que acontecem de forma mais significativa em apenas um dia de trabalho, que são as mais infrequentes, e as mais crônicas, que acontecem a médio e longo prazo. Quando o profissional consegue analisar esse contexto, vai determinar quais as fontes de perigo existentes e, a partir disso, escolher a ferramenta de avaliação que possa priorizar os riscos mais críticos”, detalhou.

Este levantamento pode ser feito através do PGR, contido na NR 1 (Disposições Gerais e Gerenciamento de Riscos Ocupacionais), que também prevê em seu novo texto o gerenciamento de riscos ergonômicos e de acidentes, além dos já conhecidos químicos, físicos e biológicos. Somente depois de ter um amplo conhecimento do ambiente, partindo da identificação dos perigos, é que o profissional deve seguir para a avaliação. E essa abordagem inicial, de acordo com o presidente da ABHO (Associação Brasileira de Higienistas Ocupacionais), professor na Unicamp/SP e consultor independente, Luiz Carlos de Miranda Júnior,  deve ser a avaliação qualitativa. “Dependendo da situação, ela não requer uma medição. Se o profissional estiver analisando uma situação de calor em uma empresa, e ao se aproximar do trabalhador, observar que ele está com uma sudorese muito intensa que pode prejudicá-lo, será preciso melhorar aquela condição antes mesmo de fazer medições, pois sob o ponto de vista qualitativo já se avalia que não é possível conviver com aquele risco. Com uma certa experiência, os profissionais desenvolvem um olhar clínico e passam a enxergar essas exposições que demandam ações imediatas”, contextualiza.

PIONEIRISMO

E essa não é uma recomendação recente. A chamada Higiene Industrial começou assim. Foi a reconhecida médica norte-americana Alice Hamilton que, em 1920, acentuou esta prática em seus estudos sobre os distúrbios decorrentes de exposições tóxicas ocupacionais. Como na época os instrumentos de medição eram raros e precários, a especialista baseava seus estudos no processo de fazer visitas pessoais a fábricas, entrevistando trabalhadores e compilando detalhes de casos de envenenamento diagnosticados (foto abaixo).

Até a década de 1950, de acordo com o higienista ocupacional certificado (HOC 0103 ABHO), registrado no Programa da AIHA de EDA (Exposure Decision Analysis), e membro da ACGIH, AIHA e BOHS, Marcus Vinícius Braga Rodrigues Nunes, os dados de monitoramento, denominados como avaliação quantitativa, não estavam acessíveis pois não haviam instrumentos de medição disponíveis. Ou, se existentes, eram inviáveis para ser usados pelo trabalhador ou apresentavam imprecisão.

Alice Hamilton: precursora na Higiene Industrial | Crédito: LIVRO INDUSTRIAL TOXICOLOGY, 1949

“Desse modo, os higienistas ocupacionais estimavam a exposição por julgamento profissional, inclusive havendo relatos na literatura de uso do olfato para reconhecer e até estimar concentrações dos principais vapores e gases industriais, não sendo recomendado que tal prática continuasse”, contextualizou. Foi com o avanço tecnológico dos instrumentos, o desenvolvimento da administração científica e a aplicação de conceitos estatísticos, de acordo com Nunes, que grande parte deste conhecimento foi adaptado e aplicado à Higiene Ocupacional, em especial à conhecida avaliação quantitativa.

Mesmo com todo o avanço tecnológico e com o papel das avaliações quantitativas para consolidar, em alguns casos, a situação de exposição apresentada nas abordagens qualitativas (além da sua utilização para o cumprimento legal), na opinião dos prevencionistas, ainda assim, a etapa qualitativa deve preceder a quantitativa, visando a adoção de medidas rápidas para a correção da exposição, além de possibilitar a antecipação das medidas de controle pela previsão da estimativa da exposição.  

METODOLOGIAS

Braga: treinamentos falhos | Crédito: Arquivo pessoal

E, para essa avaliação qualitativa, há uma série de metodologias disponíveis, como a abordagem por dados sub-rogados, por modelagem matemática, ou protocolos como o Control Banding, que faz uma estimativa do valor do Limite de Exposição Ocupacional de um agente com base nas informações toxicológicas das substâncias. O higienista ocupacional Marcus Vinícius Braga diz que o Control Banding está entre as ferramentas pragmáticas mais conhecidas e utilizadas para avaliação qualitativa de risco químico, especialmente para triagem de materiais perigosos por classificação de perigos à saúde, e que permite prever a exposição.

Já os dados sub-rogados, de acordo com ele, estão disponíveis em literaturas e artigos que apresentam resultados de monitoramento da exposição em processos e atividades similares. “As exposições ao ruído, por exemplo, podem ser estimadas por valores nominais de máquinas e equipamentos informados pelo fornecedor, os chamados dados sub-rogados, ou por modelagem matemática, a partir da estimativa da potência sonora da fonte geradora associada aos parâmetros da disposição do ambiente, de propagação e do tempo de exposição”, aprofunda. O higienista também cita que a exposição qualitativa ao calor pode ser estimada preliminarmente para triagem e priorização por meio do checklist denominado Basic Thermal Risk Assessment, desenvolvido pela IOHA.

Avaliação qualitativa de agentes químicos: reconhecimento de risco e estudo de toxicidade | Crédito: Shutterstock

“Em um segundo nível, também pode-se adotar o monitoramento por índices de estresse térmico empíricos ou racionais, respectivamente, como IBUTG (Índice de Bulbo Úmido e Termômetro de Globo) ou TWL (Thermal Work Limit), ou por índice de tensão térmica, por exemplo o PHS (Predicted Heat Strain). Em último caso, o monitoramento fisiológico também garante um monitoramento em tempo real da frequência cardíaca e temperatura do núcleo do corpo”, completa. 

O especialista compartilha que outra abordagem desenvolvida mais recentemente é a técnica estatística bayesiana, que permite unir os dados de monitoramento de agentes químicos ou de ruído ao julgamento profissional e, assim, aumentar a certeza da classificação da exposição. “Além disso, a estatística bayesiana permite um processo de retroalimentação e refino do julgamento profissional. Porém, vários estudos têm demonstrado que o julgamento profissional possui viés negativo. Em outras palavras, os profissionais subestimam as exposições, e por isto, é necessário treinamento para aumentar a exatidão do julgamento”, arremata Braga.

PRECISÃO

Berenice: problemas na interpretação | Crédito: Arquivo pessoal

A escolha da metodologia de avaliação, para a higienista ocupacional Berenice Goelzer, também deve levar em conta seu objetivo. Ela explica que se a avaliação for, por exemplo, em conexão com um estudo epidemiológico que visa correlacionar exposição com efeitos na saúde, deve ser quantitativa, com alta exatidão e precisão. Já se tratando de uma intervenção de Higiene Ocupacional a fim de estabelecer se há necessidade de medidas preventivas, ela observa que nem sempre é necessária uma avaliação quantitativa, podendo esta ser qualitativa ou semiquantitativa.

Em relação a agentes químicos, a higienista afirma que a avaliação qualitativa se resume a um reconhecimento de risco bem feito e um estudo da toxicidade do agente identificado, o que é suficiente para recomendar medidas preventivas imediatas se o risco for sério e evidente. “Já a semi-quantitativa leva em conta dados adicionais, como quantidade de produto químico utilizado, condições de uso, volatilidade, classificando as situações em faixas de controle (Control Banding)”, exemplifica. Já a avaliação quantitativa, segundo Berenice, é bem mais complexa e seu resultado é sempre uma estimativa do valor real de concentração, dentro de um nível de confiança, geralmente 95%. 

O problema com avaliações quantitativas é que, se não forem bem feitas não têm valor, e, se forem bem feitas são geralmente dispendiosas em tempo e recursos. Atualmente, a higienista diz que existem muitos bons instrumentos de medição direta em real time, o que não dispensa uma boa estratégia de medição. Quando são coletadas amostras a serem analisadas em laboratório, ela indica que ainda há a dificuldade do seu armazenamento e transporte e da eficiência do laboratório analítico, sendo indispensável um programa eficiente de controle de qualidade de todo o processo.

“Ainda há o problema da interpretação dos resultados das avaliações quantitativas, por exemplo, das estimativas de concentração no ar de um contaminante atmosférico. Nesse caso, são necessários conhecimentos de estatística, a fim de se fazer um tratamento correto dos dados obtidos, levando em conta a exatidão e a precisão necessárias. Não podemos esquecer que existem muitas incertezas, tanto quanto aos resultados obtidos a partir de amostras e medições, como quanto aos LEOs (Limites de Exposição Ocupacional) com os quais os resultados são comparados”, elenca Berenice.

Falando de riscos físicos e químicos, a especialista diz que, por muito tempo, as avaliações de Higiene Ocupacional aceitas eram quantitativas, resultando, muitas vezes, em riscos óbvios não sendo controlados por falta de competência e instrumentação para avaliar. “Em alguns países, por exemplo, países nórdicos, há décadas, já eram aceitas avaliações qualitativas no caso de riscos óbvios e sérios, sendo a diretiva: primeiro aplicar as medidas de controle necessárias e depois avaliar quantitativamente a fim de comprovar sua eficiência.”, refere a higienista. 

FALTA DE CONHECIMENTO

Leme: negligências | Crédito: Arquivo pessoal

Engenheiro de Segurança, especialista em Higiene Ocupacional e membro da bancada dos trabalhadores na CTPP (Comissão Tripartite Paritária Permanente) pela NCST (Nova Central Sindical de Trabalhadores), Robinson Leme, diz que os riscos ocupacionais até têm sido reconhecidos, porém, por falta de conhecimento das metodologias de avaliação quantitativa ou por não possuir equipamentos que atendam às metodologias, essas avaliações não têm sido realizadas. “Tenho visto o absurdo de laudos de insalubridade e periculosidade ou mesmo o LTCAT de agentes de riscos que exigem avaliações quantitativas, sem os resultados nos laudos, o que prejudica os trabalhadores e principalmente as organizações, que podem ter os riscos subestimados, trazendo agravos à saúde dos trabalhadores, possibilidade de doenças ocupacionais e demandas trabalhistas”, comenta.

Um exemplo, conforme Leme, são as avaliações de vibrações ocupacionais (VCI e VCM), que demandam equipamento de alto custo e metodologia de avaliação complexa. “As mesmas acabam sendo negligenciadas pela maioria dos profissionais de SST. Mesma situação acontece com as exposições às poeiras minerais, quando são indicadas medidas de proteção individual, como os respiradores, geralmente com filtros P2 ou P3. Porém, não se sabe se o EPI é eficiente devido ao fato de não se conhecer as concentrações e se são carcinogênicas devido ao teor de sílica”, ressalta.

O higienista lembra que atendeu uma organização na qual o antigo PPRA indicava a necessidade de avaliações de poeira mineral. Porém, a avaliação estava prevista há anos no cronograma de ação do programa, sem que tivesse sido realizada, mesmo com setores apresentando altas concentrações de sílica livre cristalizada na empresa. “Não havia conhecimento por parte dos profissionais de SST dos riscos de poeira contendo sílica, que no caso deste setor têm amplos estudos, ou os equipamentos e o custo iriam encarecer a avaliação?”, questiona.

QUALIFICAÇÃO

Formação e atualização são essenciais | Crédito: Luís Gustavo Neder

Devido à diversidade dos riscos e à complexidade dos processos de avaliação, a atualização profissional na área precisa ser constante. Marcos Domingos da Silva, mestre em Saúde Pública, com ênfase em Higiene Industrial, tecnologista sênior da Fundacentro, ex-presidente da ABHO (2003-2009) e consultor em higiene ocupacional, afirma que a Higiene Ocupacional é uma disciplina muito mal ensinada nas escolas. “Os alunos não têm acesso à instrumentação e ao laboratório”, aponta.

Para Berenice Goelzer, o profissional não ter um excelente conhecimento sobre o processo de trabalho em estudo e os fatores de risco, possivelmente associados, bem como sobre sua atuação no organismo humano, também dificulta as avaliações. “No caso de agentes químicos, por exemplo, são necessários conhecimentos que incluem princípios de toxicologia, a fim de considerar devidamente aspectos como vias da entrada no organismo, tempo de ação rápida ou longa, entre outros detalhes indispensáveis. Pois existem os chamados ‘riscos ocultos’, que são substâncias não utilizadas, mas que ocorrem acidentalmente em locais de trabalho. Por exemplo, a dioxina, que pode ocorrer como subproduto, e o ácido cianídrico, devido a uma reação química entre substâncias incompatíveis (no caso, cianetos e ácidos) ou devido à decomposição térmica de certos materiais”, completa.


ESTRATÉGIA DE AMOSTRAGEM (*)

Para que uma avaliação quantitativa de riscos químicos seja confiável, é fundamental elaborar previamente e com base em reconhecimento de riscos bem feito, uma estratégia de amostragem correta que deve estabelecer:

Crédito: Industrial Scientific

1º. O que avaliar? (qual fator de risco)

2º. Como? (metodologia)

3º. Onde medir ou coletar amostras (em relação à localização de fontes de risco e dos trabalhadores potencialmente expostos)

4º. Quando? (em que etapas do processo)

5º. Por quanto tempo? (por exemplo, se forem agentes de ação rápida no organismo, devem ser amostras curtas)

6º. Quantas amostras ou medições? (a fim de estimar, por exemplo, a concentração de um agente químico)

*Isso deve ser feito com base no reconhecimento correto de todos os riscos químicos prováveis, o que requer conhecimento do processo e das práticas de trabalho; de onde e quando o fator de risco pode aparecer; quais as consequências da exposição, etc.

Fonte: Berenice Goelzer/higienista ocupacional


Compreendendo e controlando riscos

Melhorias são observadas com a aplicação das metodologias corretas

As áreas de SST de organizações e consultorias que realizam avaliações ocupacionais como rotina garantem que este processo confere melhor entendimento sobre como ocorrem as exposições.

Um destes exemplos vem da Itaipu Binacional, onde as avaliações qualitativas e quantitativas, principalmente para os agentes químicos e ruído, são mais frequentes nas atividades de manutenção eletromecânica de equipamentos de geração e transmissão de energia. A engenheira de Segurança do Trabalho e higienista ocupacional da companhia, Thiciane Guilhem Peres, conta que, desde 2020, especificamente para os agentes químicos, o SESMT da Itaipu desenvolveu uma metodologia de avaliação qualitativa baseada no Control Banding que está sendo implantada gradativamente.

Com uma série de produtos químicos utilizados na usina hidrelétrica, como ácidos, bases e solventes, o cenário diversificado apontou a necessidade de estruturar um método para melhor identificar, avaliar e controlar esses riscos. A partir da avaliação qualitativa foi possível estabelecer medidas de controle. Posteriormente, a eficácia das ações foi analisada através da análise quantitativa. “Com o monitoramento inicial através do Control Banding o SESMT conseguiu entender melhor como ocorrem as exposições, facilitando o julgamento profissional à decisão da tolerabilidade da exposição”, explica. O método, conforme Thiciane, envolveu a análise das fontes, ambientes, vias de dispersão dos agentes e de entrada no organismo, principais danos, frequência e duração da exposição, além da análise relativa às propriedades intrínsecas do produto, facilitando a compreensão sobre a sua agressividade.

DESAFIO

A higienista lembra que, antes da aplicação da metodologia, um desafio da área residia em priorizar exposições para análise de controles e avaliações quantitativas frente ao cenário diversificado de processos e produtos químicos utilizados. “O Control Banding permitiu, por exemplo, a otimização de recursos, já que o método indica as exposições que se encontram reduzidas, controladas ou fora de controle, cabendo a realização de avaliações quantitativas principalmente para exposições que demandem maior conhecimento da exposição ou para comprovar que estejam controladas”, detalha.

Durante a avaliação de produtos químicos do Laboratório de Concreto da Itaipu, por exemplo, foram reconhecidos mais de 70 produtos químicos dos quais apenas 22 necessitaram de ações, dentre quantificação e/ou melhores controles. “Com isso, verificamos que para riscos considerados altos, era preciso a implementação imediata de controle, podendo, se necessário, realizar posterior avaliação quantitativa. Desta forma, a melhoria da condição de risco passou a ser prioridade”, destaca.

Outro exemplo citado pela higienista ocorreu no setor de monitoramento do reservatório com análises de peixes, que resultou na avaliação qualitativa de 13 produtos químicos, em que apenas três tiveram maior representatividade. “Dentre as recomendações adotadas, destacaram-se ações simples e de baixo custo, como a elaboração de POP (Procedimento Operacional Padrão) ou inclusão em procedimento já existente relativo aos riscos, medidas preventivas e de emergência quando da utilização de produtos químicos e orientação quanto à utilização de capelas, bem como a sua manutenção e utilização de respiradores adequados. Agora, com base nas avaliações qualitativas realizadas, será planejada a realização de amostragens desses agentes químicos”, detalha.

REDUÇÃO DE CUSTOS

Lima: real exposição | Crédito: Arquivo pessoal

Outra empresa que se beneficiou dessa abordagem qualitativa ou semi-quantitativa, como é conhecido o Control Banding, foi a JA Saúde Animal, que fabrica medicamentos para animal de produção. O técnico de Segurança do Trabalho, Flavio Lima, conta que a empresa utilizou o método na área de produção de hormônios com o objetivo de monitorar a exposição, por via respiratória, aos agentes químicos utilizados no setor. “A maior dificuldade era monitorar as substâncias que não possuíam limite de exposição ocupacional conhecido, e o Control Banding solucionou esse gap”, recorda.

Com uma abordagem aplicada através de modelagens matemáticas, em conjunto com uma análise qualitativa robusta que considera diversas características da substância encontrada na área, bem como as medidas de controle presentes no ambiente, Lima afirma que foi possível determinar a real exposição ocupacional, além do FMPR (Fator Mínimo de Proteção Requerida). “Através das conclusões encontradas foi possível redimensionar o EPR (Equipamento de Proteção Respiratória) utilizado no setor, que estava superdimensionado, exatamente pela dificuldade em se determinar a real exposição. Assim, a aplicação da metodologia gerou impactos positivos na rotina de trabalho dos funcionários e economia para a empresa”, detalha.

Quando o setor foi implementado, o técnico conta que não foi possível determinar a exposição, por isso optou-se por utilizar a proteção mais completa. Com a avaliação, foi identificado que a exposição era muito baixa ou praticamente inexistente, pela concentração, dispersão no ar, entre outros pontos avaliados. A constatação permitiu substituir o respirador de adução de ar, que tem um fator de proteção mil e é bem mais oneroso, por uma peça de proteção semifacial, a PFF2, com fator de proteção 10. “Ou seja, os trabalhadores do setor estavam utilizando uma proteção superdimensionada pela dificuldade na avaliação dos riscos. Através das análises conseguimos mensurar melhor e ajustar o tipo de proteção”, completa.

Desta forma, o técnico de Segurança do Trabalho verificou na prática que as duas avaliações, tanto qualitativa quanto quantitativa, são complementares. “A análise qualitativa é sempre utilizada por nós quando identificado um risco. Por meio dela determinamos a necessidade de realização de amostras quantitativas ou não. Acreditamos que a simples coleta de uma amostra pode não representar com fidelidade a exposição laboral, assim como uma análise qualitativa superficial pode apresentar resultados equivocados. Metodologias que agregam análises qualitativas e também quantitativas conseguem dimensionar de forma mais assertiva os riscos no ambiente de trabalho e nortear melhores decisões”, comenta Lima.

CONSULTORIA

Empresas que prestam consultoria na área de Higiene Ocupacional, também têm experiências positivas para compartilhar quando o tema são as avaliações. Uma delas, a GoldenSEG, de Itajaí/SC, que atua há oito anos no mercado com foco em HO, tem na sua rotina avaliações de exposição ocupacional. Entre seus clientes, estão empresas de grande porte de terminais portuários e retroportuários, navegação de cabotagem, construção civil, indústria pesqueira, armazéns frigorificados, indústria têxtil, entre outros.

Sell: demanda alta | Crédito: Arquivo pessoal

Técnico em Higiene Ocupacional Certificado pela ABHO (THOC 0052), tecnólogo em Gestão Ambiental e técnico de Segurança do Trabalho, Marcos Sell, conta que a GoldenSEG tem uma grande demanda de avaliações quantitativas devido às características das exposições ocupacionais que prevalecem em seus clientes, com muita variabilidade ao longo do tempo no perfil de exposição de seus GES (Grupos de Exposição Similar). “Basicamente, utilizamos para essas avaliações instrumentos de medição, calibradores e acessórios específicos de acordo com o agente a ser avaliado, como por exemplo: dosímetros de ruído; monitor de stress térmico; medidor integrador de vibrações humanas e transdutores (acelerômetros) para corpo inteiro e para mãos e braços; sistemas de coleta de agentes químicos compostos por bombas de amostragem, dispositivo de coleta e mangueira; monitores passivos para agentes químicos, entre outros”, detalha. Com relação a ferramentas disponíveis relacionadas com avaliações quantitativas das exposições ocupacionais, Sell indica que, atualmente, existem, de forma gratuita, aplicativos, softwares e planilhas. “O aplicativo Monitor IBUTG da Fundacentro para avaliação da exposição ocupacional a calor sem fontes artificiais em ambientes de trabalho externos é um exemplo. Também pode-se citar o aplicativo ClimApp (União Europeia) para avaliação de estresse térmico por calor e frio; o software Evalfrio do INSST da Espanha e o Java para ISO 11079, ambos para avaliação de estresse térmico por frio; planilha de modelagem matemática IHMOD da AIHA (American Industrial Hygiene Association) para estimativa da concentração de agentes químicos, entre outros”, complementa.

MAIS PRECISÃO

GoldenSEG: priorização, controle e gestão dos riscos | Crédito: Osmarildo de Jesus

O técnico em Higiene Ocupacional, porém, lembrou que, ao realizar uma avaliação quantitativa, se está sempre “estimando” um resultado. “Sempre teremos incertezas incutidas nas metodologias e nos instrumentos de medição. Portanto, a meu ver, os resultados nunca podem ser considerados como totalmente precisos”, alertou. No entanto, o técnico complementa que, quando bem planejadas, as avaliações quantitativas conferem muitos benefícios. A possibilidade de estimar a concentração ou intensidade das exposições e como elas variam ao longo do tempo para um GES é um deles. “Seja dentro de uma jornada de trabalho ou ao longo dos dias e meses, no que entendemos como um perfil de exposição ocupacional bem estimado, através de descritores estatísticos. Isso garante um nível mais alto de certeza sobre o nível específico de exposição, facilita a sua classificação em relação aos limites de exposição e possibilita um melhor julgamento acerca da aceitabilidade da exposição do grupo. Desta forma, facilita-se a priorização das ações e implementação das atividades de controle e gestão dos riscos”, conclui.

Seja qual for a metodologia adotada nas avaliações ocupacionais, se através destes exemplos citados pela reportagem ou de outros existentes, o certo é que os profissionais de SST devem sempre ter em mente que este processo é considerado como um meio, uma das etapas para a identificação e o controle dos agentes de risco no ambiente de trabalho. Um caminho que deve ser conduzido com atenção às constantes atualizações na área de Higiene Ocupacional e muito estudo.

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