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quinta-feira, 07 de julho de 2022

Entrevista – Uma entusiasta da ergomomia – Ed. 363

Por Marla Cardoso/Jornalista da Revista Proteção

Educadora e ergonomista reflete sobre o novo texto da NR 17 e os caminhos para colocar a norma em prática

Ainda na faculdade, na disciplina de Fisioterapia Preventiva, há cerca de 20 anos, Fabiana Raulino da Silva teve, pela primeira vez, contato com a ergonomia. Nas aulas, recorda ter estudado sobre as questões do trabalho que poderiam levar ao adoecimento. Foi o suficiente para despertar na estudante paulistana a visão prevencionista. “Passei a me perguntar porque esperamos o absenteísmo, a incidência de uma doença, ou um acidente, se podemos antecipar, mapear e treinar o nosso olhar para deixar os ambientes de trabalho mais seguros e saudáveis?”, lembra.

A paixão de Fabiana pelo tema fez com que ela se tornasse monitora da disciplina até concluir a graduação em 2004. E não parou mais de estudar ergonomia. Depois de formada, teve uma passagem pelos Estados Unidos para conhecer a área, se especializou em Ergonomia da Atividade pela USP e concluiu um mestrado em Engenharia de Produção. Paralelo aos estudos, trabalhou em grandes consultorias e atendeu empresas de todos os ramos. Descobriu também o amor pela docência, e se tornou professora na área de Ergonomia e Saúde e Segurança do Trabalho em diversas instituições pelo país.

Hoje, aos 39 anos, Fabiana diz ter orgulho em conciliar a academia com o mercado e segue mantendo essa rotina, seja através da consultoria ou das aulas que ministra. “Amo a educação e acredito no desenvolvimento de estratégias criativas para engajar os trabalhadores a terem uma real cultura prevencionista”, detalha.

Qual sua opinião sobre a NR 17 recentemente publicada?

Certamente essa versão traz avanços e corrige alguns pontos que já estavam sendo sinalizados no Manual de Aplicação da NR 17 publicado em 2002. A nova redação se comunica de uma forma mais clara e introduz pontos importantes para a atualidade, como a integração com a nova NR 1 e o GRO (Gerenciamento de Riscos Ocupacionais) , a inclusão da AEP (Avaliação Ergonômica Preliminar) e, especialmente, colocando a AET (Análise Ergonômica do Trabalho) em seu real papel de estudo aprofundado, quando houver uma demanda, e não obrigatoriedade generalizada, o que produzia documentos rotineiros, protocolares e reducionistas que, em sua maioria, nada ajudaram a transformar as situações de trabalho. Percebi uma verdadeira maturidade, embora ainda existam pontos que foram deixados de fora e são urgentes na atualidade, como os riscos pertinentes à ergonomia cognitiva e os fatores de ordem psicossocial.

Pode explicar melhor sobre estes pontos que ainda merecem avanço na norma?

Pois então, tanto a ergonomia cognitiva como os fatores psicossociais não entraram nessa redação. Na CTPP (Comissão Tripartite Paritária Permanente), acordaram que haverá um grupo de estudo sobre essa questão, já que estes pontos extrapolam a ergonomia. Como a participação social pressupõe acordo e compreensão de todos, percebe-se que o grande problema é que esses fatores são de maior complexidade e muito de sua análise é invisível, menos óbvia, o que dificulta o acordo para que a redação seja verdadeiramente compreendida. Isso mostra a urgência e a emergência de formação em ergonomia no Brasil, já que até entre os ergonomistas mais experientes ainda existem pontos que precisam ser compreendidos em maior profundidade, formatos que precisam seguir em direções mais coerentes e, especialmente, conhecimentos que precisam se entrelaçar de forma progressiva para a compreensão desses fatores. Claro que quando falamos desse campo tão vasto que é o da ergonomia precisamos destacar que existem recortes. Mas um dos pontos que pude notar foi que o item 17.4.7 prevê a importância do papel da liderança e a necessidade de se facilitar a compreensão das atribuições, manter aberto ao diálogo, facilitar o trabalho em equipe e estimular o tratamento justo e respeitoso nas relações pessoais. Só que daí, quando nos empolgamos com esse item que traz esse avanço em busca de maturidade organizacional, vem o item 17.4.7.1 que dispensa as empresas com até 10 trabalhadores de atender a esse mesmo item.

E os pontos fortes do novo texto?

Como avanços, não apenas na NR 17, mas como um ponto comum às novas redações das normas regulamentadoras, percebemos a maturidade em se falar em gestão integrada, parando de fragmentar o olhar prevencionista e apontando caminhos para o gerenciamento de riscos ocupacionais como um todo. Esse é o principal avanço. Trazer a obrigatoriedade de uma avaliação preliminar de ordem mais geral e simplificada também merece destaque. A redação anterior tornava obrigatória a AET e isso banalizou o propósito desta análise porque ela requer um estudo aprofundado de uma demanda de ordem complexa e de alta importância. A Análise Ergonômica do Trabalho proposta na NR 17 foi concebida por uma perspectiva antropológica, pensando o trabalho a partir da experiência dos trabalhadores, além de contribuir para o desenho de sistemas mais seguros. A questão é que toda análise do trabalho precisa abranger todas as dimensões (físicas, cognitivas, organizacionais, ambientais e psicossociais) e a forma como a norma era abordada dava muito a entender que apenas os aspectos físicos mereciam destaque.

Ou seja, a primeira redação da NR 17 ficou um pouco genérica?

A primeira redação desta norma foi elaborada em um período delicado e trouxe uma evolução tremenda no conceito da ergonomia e desenvolvimento da profissão dos ergonomistas no Brasil. Isso é inegável e tem seu papel histórico. Mas a demanda que levou à primeira redação da NR 17 foram movimentos sindicais, especialmente de digitadores, e isso levava a um texto que misturava um pouco as informações e procurava apontar direções generalistas. A nova redação também amplia a noção de trabalho para além da indústria, abrangendo em seu texto, a ação no setor de serviços que tanto tem crescido no Brasil. A norma também inclui mais claramente a necessidade de pausas e organiza melhor o texto sobre cadeiras no posto de trabalho (priorizando, não o trabalho sentado, mas sim a alternância postural), já que uma das principais características psicofisiológicas dos seres humanos é a necessidade de variação postural. O levantamento e o transporte de cargas também teve pontos mais aprofundados e a necessidade de assentos para descanso também explicitou a necessidade de se ter encosto. Houve ainda a harmonização dos Anexos 1 e 2 com as demais normas já revisadas e publicadas e o tratamento diferenciado para micros e pequenas empresas.

Como envolver trabalhadores e empresas para que a AET (Análise Ergonômica do Trabalho) e a AEP (Avaliação Ergonômica Preliminar) não sejam apenas documentos cumpridores de norma e atendam às reais necessidades do mundo do trabalho?

Uma nova redação da NR 17 aponta melhores caminhos, mas não resolve todos os problemas. A Ergonomia ainda é uma ciência que vive sendo reduzida à análise biomecânica em muitas formações. Continuamos a ter muitos ergonomistas com papel estratégico nas organizações desenhando sistemas que em nada consideram as reais características dos seres humanos. Isso gera um ciclo vicioso e acaba mantendo viva a visão taylorista de fragmentação do trabalho que continua gerando adoecimentos e o esvaziamento do trabalho. É preciso que as formações como um todo compreendam que não se trata apenas de postura. A ergonomia é uma ciência que trata da variabilidade e complexidade das diferenças entre o que é prescrito pelas organizações e as condições reais em que o trabalho realmente ocorre. A palavra “trabalho” tem papel central na vida dos seres humanos e impacta diretamente em sua identidade, no seu sentimento de utilidade e, sem dúvida, em sua felicidade. Então, tratar de forma reducionista e protocolar a análise de uma situação de trabalho é realmente ignorar o nosso papel de transformação positiva do mundo do trabalho e da sociedade. É preciso paciência e tempo, mas se não alinharmos exatamente o real papel da ergonomia, continuaremos separando a academia da realidade e tratando como documento o que é, na verdade, uma necessidade de redesenho do trabalho. José Marçal Jackson Filho, pesquisador da Fundacentro, um dos responsáveis pela nova redação e um dos grandes professores em ergonomia do país, citou uma fala do professor Jeffrey Pfeffer da Universidade de Stanford: “A única solução eficaz para preservar a saúde das pessoas é o redesenho do trabalho para criar ambientes profissionais saudáveis que promovam a sustentabilidade humana”. Aqui, claramente, falamos de modelos do mundo do trabalho, algo de ordem sistêmica e organizacional, o que exige um movimento de reflexões profundas e real busca de sustentabilidade em seu sentido mais amplo. Sei que tenho claramente o viés da educação, mas é inegável seu papel na orientação de ergonomistas, organização e trabalhadores para que reais transformações aconteçam.

Você acredita que já há uma abertura das empresas para a participação maior dos trabalhadores na identificação dos riscos ergonômicos e na busca por soluções?

A ergonomia busca compreender o trabalho para transformá-lo e isso é impossível sem considerar os saberes dos trabalhadores. O saber técnico de quem realiza essa identificação é essencial, mas são os trabalhadores que compreendem como a atividade ocorre e quais são os constrangimentos da tarefa que podem afetar sua saúde, segurança, conforto e desempenho eficiente. Quando menciono a palavra constrangimento me refiro às restrições e incoerências que podem estar presentes limitando a ação humana e à margem de manobra para regular os aspectos de seu trabalho em busca de formas mais saudáveis de realizá-lo. A ergonomia se coloca no campo das ciências que procuram compreender (e transformar) a realidade. Desta forma, é evidente que o trabalho do ergonomista é dar espaço de livre circulação da palavra a todos os atores envolvidos na situação de trabalho e procurar traduzir isso de forma clara para alinhar as diferentes perspectivas. Isso se inicia desde o alinhamento inicial sobre qual será a demanda analisada pela ergonomia, e não deve ser diferente na AEP. Embora esta última seja uma avaliação mais simplificada e a norma esclareça sobre a liberdade de se escolher a metodologia para realizá-la, é necessário lembrar que aplicar um checklist de forma distante sem ouvir os trabalhadores pode esconder fatores invisíveis aos olhos e que podem estar gerando profundos impactos naquela situação de trabalho.

De que forma pode ocorrer esse envolvimento dos trabalhadores tanto na etapa da AEP como na AET?

A ergonomia possui um caráter essencialmente aplicado. Não é possível compreender uma situação de trabalho sem a ativa participação dos trabalhadores e isto está na essência da ergonomia. Há metodologias que facilitam esse diálogo de forma que fique mais claro para as organizações que a fala dos trabalhadores aparece, não em busca de problemas, mas sim das reais questões a serem compreendidas. O diálogo surge para se buscar conhecimento da atividade e serve como forma de aprendizagem organizacional, estreitando as relações, gerando uma oportunidade de mudar, conhecer, compreender e transformar. Dessa forma, é papel do ergonomista proporcionar ação, reflexão e ação procurando esclarecer sempre em seu trabalho que esse diálogo irá ocorrer e de forma saudável e mediada. A ergonomia participativa já se inicia com uma pergunta aparentemente simples, mas extremamente poderosa: “o que você faz no seu trabalho”? Isso provoca reflexões, associações, memórias, verbalizações, fala e escuta ativa. Quando temos o anonimato garantido, a participação voluntária e, principalmente, trabalhadores iguais hierarquicamente conversando sobre as situações de trabalho, podemos evidenciar as regulações e suas individualidades, priorizando a troca de experiências.

Como colocar a NR 17 em prática, visto que muitas empresas não contam com o trabalho de especialistas em ergonomia?

A AEP se tornou obrigatória em todas as empresas, seus resultados e seu plano de ação devem constituir o PGR (Programa de Gerenciamento de Riscos). Então, todas empresas precisarão se organizar para olhar com cuidado para esses fatores e buscar a formação necessária para que esse trabalho seja realizado da melhor forma possível. Acredito que desde a publicação da Nota Técnica 287/2016, elaborada pela Coordenação Geral de Normatização do DSST/SIT, se tem clareza de que a AET precisa da presença de um ergonomista com formação superior e proficiência na área. Em Higiene Ocupacional, por exemplo, certas medições e normatizações conseguem quantificar os fatores físicos, químicos e biológicos, o que permite uma sistematização numérica que gera menos dúvidas em relação a como agir em cada situação de trabalho de acordo com a hierarquia de controle de riscos. No caso da ergonomia, existem aspectos invisíveis e subjetivos que podem levar a adoecimentos e acidentes e, aí, não tem jeito, é preciso contar com a presença de um especialista. Algumas empresas podem, ainda, contar com a Abergo para indicar profissionais certificados. Já no caso da AEP, não há essa normatização, o que abre espaço para diferentes atores se envolverem no processo de identificação de perigos e dimensionamento dos riscos em ergonomia de acordo com perspectivas e olhares diferentes. Mas é importante não tratar de forma cartorial a documentação desses fatores. Muito se pergunta sobre quem pode assinar determinado documento, esquecendo que uma real gestão se realiza de forma participativa, com transparência, diálogo e alinhamento de olhares. A documentação é a sistematização de um programa muito maior e acredito que a nova NR 17, alinhada à NR 1, deixa isto mais claro. As constantes transformações no mundo do trabalho e no comportamento das pessoas nos empurram para caminhos em busca de um trabalho mais saudável e sustentável, mas é claro que ainda existem empresas com baixos níveis de maturidade organizacional que enxergam apenas documentos legais e não um real gerenciamento de riscos ocupacionais. Só é possível aplicar a NR 17 se as empresas tiverem verdadeiro interesse em realizar gestão em saúde e segurança. Ou ainda continuaremos com a visão reducionista e protocolar de produzir documentos que em nada transformam o trabalho. A legislação vai fazendo seu papel em apontar diretrizes, mas uma abordagem punitiva e de fiscalização ainda mostra que certas empresas precisam amadurecer seu olhar.

Como os profissionais de Saúde e Segurança do Trabalho, que não são especialistas em ergonomia, podem se capacitar para que tenham um olhar para os riscos ergonômicos e busquem soluções efetivas?

Hoje, com o avanço da internet, é possível encontrar informações em diferentes fontes, o que pode ajudar muito, mas pode confundir muito também. É preciso saber quais as melhores e mais confiáveis fontes de conhecimento em ergonomia porque existe muita produção de conteúdo com falas emblemáticas, mas que apontam caminhos confusos na contramão do que realmente é ergonomia. Hoje, com o GRO e a nova redação da NR 17 vale buscar o que foi produzido e discutido pelos próprios profissionais que foram responsáveis pela elaboração dessas diretrizes. Nada melhor do que ouvir da própria fonte o que existe por trás de cada escolha na elaboração de uma normatização. Isso é possível de diferentes formas, mas acredito que o YouTube tenha feito isso de forma bem democrática e organizada. Em ergonomia, vale buscar pelos canais da Fundacentro e da Ergonomia da Atividade que tratam de forma exemplar e muito confiável sobre essas questões. Para quem busca uma formação mais aprofundada e que possa ser customizada à sua própria realidade de trabalho também existem muitas opções. A própria Universidade Proteção está desenvolvendo um programa de aperfeiçoamento para atender essa demanda, pois a revista Proteção tem uma longa história em nos informar da forma mais coerente possível e reunir profissionais de referência que tratam a produção do conhecimento com muito respeito e com a real intenção de melhorar a saúde e segurança. Diferentes formações são possíveis, desde que lembremos da frase atribuída a Albert Einstein: “nem tudo que conta pode ser contado e nem tudo que é contado conta”. Sempre precisamos saber que, em ergonomia, é preciso compreender o trabalho para realmente transformá-lo e, se fizermos isso, não apenas como trabalhadores, mas como sociedade, todos estaremos produzindo um mundo melhor.

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